A gente nas redes

Viver Òsun

 

Tenho uma reza pela manhã para Oxum, que eu mesma escrevi. Nela, eu falo sobre a honra de ser portadora desse Axé. Todos os dias me emociono, parece que o axé percorre meu corpo como uma pequena corrente elétrica e por fim: me arrepio. O amor e a gratidão que sinto por Oxum ter me acolhido, não pode ser medido. E mesmo sendo carola assumida de Oxum, confesso que hoje percebo que eu não sabia cultuá-la no dia a dia e nas atitudes, toda a devoção ficava limitada aos rituais litúrgicos.

 

 

Mas o tempo é rei, e ele sempre ensina ao Ori de quem procura e se interessa.

 

Há alguns anos, ainda no Candomblé, eu tive contato com uma pessoa que já tinha ido à África. Percebi que ela sempre me observava e um dia ela me disse; assim, na lata:

 

_ Sabia que você chama Oxum de gorda?

_ ÔÔÔÔÔiii? - Eu pensei comigo, o que esse cara está falando?

 

Ainda muito sério, ele me explicou pacientemente. Que a oralidade dentro do culto à orixá era algo muito sagrado e isso tinha suas benesses, mas como tudo na vida, também havia a negatividade. Os mais de 100 anos de culto ao Orixá no Brasil através da oralidade, e a grande complexidade da língua iorubá, principalmente na tonalidade, nos fazia muitas vezes parecer tolos.

 

Foi ai que ele me explicou que quando se saúda Oxum com :

 

OrA yèyé O!

 

Se está dizendo: Gorda e Graciosa Mãe!

 

A saudação dita na África é:

 

OrE yèyé O!

 

Que significa:

 

Bondosa (Generosa) e Graciosa Mãe!

 

Então ele continuou...

 

Que no Iorubá a palavra Ore da saudação, é dito com o "O" bem aberto tipo: ÓÓÓ e o "re" bem tímido, com a língua pressionada nas laterais entre os dentes. Por isso, quando falado rápido, é fácil confundir com um tímido "ra".

 

E as surpresas não acabam por aí.  A expressão yèyé não é como o graciosa de bela ou linda, é relativo aquela que traz graças, ou seja, bençãos concedidas.

 

Foi a partir desse dia que eu comecei a comprar dicionários de Iorubá. 

 

Tenho certeza de que o que vale é a emoção e a devoção, e que Oxum nunca se importou com a saudação errada. O que me intrigou e tirou o meu sossego, foi que se uma simples saudação, que se fala o tempo todo, estava errada, quantas coisas mais estariam?

 

Aprendi quando adolescente que Oxum era o Orixá da beleza, depois descobri que o atributo da beleza é de Ewá, como o próprio nome dela diz. Não que Oxum seja feia, não é isso pelo amor de Eledunmare! Mas esse não é um atributo venerável como eu havia aprendido. Oxum é vaidosa, sim ela é. Ela cuida da sua aparência, como um meio de sedução e de amor próprio.

Oxum tem muitas faces, muitos atributos e isso a torna um Orixá muito complexo e cheia de mistérios. À Oxum é atribuído o poder da maternidade e da fertilidade, ou seja, é Oxum que abençoa o nosso ventre e dá a ele o poder de gerar descendentes. A maternidade, o cuidado com filhos, é um atributo de Yemoja.  Mas Oxum também é a protetora das crianças e da gestação, ela zela pela prosperidade de seus cultuadores.

 

Oxum é o orixá sedutor, aquela que se enfeita para ser desejada e seduzir. Ela é a senhora da sexualidade. E se fomos gerados, isso se deu através do sexo. A ideia de que o sexo é algo sempre errado, que remete ao pecado, faz parte da visão cristã. A história do pecado original, é o próprio absurdo ao meu ver! Imagina, você nasceu com um pecado porque os seus pais te geraram? Que Deus é esse? Como milhões de pessoas aceitam isso? Na nossa visão, o sexo entre duas pessoas que se amam é sagrado.

O título de Ìyálòde (Ialodê), a mãe da sociedade ou a dama da sociedade, TAMBÉM está atribuído ao seu poder gerador, foi com as bençãos de Oxum que todos nós fomos gerados, que formamos famílias, bairros, cidades e civilizações. O rio, por sua vez, também representa a sua fertilidade e prosperidade, pois as primeiras civilizações do mundo se constituíram às margens de rios, que formaram grandes sociedades. Oxum é a grande senhora da sociedade, ela é Ialodê.

Acredito que até aí, você já sabia. Eu não sabia de tudo não, apenas de uma parte, mas foi no culto iorubá que aprendi a
maior lição de todas, a importância e a obrigação de um(a) cultuador(a) RESPEITAR, enquanto viver, o útero que  gerou, os seios e as mãos que o alimentaram e o ventre que te carregou. MÃE.

 

Aos olhos da Filosofia Iorubá, de nada adianta amar, cultuar e bater cabeça para Oxum por dias e dias, para quando chegar em casa mandar a mãe calar a boca, tratá-la como alguém que tem por obrigação lhe servir. Minha Ìyá sempre usa esse exemplo. Independente de quem ela seja. Eu sempre defendo que Orixá não pune ninguém, mas ele pode simplesmente virar as costas, pela falta do respeito à portadora de um dos princípios mais sagrados para eles: o poder de gerar vidas, e nesse caso, a nossa própria vida. Não é por acaso que muitos dizem que Oxum é um dos Orixás mais cultuados em toda África.

 

Foi então, que aos poucos,  entendi que todas as mulheres estão de fato ligadas por esse poder gerador, esse grande útero. Ser Mulher, é ser um pouco Deus. Ser mulher é uma honra. E viver Oxum é orgulhar-se desse poder, não permitindo que ninguém lhe faça se sentir menor, incapaz ou frágil. MULHERES NÃO SÃO FRÁGEIS, somos FORTES, somos RESISTENTES, mulheres são apenas sensíveis à emoções, mas podemos tranquilamente buscar o equilíbrio com a racionalidade. Só seremos frágeis, se acreditarmos que somos. Só seremos fracas, se acreditarmos que somos.

 

Cada uma de nós, em algum momento de nossas vida foi vítima por ser mulher. Já aconteceu comigo. Mas isso só aconteceu porque sofremos uma grande lavagem cerebral na sociedade durante séculos, e esquecemos o poder que carregamos. Esquecemos que somos todas feiticeiras, bruxas e portadoras do axé da vida. Nós somos poderosas.

 

Eu não permito que mais ninguém me faça sentir menor por ser mulher. Aqui não.


Hoje, vendo as coisas  mudando aos pouquinhos, as mulheres se empoderando, ou retomando o seu próprio espaço dentro da sociedade e podendo escolher sua a própria vida, mesmo que ainda longe do justo, acredito que Oxum se orgulha de nós, a cada vez que nos amamos, nos valorizamos e espalhamos amor, por onde passamos, pois é assim que Vivemos Oxum, quando respeitamos o poder gerador e da vida, quando nos amamos e nos honramos do axé que carregamos.

 

Ire O

Ifásolá

 

Imagem perfeita do texto: Joana Choumali

 

Bibliografia:
Dicionário Yorubá - Português, Beniste José  -Bertrand

YORÙBÁ para entender a linguagem dos Orixás - Eduardo Napoleão,  Pallas

Mitologia dos Orixás Africanos - Volume I - Sàngó/Oya/Òsun/Obà - Síkírù Sàlámì  1990 - Editora Oduduwa 
Exu e a Ordem do Universo - Síkírù Sàlámì e Ronilda Iyakemi Ribeiro - Editora Oduduwa



 

 

 



 

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