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Vossa Majestade o Rei Sàngó - Parte I

 O que é ser justo?

 

Hoje, não acredito que eu tenha essa capacidade, a capacidade de ser justa como eu imaginava ter.
Por mais que eu já tenha batido a mão no peito para afirmar isso um dia. Não eu não sou.  Não sou, pois sou ignorante. Sou uma pessoa limitada aos meus conhecimentos e ao que consigo enxergar. Para isso me julgo pequena e incapaz, pois não  tenho a capacidade de dançar no tempo e visitar o passado e muito menos o Ori das pessoas.

 

Então, como eu posso afirmar que eu sou justa? 

 

Certa vez, numa obrigação anual de Xangô, isso há uns 6 anos, resolvi pedir justiça a Ele, no momento ápice do ritual, que era para garantir o pedido!  Havia uma determinada situação em  que me considerava vítima. Acho que no fundo, a gente sempre se acha vítima né? Pois é, após uma semana a situação como um todo deu um "twist carpado", e eu me lasquei todinha junto com a outra parte.  Situações que eu nem imaginava existir, saíram das sombras e do desconhecimento e me deram uma grande lição de vida. Quando tudo finalmente acabou, fui até o assentamento de Xangô, agradecer por ele ter me mostrado quem ele era e como agia de e fato a sua justiça. A questão é que a gente costuma considerar as situações justas, apenas quando elas estão ao nosso favor. Ahhh vá né! 

 

Quando minhas filhas estiverem grandinhas, eu vou entregar uma lista para elas das coisas que elas não devem fazer, dentre elas está: Cuidado ao pedir justiça a Xangô. Pois ele será justo, e não apenas a favor de vocês. 

 

Tenho aprendido muito no Ìsèse Làgbà* sobre Xangô, tenho me debruçado sobre livros, dos quais tento ver além de palavras e frases. Sempre me deparo com os “problemas” da passagem do conhecimentos oral, e percebo como o desconhecimento do idioma Iorubá nos torna... hummm... digamos assim... tolos.

 

Recentemente, aprendi que a saudação que fazemos ao Senhor dos Raios e Trovões, dentro do culto afro-brasileiro é fruto de um grande telefone sem fio. Me lembra um pouco até de quando eu era criança. Um pouco antes das festas no barracão, sempre nos diziam que mesmo que  não soubéssemos a cantiga, deveríamos cantar. Imagina isso na mente de uma menina de 11 anos?  Tinha uma cantiga para Logun, em ijexá, que eu e outras  crianças cantávamos assim: “Logun bebe Coca-Cola/Logun bebe Coca-Cola/ Não adianta trazer Fanta / Logun bebe Coca-Cola.”  Essa já era quase que um clássico. Tinha uma de Xangô também que eu gritaaava: “Macarrão com Siri é bom demais.../ Macarrão com Siri é bom demaaaaais.

Ok, parou a bobagem deixa eu voltar.

 

No Brasil, na maioria das casas, e eu ao longo da minha história com os orixás, saudei Xangô com muito vigor na voz entonando:  “Caôôôôôô Cabecilê”. Agora segura na minha mão – virtualmente –  e curte como é: “Káàbò o Kabiyesi!”(Lê-se : Caabó o Cabiêci), que significa – Bem-vindo, Vossa Majestade!” Pois é... rs Tanto que a saudação Kabiyesi, dentro do Culto, é usado em homenagem à alguns Orixás que também são reis, como para Obaluaiê, por exemplo.

 

Tem uma outra que eu também acho bizarra. Se você tem uma história dentro do culto afro-brasileiro há mais de 10 anos, com toda certeza você já ouviu falar que Xangô tem medo de Egun e que os filhos de Xangô não devem entrar em cemitério, antes de tomar uma série de providências. Ahamm, tá bom! Agora pensa comigo: Se Xangô de fato existiu, se ele foi inclusive o 4º Rei de Oyó, se há histórias reais dele como homem, e ele após a sua morte, tornou-se um ser venerável, tornou-se Orixá. Xangô na verdade é também um o quê? Como é que ele vai ter ewó, ou quizila de Egun?
Entendeu?

 

 

Eu conheço mais de 5 versões, entre africanas e brasileiras sobre a história de Xangô. As histórias são confusas e há versões em que o Rei foi filho Oranyan e que não conheceu sua própria mãe, sabendo-se apenas que  ela era Nupe, e que veio conhecer o nome dela em um ritual de magia. Em outras versões, ele é filho de Yemoja. Mas hoje eu penso que não importa de quem Xangô era filho, se nem na África eles sabem, imagine nós aqui do outro lado do Atlântico. Para mim, eu preciso apenas dos seus atributos e do seu Axé, para que eu me torne uma pessoa melhor.

 

A grande questão é que o Culto vem me ensinado a não olhar para os Orixás de maneira irracional.  Hoje sei por que Ogum é o senhor cortador de cabeças, e não tem nada a ver com ele ser um deus irracional que sai matando gente por aí a torta e a direita. Também não olho para Xangô como o Orixá Jakutá que sai atirando pedras por aí e cuspindo fogo pela boca por que estava irritado e nem Oxum como uma Deusa invejosa, que dissemina a discórdia em função de alguns itans entre ela e Oyá. Definitivamente não. O corpo literário dos Orixás precisa ser interpretado de uma maneira pensante, em que usamos os elementos da cultura iorubá  juntamente com a vida  na prática. Qual a coerência de cultuarmos deuses impiedosos, sanguinários e coléricos? Você ensinaria seus filhos a adorar um Deus que trapaceia quando dá na telha dele, como Exú, segundo os mitos? Seja sincero. Para cultuar Orixá é necessário fé, mas é preciso lógica, raciocínio, conhecimento e bom senso. E é justamente, esse esvair de brumas tão densas, dando lugar a beleza de uma realidade de pessoas que buscam ser melhores a cada dia, que me encanta na Filosofia Iorubá.

 

Continua...  o próximo texto já está prontinho e ficou super abençoado.

 

Mo juba meus irmãos.

Ire O

Ifasola

 

 

Glossário:
 

Ìsèse Làgbà : A palavra Ìsèse  significa em sumo significa todas as religiões,  tradições espirituais e culturas antigas de todos os povos.  Quando um Iorubá está falando de Ìsèse, pode estar falando de orixá, ele pode estar falando de vodun, ele pode estar falando de qualquer outra religião indígena africana. Ao dizer Ìsèse Làgbà, estamos falando que todas as tradições, orixá, vodun, etc., que pertencem às religiões indígenas são maiores que todas as demais religiões que foram impostas na Nigéria: Cristianismo, Islam. Assim a expressão Ìsèse Làgbà significa a cultura original.

 

Revisão:  Bàbáloòrisá Fernando Ifaseun , Sacerdote Egbé Àiyé Templo dos Deuses Africanos - Filiado ao Oduduwa Templo dos Orixás.

 

Bibliografia: 

ABIMBOLA, W. - Ijinlé Ohún - Enu Ifá- Apá Kejí - Nigéria, Oxford University Press - 1969

JOHNSON, S. - The History of the Yotuba from the Easliest Times to Beginning of the British

SÀLÁMÌ , S. - A Mitologia dos Orixás Africanos - Sàngó / Oya / Osún / Obà -  Vol I - 1990
DICIONÁRIO YORUBA PORTUGUÊS - José Beniste - 2011

 

Imagens:  Google Search - Autores não identificados, caso reconheça, por favor nos informe.

 

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