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Meus Respeitos a Egungum

08.11.2015

 

O barracão da casa de Candomblé em que fui criada e iniciada tem aproximadamente mais de 300m2, nos finais de semana em que haviam compromissos, sempre dormíamos nesse espaço. Praticamente todos os filhos da casa, mulheres de um lado, homens do outro. O banheiro, para os não iniciados, fica do lado de fora, um pouquinho distante.

 

Ao longo de muitos anos e durante várias vezes, a noite, eu acordei com vontade de ir ao banheiro, mas preferi tentar segurar até o amanhecer. Era comum, para mim, escutar um barulho durante o alto da madrugada um chiiiiiiiiii .... chiiiiiii - como o barulho de alguém que andava sem levantar os pés - e logo após vinha um cric cric cric cric cric ... - um barulho de corrente também ia sendo arrastada. Fora os passos e as inúmeras sombras. Sempre tive vergonha de falar sobre isso. É muito comum, em todas as religiões inclusive, que as pessoas inventem mentiras sobrenaturais por vários motivos. O primeiro e digno de pena é  pautado em filmes Hollywoodianos, como se a pessoa que visse ou ouvisse qualquer coisa que não seja deste mundo, fosse uma espécie de escolhido, favorito, poderoso ou qualquer porcaria do tipo. A outra é no intuito de fortalecer a fé ou o medo alheio, para angariar mais fiéis a custa de mentiras. A casa do culto dessa energia ancestral, sempre foi aquela láaaaa no cantinho do terreno, velha, mal pintada e com um aspecto nada, nada, nada hospitaleiro. Só restava colocarem uma placa:  Crianças, fiquem longe daqui!

 

Eu aprendi no Candomblé que culto a Egungum é coisa de homem, e que mulheres são apenas "cunhãs" e olhe lá. Aprendi que o culto a Egungum tem uma energia sombria e que eu jamais teria nenhum tipo de acesso. Os barulhos que eu ouvia? Ah sim! Era coisa de Egungum segundo os sabidos e mais velhos.  Resumo: Eu nunca quis nem ao menos estudar sobre esse assunto. Ele não me pertencia. Na minha cabeça, prática, era simples assim.

 

Com minha vinda para o Culto Tradicional, com relação a esta energia ancestral, talvez tenha sido esta, uma das mudanças mais drásticas que sofri em minha fé.  Hoje acredito que a maioria de nós, cultuadores, precisam ser iniciados em Egungum. Obviamente com a indicação de Ifá.

 

Quando somos crianças, temos nossos pais como grandes heróis, mas logo no início da vida adulta, entendemos que eles são tão humanos como nós. Esse despertar  acontece de uma maneira dramática ou não. Algumas pessoas compreendem isso de uma forma sábia, e dão continuidade a esta relação, da maneira mais linda que existe neste mundo: O amor incondicional. Outras, no entanto, criam remorso, mágoa, não reconhecem o papel e a importância da família e ao se virem assim, logo se afastam. Separam apenas o corpo, mas o coração e alma permanecem presos, ao sofrimento, aos conflitos, as diferenças de pensamentos e a solidão. A família que deveria acolher e amparar ao longo da vida, assume o papel de inimigo. Famílias inteiras se dividem e nunca mais celebram a união e cumplicidade. Várias vidas, no sentido de plenitude, são perdidas assim. São arruinadas, desperdiçadas e seladas com a tristeza, o vazio e a solidão. Alguns desses acontecimentos impactam diretamente em todas as próximas gerações. Crianças que são marcadas em seu nascimento. Crianças que podem um dia ter sido eu ou você. 

 

Em algum momento da sua vida, você observa a vida da sua mãe ou do seu pai e percebe que ambas, parecem estar seguindo um script,  um mesmo padrão. Padrões de escolhas, de acontecimentos, como se você não tivesse chance de escolher com o seu livre arbítrio, o que vai acontecer logo mais. Como se estivéssemos presos em um conto de história que já sabemos o final. Perdas de todos os tipos no mesmo período da vida e até doenças degenerativas.

 

Aprendi no Culto, que Egungum não é sombrio e não carrega correntes amarradas nos pés, isso é outra coisa, que a gente não precisa dar atenção agora. Aprendi que Egungum é venerável, são ancestrais masculinos dignos de respeito e adoração, que deixaram um legado e devem ser lembrados, geração após geração mesmo que tenham se passado mais de  mil anos de sua existência em aiyè. O culto a Egungum é a oportunidade que temos de ter contato com grandes sábios, que realmente se importam conosco e que conhecem as dificuldades da vida, assim como nós. Nossos ancestrais possuem grandes missões em nossas vidas. Eles podem fazer com que famílias inteiras sejam capazes de se perdoar, e que, assim, parem de atingir às futuras gerações. Restabelecem o núcleo familiar, interferem em perigos que possam estar a caminho de impactar uma família inteira, acabam com guerras por herança, atenuam vários tipos de discórdia e são capazes de quebrar esse processo cíclico de repetição de histórias em uma mesma linhagem. 

 

E foi no Culto que aprendi também, que a iniciação em Egungum na África não é feita apenas em homens. A iniciação e devoção a esta energia ancestral poder trazer uma maior compreensão acerca da senioridade e respeito aos mais velhos, além de ser capaz de regenerar o caráter espiritual que se reflete em desequilíbrios de toda ordem: física, emocional e espiritual. No site do Templo Oduduwa, há uma parte do texto que diz: " O culto a Egungun possibilita agir retroativamente no sentido de eliminar fatores desfavoráveis ocorridos ao longo das sete gerações anteriores de uma pessoa, dos quais decorreram dificuldades, doenças e problemas de toda ordem em sua vida. Esse culto também possibilita resolver conflitos familiares vividos por pessoas das gerações passadas para restabelecer o equilíbrio perturbado."

 

Hoje também está claro para mim, que ser iniciado e participar de alguns ritos específicos são coisas bem diferentes. Existem outras sociedades de culto à ancestralidade masculina, como Ìgunnukó, Oro e Agem, mas é  Egungum a mais conhecida no Brasil. 

 

Por fim, depois deste texto enorme, gostaria de dizer que me sinto feliz, por aprender e compreender tantas e tantas coisas que eu precisava calar e não tinha o direito nem sequer de perguntar.

 

 

*** Foto:. Homenagem ao inesquecível, honrado e venerável  Madiba - Nelson Mandela.

 

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