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Qual é a cor da Serenidade? - Òbàtálá

Texto com áudio, clique AQUI para ouvir.

Outro dia estudando, encontrei uma adura (reza) para Òbàtálá (Lê-se Obatalá) que dizia algo mais ou menos assim: “ … que os meus ciclos de ire (positivos/sorte) sejam longos e me deem motivos para sorrir e que os ciclos de negatividade, sejam proveitosos e breves….” Não era uma fonte muito confiável, uma tradução de um arquivo da internet sem autor (eu leio de tudo),  mas eu fiquei ali parada olhando aquelas linhas, pensando como a filosofia iorubá pode ser tão fundamentada para o nosso dia a dia, como ela é tão praticável.
ISSO! Acho que essa é a palavra: praticável, realista, exequível e possível. Acredito que esse seja um dos motivos que tanto me encanta. Justamente porquê a vida é isso! Ciclos. Tempos. Bons e ruins, para mim, para você e para qualquer pessoas que a gente conheça. Mas… Por que aquela frase estava justamente em uma adura de Obatalá?

 

Òrìsànlá (Grande Orixá, Rei que é Grande); Òrìsà-àlá (Orixalá, Orixá da Pureza); Obàtálá (Rei em vestes brancas ou Rei da Pureza); Oxalá no Brasil.  A visão que eu tinha sobre esse orixá foi limitada durante muito tempo em minha vida, era apenas um símbolo da realeza, do branco, aquele que molda os nossos corpos em nossa criação. Ele é bem mais do que isso. Me divirto um pouco em lembrar também do arquétipo de seus filhos/cultuadores.  Pai de uma galera com nível  Phd em teimosia. Sem falar que todas as vezes que os filhos de Oxalá fazem qualquer coisa errada, se dão muito mal, e ainda acabam sendo expostos em público pelos seus erros. Ah!!! Uma galera que acha que quando sai na rua os passarinhos tinham que parar de cantar e começar a aplaudir (brincadeirinha!). Eu sempre achei impressionante como os devotos do grande Rei do branco, podiam ser tão teimosos, afinal, Obàtálá em vários mitos, recebe um conselho de Orumilá para fazer ebó à Exú. Ele não faz e sempre se dá mal.

 

Então, voltando. O que eu conhecia e o que me ensinavam era raso e limitado. Eu cultuava Orixá puramente pelo axé que sentia e pelo amor inexplicável que faz parte de mim, mas nunca foi um sentimento respaldado pela razão ou pela lógica. Orixá do branco. Ok! Mas o que significava exatamente o branco? Você pode até não concordar comigo no que vou dizer, e isso é um direito. No entanto, eu acredito que precisamos desse equilíbrio da razão e da emoção. Necessitamos pensar e raciocinar até mesmo para alimentar o nosso Ori e darmos para ele um lugar em que possa se segurar e se abrigar nos ciclos de aprendizado que exigem mais força da gente. Somos seres sensoriais, mas somos conhecidos como uma espécie que raciocina.

 

Apenas agora, depois de tanto tempo e de uma forma tão deliciosa, vou redescobrindo os Orixás de uma maneira que sossega meu coração. Como raios de sol que ganham o dia e se expandem, fazendo tudo ficar claro e harmônico para que eu possa de fato enxergar.

 

Senhor do branco. Mas o que significa o branco?

 

O aspecto limpo, ilibado da nossa moral, das nossas atitudes, a verdade, as

boas e verdadeiras intenções de nossas ações, assim como a pureza do nosso coração. É isso que você diz ao mundo ao vestir branco na sexta-feira. É isso que você diz ao colocar panos brancos em homenagem a Obatalá. É isso que se espera de alguém que diz que é devoto/filho do Rei das Vestes Brancas. Paralelamente penso o quão essas virtudes deviam estar presente na vida de todos nós, cultuadores de Orixá. E se não estão, que possamos trabalhar cada uma delas em nós e construí-las no dia a dia. E isso independe se você é do Candomblé, da Umbanda ou do Culto Tradicional, estou falando de pessoas que cultuam Orixá de todas as maneiras. Estou falando de Corações Africanos, assim como o meu e possivelmente: o seu.

 

Orixá da Paz, Serenidade, Tranquilidade e da Criatividade.

 

Lembra da adura, do começo do texto? Eu acredito que descobri porque ela era uma reza de Òrìsà-àlá. Veja se concorda comigo:

 

É fácil manter a serenidade quando se está com a vida em paz. No momento em que há saúde em nós e naqueles que amamos, ou quando as nossas contas estão pagas, temos um trabalho e o nosso coração está completo. Assim é mole!

 

Difícil mesmo, beirando o impossível, é ter alguma sombra de serenidade em nossa alma, quando as preocupações tomam conta do nosso dia e ainda a levamos para dormir conosco e ficam ali, pulsando em nossas cabeças, juntamente aos nossos travesseiros. Perdemos nos desencontramos dos motivos que nos fazem sorrir. Os problemas nos cegam e nos imobilizam. Eu sei disso, você sabe disso. Acredito que em nossas crenças, encontrar essa tal paz e tranquilidade nesses momentos seja como construir uma barragem para segurar o mar.

 

Então entendi que aquela parte da adura, me dizia que podemos recorrer à Obatalá em nossos ciclos mais difíceis.

 

Encontrar equilíbrio mental nesses momentos são atributos da grande maioria dos Orixás funfun. Mas é no culto, na devoção à Obatalá, (isso implica em praticar o que eu descrevi acima sobre o branco), que encontramos a possibilidade da criatividade para resolver os nossos problemas. É no caos que temos a oportunidade de saber de fato quem somos,  o que queremos e do que somos capazes. Usar a criatividade para superarmos os desafios. Obatalá é isso, é a criatividade, de nos superarmos diante do caos e vencermos os nossos problemas com tranquilidade. Não se pode transpor uma barreira sem estarmos calmos, na maioria das vezes quando agimos com desequilíbrio, apenas pioramos a situação. Os iorubás nos ensinam:  ¹“Oxalá dá aos seus filhos motivos para rir e eles riem” além de dizer que ele,² “ torna seus filhos prósperos, desde que se esforcem para isso”.

 

Sei que ainda há uma infinidade de fatos à aprender, estudar e descobrir sobre esse Orixá. Isso me anima. Sinto uma enorme gratidão ao meu Ori por ter me conduzido para um porto seguro de conhecimento, que é a minha família religiosa e por hoje poder conciliar  amor e razão, dando mais vida às minhas rezas, ao meu clamor e ao fortalecimento da minha fé.

 

Ire O

Ifasolá.

 

Referência:

1 e 2 : SÀLÁMÌ, Sikiru; RIBEIRO, Ronilda Iyakemi. Exu e a ordem do universo. São Paulo: Oduduwa, 2010.

 

Imagem: Pinterest, mas mais uma vez sem o nome do artista, se alguém souber, por favor me avise pelo e-mail contato.ifasola@gmail.com para que eu possa dar os devidos créditos



 

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