A gente nas redes

Erinlé - A Feiticeira da Floresta

Não sei se você chegou agora ao Meu Coração Africano, mas para este texto em específico, preciso lembrar que esta página fala da vivência e das atuais experiências de uma mulher, que passou uma grande parte da sua vida cultuando Orixá dento do culto afro brasileiro, e  que agora pertence ao Culto Tradicional Iorubá. Não há nenhuma intenção em desmerecer nada nem ninguém, apenas contar e dividir um pouco da minha atual realidade e escolha. Aqui eu falo sobre o que venho aprendendo e descobrindo, no caminho que o meu Ori escolheu. Não tenho como intuito ditar novas verdades nem convencer pessoas. Apenas peço que leia com o coração, e fique à vontade para tirar suas próprias conclusões.

 

 

Consciente disto, podemos continuar.

 

 

Amar algo é não medir esforços para tentar compreender, isso se aplica a tudo na vida. É assim que me sinto com cada frase que leio para entender, aprender e compreender melhor o culto aos nossos Orixás e Ancestrais. A forma como eles chegaram ao Brasil não foi simples. Eles vieram através de africanos escravizados, entre eles, inclusive, reis e rainhas, que não falavam português. Povos de diferentes partes da África, que cultuavam deuses através de uma tradição oral. Era impossível que alguns cultos não se perdessem, era improvável que o culto a alguns orixás não fossem confundidos ou agrupados.

 

Eu sempre amei a Lua. Sempre tive uma relação íntima, pelo menos pra mim, com ela. No dia em que descobri que Ela é um Orixá chamado Òsùpá, e que há iniciação e culto à ela, fiquei anestesiada. Numa visão lúdica, era como se eu tivesse carregado um álbum de figurinhas incompletos, e finalmente agora pudesse completar.

Venho conhecendo, através do Culto Tradicional, vários outros Orixás além dos 16 que quase todos conhecemos no Brasil. Há um tempo atrás, inclusive, escrevi um texto sobre Olojó, um Orixá que todos nós, seres humanos, filhos de Orixá, deveríamos cultuar. Se você ainda não leu, depois leia. Olojó é maravilhoso. Me sinto grata, completa e processo de aprendizado com cada um desses "novos" orixás.

 

Em minha caminhada no culto afro brasileiro, aprendi que Erinlé era uma qualidade de Oxóssi. Em alguns lugares, também chamado de Oxóssi Ibualamo(a).

 

A minha primeira surpresa foi saber que na minha família, que são da cidade de Abeokuta, capital do estado de Ogun, Erinlé não era um Orixá masculino, e sim feminino. Admito que na hora a cabeça dá um nó, e a gente se pergunta: Mas como?  Talvez o início deste texto já explique bastante e deixe claro como isso pode ter acontecido, inclusive, que não há responsáveis ou culpados para julgar.

 

Conta-se em minha família, e entre todo povo Egbá, que Ogum foi o primeiro Orixá Caçador, e foi ele quem ensinou Oxóssi a caçar, mas não ensinou apenas Oxóssi, Erinlé estava com ele. Com isso ela se torna, entre os orixás femininos, a Senhora da Floresta, o Orixá feminino da Caça.

 

Para o povo Egbá, Erinlé, cujo o nome significa é a junção de dois nomes: Elefante + Terra, Erinlé seria algo como Elefante sobre a Terra ou Elefante da Terra. A Senhora e grande Feiticeira da Floresta, possui uma estreita relação com alguns Orixás, o que faz dela um Orixá com muitos predicados, propriedade e poderes. Aprendi que cultua-se Erinlé para a estratégia, onde ela aprendeu todos os segredos com Ogum e Oxóssi. Seu culto também inclui a medicina, a magia e a cura, devido a sua ligação com Ossain. Erinlé também possui uma estreita ligação com as Iyami Oxorongá, o que reforça seus poderes de cura, magia e sabedoria. Além de ser um Orixá da fertilidade, da intuição e percepção aguçada. Erinlé pode nos auxiliar e nos apoiar em questões ligadas a família, assim como a prosperidade material e a oportunidade no mundos dos negócios. Ela também assume o proteção das pessoas que são humilhadas e injustiçadas.

 

Quero e preciso de Erinlé na minha vida. Dentro do que é imposto como limite, farei de tudo para ser digna de aprender seu culto e seus segredos. Que Erinlé seja bem-vinda em minha existência.

 

Nessas andanças por aí, já encontrei textos, sem autoria, que afirmam que Erinlé é um orixá masculino em terra iorubás, assim como li que é um Orixá andrógeno. Em Ilobu, por exemplo, local de origem do seu culto, segundo os historiadores, Erinlé seria masculino. Independente do Orixá ser masculino ou feminino, ela não é Oxóssi, ela tem seu próprio odu, seus próprios itans e seu enredos e fundamentos específicos.

 

Sou muito nova dentro da Tradição Iorubá, tenho muito ainda a descobrir e aprender, mas o que percebo, é que o tempo que estamos vivendo, e os últimos 10 anos, estão sendo marcados por uma grande mudança no culto aos Orixás. Estamos tendo a oportunidade de descobrir e desvendar lacunas que foram perdidas em todo processo, quando o culto à orixá começou no Brasil.

 

Todas essas informações não fazem com que o que praticamos no Brasil, dentro das religiões afro brasileiras não estejam certas. Não vejo assim de forma alguma. Mas vou me arriscar a fazer uma analogia e talvez mexer em casa de marimbondo. Vejo como se fizéssemos uma receita de uma moqueca de peixe com camarão maravilhosa, há mais de um século, e uma dia descobríssemos um ingrediente que a receita  ainda melhor.

 

Essas, nem tão novas, informações, que estamos tendo acesso nos últimos tempos, não vieram para destronar reis e rainhas, tudo depende da forma como se vê. Eu vejo como uma oportunidade e cada um vê o que quer enxergar.

 

Meu culto a Ori, diário e constante, me revelou algo que hoje costumo dizer com frequência: É uma escolha viver na ignorância, e escolhas devem ser respeitadas. Mas a partir do momento que temos o conhecimento e a compreensão de algo, não tem volta, pois Ori jamais retrocede.

 

 

Ire O

Ifásolá

 

 

Imagem: http://tersessenta.tumblr.com/post/71114975198

Bibliografia:
Exu e a Ordem do Universo - Síkírù Sàlámì e Ronilda Iyakemi Ribeiro - Editora Oduduwa

Please reload

Posts Recentes

18.04.2019

Please reload