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Parte I - Exú no Culto Tradicional

16.11.2015

Tenho uma relação com Exú de entrega. Quando canto para louvá-lo chego a  arrepiar até a minha cabeça. Minha alma se entrega e se conecta a ele. Por vezes chego a fechar os olhos para poder prolongar a sensação. Eu me doou de alma e me liberto de quaisquer tipo de julgamento .

 

Só que o afeto e o respeito por esse Orixá Primordial não nasceu da noite para o dia. Quando eu era pequena, aprendi que Exú não gostava de criança. Sim, os adultos faziam questão de impor respeito através do medo. Nas imagens expostas em quadros no barracão, ele sempre aparecia como um homem com cara de mau, olhos puxados e vermelhos, chifres, rabo, tridente e o falo ereto. Quem você conhece com essas características? Quando tinha uns 11 anos pensei:  Será que eles adoram o diabo e estão me enganando? Tudo aquilo me deixava muito confusa. Mas não demorou muito tempo para que eu passasse a entender que na verdade éramos vítimas.

 

Nós, cultuadores de orixá, não reconhecemos a existência do demônio, ele não nos pertence. O diabo é cristão, ele existe na bíblia. Reconhecemos que energias negativas existem no mundo sim, mas elas não se chamam Satanás ou sinônimos. E trabalhamos para deixá-las longe de nós.

 

Quando os africanos chegaram ao Brasil, eles trouxeram com eles os seus Deuses. Ao conseguirem desembarcar vivos neste país, a religião católica era a oficial, ou seja, qualquer outra religião era fora da lei. Para você ter uma ideia, assim que os negros chegavam em terras brasileiras, e a até mesmo antes de desembarcar, eles eram obrigados a batizarem-se e a se converterem a uma religião que eles nunca tinham ouvido falar. Eram coagidos a mudarem os seus  próprios nomes. Havia coibição para louvar, adorar qualquer outro deus que não fossem Jesus, Maria, Espírito Santo, e todos os "São" alguma coisa. As penitências eram cruéis e desumanas. 

 

Mesmo assim, era sabido que os negros da senzala, continuavam a cultuar os orixás as escondidas. Foi então que a Igreja, para combater a fé dos africanos demonizou Exú, e propagou essa ideia em suas pregações religiosas.

 

A única similaridade com a verdadeira imagem de Exú em África é a relação dele com o falo. Exú é o Deus da fertilidade. Sem a fertilidade não existe eu, nem você, não existe a  humanidade, não existe o amanhã. O falo nesse contexto, não está ligado ao sexo pelo simples prazer, se o prazer vem junto, ok, mas estamos falando de descendentes. O sexo para o africano não tem a malícia como é no Brasil, isso é cultural.

 

Para complicar ainda mais,  existe uma legião de espíritos dentro da Umbanda que se intitulam Exú, como por exemplo Exú 7 encruzilhadas, Exú Caveira, Exú Marabô e etc. Esses seres, são o que denominamos de catiços. Eles Não são Èsú Orixá.  São espíritos que já viveram e assumem uma missão de orientadores, vamos colocar assim. Muitos desses catiços não tem boa fama e esse fato ajuda ainda mais a fomentar essa imagem distorcida de Exú.

 

Eu sei que é bem confuso, para mim também foi durante um tempo. Quando comecei a entender quem era Exú no Candomblé  ele assumiu o papel do primeiro Orixá, aquele que faz a comunicação entre Orun e Aiye, era ele quem levava os ebós para o caminho correto para que fossem aceitos. Exú, o parceiro inseparável de Orunmilá, que de tanto percorrer pelo mundo, conhecia todos os caminhos. Ele também era o porta voz de todos Orixás e deus da fertilidade. Grande e poderoso Exú.

 

Hoje o Orixá Èsú que cultuo não tem nenhuma influência brasileira. Em África, sua casa, ele é o senhor da paz e da harmonia, assim como da paciência e organização. Vai ficar interessante a próxima frase, mas eu posso afirmar: Exú é Fiel aos seus cultuadores e filhos. O oposto do que foi pregado pelos tão famosos Jesuítas no período da escravatura. Não existe  a mentira, a trapaça e a confusão, a maldade está no homem/mulher.

 

Entenda que, por vezes, algumas pessoas transformam Deus em uma energia vingativa e punitiva. Se este é Deus para você, assim será. Se você transforma a energia de Exú para o mal, assim será. Como diz Bàbá King, em seu livro - Exú e a Ordem do Universo, página 139, " O axé dos orixás é uma força neutra que opera de acordo com a vontade humana. "  

 

As cantigas de Èsú que cantamos falam de sorte, de equilíbrio e progresso trazidos por ele. Essa é a energia que evocamos, que nos faz sentir felizes ao receber esse axé. A energia primária de Exú tem prosperidade e muita, muita força. Qualquer coisa contrária a isso, não é adotado por nossa comunidade.

 

Continua.

 

 

 

 

 

 

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