A gente nas redes

Um "novo" olhar sobre os Orixás

Talvez se eu tivesse observado mais e não tivesse permitido que os outros pensassem por mim, a minha história fosse diferente. Outro dia ouvi uma expressão que se encaixa perfeitamente para essa prática: Terceirização do Ori.  Seria o ato de não pensar e apenas repetir e aceitar o que o outro diz sem passar por nenhum tipo de filtro. Por que? Porque ele sabe mais do que você. E isso é suficiente para aceitar tudo sem ao menos refletir.

 

Incentivo as minhas filhas a pensarem, lerem e terem senso crítico. Reforço nelas o amor próprio e a confiança. Acredito que isso as faça mais fortes para o mundo e mais difícil de serem enganadas. Em conversas informais, falo sobre os Orixás, sobre a natureza e a Mãe Terra. Quero que se tornem capazes de compreender a lei do universo. Digo à mais velha: Nada é totalmente bom, nada é totalmente ruim. Veja além. Compreenda mais do que os seus olhos possam ver e não permita que um sofrimento momentâneo cegue a sua mente para o futuro.

 

A água que mantém o nosso corpo vivo é a mesma água que pode nos matar afogados. O fogo que nos salva do frio é o mesmo que pode nos matar queimados. O ar que nos mantém respirando é o mesmo que pode nos derrubar e arrancar as nossas casas.

 

A natureza, a vida e o planeta são criações de Eledunmare (Deus), tudo é perfeito em seu perfeito equilíbrio. De onde foi que tiramos essa concepção de bem e mal?

 

Aprendemos e ensinamos uns aos outros a rotular pessoas, fatos, deuses e tudo na nossa existência como algo do bem ou do mal. Essa é uma das colaborações e contribuições do Cristianismo para o mundo, e incorporada em nossa cultura que reflete diretamente na forma que vemos a vida: A luta do bem contra o mal. Deus x Diabo.

 

O desafio é olhar o nosso próprio dia a dia, assim como a nossa existência, como uma busca pelo equilíbrio necessário para o alcance do nosso predestino. Sendo que na maioria das vezes, nós somos os agentes causadores do desequilíbrio. E quando causamos esse fenômeno, através das nossas atitudes e oris, passamos a estar e vibrar no lado negativo, que dói, que machuca a nós e aos que estão em nossa volta.

Além dos nossos erros, o caos também pode causar desequilíbrio, mas é ele que na maioria das vezes nos ajuda retomar os trilhos de nossas vidas. Tem uma historinha, bem bacana, que eu fiz uma adaptação, que é mais ou menos assim:

 

“ Um sábio ia sempre visitar uma família camponesa na primavera. Todas as vezes que ele chegava lá, ano após ano, perguntava ao casal como estava a vida, eles respondiam:

           - Ah, seu sábio… Sabe como é né... A gente está aqui só sobrevivendo, com essa vaquinha que dá leite só quando quer. Nessa vidinha de sempre.

O sábio olhou para o casal e pediu para ver a vaca. O casal esperava que ele fosse dar um jeito na vaca preguiçosa. Que ficava nos fundos da casa, perto de um abismo.

            - Aqui está, seu sábio, essa é a vaca preguiçosa - Disse o homem.

O sábio parou, observou a vaca, observou… e a jogou no abismo.

            - Você é louco???? Gritavam os dois, o homem e a mulher. O que a gente vai comer agora? E os nossos filhos? A vaca foi pro brejo!

O sábio deu as costas e disse: Na próxima primavera, virei visitá-los.  A mulher gritava dizendo que se ele aparecesse lá mais uma vez na vida ela ia recebê-lo aos tapas.

 

Na primavera seguinte o sábio chegou na porta do casal e gritou:

           - Ô de casa!!!

A mulher veio correndo na direção do homem, ao chegar perto dele, lhe deu um abraço com muita gratidão. Com a morte da vaca, eles cuidaram da terra pra tirar seu próprio sustento, passaram a plantar e colher em abundância, tanto que começaram a vender frutas e legumes para os vizinhos. Com a renda, ainda conseguiram comprar algumas galinhas, e já possuíam duas vacas.”

 

O que quero dizer é que o caos muitas vezes  pode ser um grande presente, uma situação divina, para que possamos voltar a sermos agentes ativos em nossas vidas e pararmos de reclamar. Mas nós, não temos essa capacidade de ver as coisas além do momento.

 

Aprendi que  as outras questões que podem desequilibrar a nossa vida, é a ação de Egbé Abiku, que podem ser apaziguada através de Egbé Aráàbo, e a intervenção daquilo que herdamos de nossos ancestrais, que falei sobre no texto: Quem você é ? - Ancestralidade << Link.

 

E onde ficam os Orixás nisso tudo? Você pode perguntar.

 

Os Orixás são as energias divinas, também criadas por Eledunmare na busca do equilíbrio perfeito, para nos orientar, nos apoiar em nossa jornada. Nos abençoando com a coragem e  a inovação de Ogum, com a estratégia de Oxóssi e Erinlé, a organização e a paciência de Exú, a tranquilidade de Obatalá, a cura de Ossain, a sabedoria de Orunmilá, a amabilidade de Yemanjá, a luta de Oyá, a justiça de Xangô e a prosperidade de Oxum. Os Orixás são como ferramentas e presentes dados por Deus. Eles não são responsáveis por nós, como eu acreditava antes de entrar para o Culto Tradicional Iorubá. Por que Deus nos daria Ori e o livre arbítrio, se fosse assim?

 

Nossos Deuses são como água, a terra, o fogo, o ar e o universo. Eles são os próprios elementos, são energia. Agem de acordo com as mãos de quem as conduz. Sabendo que todas as consequências são exclusivas de quem as conduziu. Caso algum ato, provoque o desiquilíbrio, a responsabilidade é de quem o fez, pois toda ação gera uma reação.

 

Com essa nova visão, fruto de observação, estudo e vivência, precisei dar adeus a minha visão romântica e cristã de que Oxum era quase um Orixá imaculado. Não é. Nada é. Essa visão de perfeição é cristã. A natureza nos mostra que isso não existe. Se olharmos para o mundo como ele é de fato, se aprendermos com natureza e a observarmos,e inclusive nos vermos como parte integrante dela, temos uma maior chance de conseguimos viver em equilíbrio e conseguirmos a desejada felicidade.

 

Hoje, percebo que eu apenas copiei o padrão de crença dos outros. Sem pensar e sem observar. Mesmo sabendo o tempo todo que os Orixás eram a própria natureza. Continuo aqui, plantando e cuidando das minhas sementinhas que coloquei no mundo, para que elas não repitam os meus erros, para que elas sejam melhores do que eu, para elas, para a família e para o mundo.
 

Ori Ire O
Ifásolá

 


Imagens: Google Search e Pinterest - Caso alguém conheça os artistas, favor nos informe para que possam ser dado os devidos créditos.

 

 

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18.04.2019

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