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As Entrelinhas do Nosso Destino - Ori

Há situações em que gosto de deixar bem claro minha escolha religiosa, assim como a filosofia que sigo. Na maioria das vezes é um aviso, para que haja limites e respeito mútuo. Não quero que insistam para que eu participe da cerimônia ou roda "ecumênica" de oração, em que todos dão as mãos e rezam de olhos fechados o Pai Nosso. Juro que já tive vontade de pedir para presidir uma dessas cerimônias, mas acho que ia cair na gargalhada quando visse a expressão no rosto das pessoas ao começar com um bom e sonoro:
LÁARÒYÈ  ÈSÙ !!!

 

Então eu fico ali na minha, de cabeça baixa e braços cruzados, fazendo cara de paisagem, até acabar o momento ecumênico nada ecumênico.

 

Em uma dessas situações, uma senhorinha, claro que tinha que ser uma senhora porque elas não tem papa na língua, veio me perguntar porque eu estava tão fechada para Deus. Veja bem você e imagine a minha cara. Nessas horas a gente precisa pensar bem e respirar. Logo eu, que tenho um respeito muito grande pelos mais velhos, jamais daria uma resposta mal educada à ela, pelo contrário, eu queria abrir a cabecinha daquela senhora, cheia de boas intenções, para outras realidades fora da caixinha dela.

 

Foi aí que eu peguei nas duas mãos dela, olhei dentro dos olhos dela e disse:

 

- Desculpe, não quis ofender ninguém. Eu não sei rezar o Pai Nosso e nem o Credo. Eu converso com Deus através das águas, do fogo, do ar e da terra. Converso com Deus com os pés e a cabeça no chão, agradecendo o alimento da mesa, assim como a vida e a saúde da minha família. Cultuo Deus através dos Orixás e da Ancestralidade.

 

Aumentei a pressão levemente e rapidamente sobre as mãos dela, e olhei com firmeza em seus olhos. Ela ficou super sem graça, e apenas disse: Entendo. Deu de ombros e seguiu o fluxo do momento.

 

Sempre notei um olhar diferente e insistente da parte dela depois desse dia. Até que um dia ela tomou uma dose de coragem e foi conversar comigo. Sem enrolar e sem preliminares, ela me perguntou se eu jogava búzios e sabia LER O DESTINO.

 

Passou um filme inteiro na minha cabeça. Mais uma vez eu me perguntei: O que fizeram os brasileiros com o culto aos Orixás? Lembrei dos cartazes pregados em postes que dizem: Mãe Lúcia de Iansã, descubra seu destino e resolva todos os seus problemas. Lembrei das reportagens sensacionalistas do Fantástico e do Globo Repórter.  

Muitas pessoas acreditam realmente que Orixá é uma energia com esse poder de mudar o nosso destino e de nos "salvar", assim como de prever o futuro ignorando o livre arbítrio. E quando digo  pessoas, isso inclui alguns de nossos irmãos e irmãs.

 

Dentro da visão Iorubá, há uma diferença entre destino e predestino. O primeiro é o que se destina para nós em nossa vida, o que foi destinado, escolhido por Ori ainda em orun e testemunhado por Eledunmare e Orunmilá. O outro é a realização do primeiro. Que consiste em nossos esforços, nossas ações e tudo o que fazemos em nossa vida. É o que transforma o nosso destino em algo concreto. O bom e velho arregaça as mangas e corre atrás, com competência por favor. 
 

Há por exemplo, pessoas iniciadas em Ifá que recebem a prescrição para o sacerdócio. Isso significa que elas podem ou não escolher o sacerdócio, correto? Sim. Elas podem perder esse caminho? Se não tiverem atitudes condizentes com a conduta de um sacerdote de Orixá, com certeza sim. Receber essa prescrição de Ifá faz dela um sacerdote? Que nasceu sacerdote? NÃO.

 

O tempo e a dedicação são muito valorizadas em nossa filosofia, ambas não dão regalias para ninguém. Todos nós, filhos dos Orixás, precisamos aprender a exercer a paciência e aprender a apreciar a viagem, e não apenas o destino. Ninguém nasce pronto para o sacerdócio. Eu acredito, e isso já é uma visão pessoal, que aqueles que tentam acelerar o processo a qualquer modo, acabam ficando com o parafuso meio frouxo. Pra mim é como colocar o dedo numa tomada sem estar de fato preparado para potência da energia. Conhece alguém assim? Observe e veja se concorda comigo.
 

Quem toma todas essas decisões em nossas vidas?
Somos nós mesmos.

 

Mas quem pode nos ajudar a tomar decisões mais assertivas, que nos farão bem, por nos conhecer profundamente, assim como conhecer o nosso destino?

 

Ori.

O nosso Elédá. 


Elédá em Iorubá significa: O Senhor da Criação. Por tanto é correto afirmar que Elédá mi, meu Elédá, refere-se a Ori e não aos Orixás como Xangô, Oxum, Ogun, Oyá e etc. O Senhor da Criação é Eledunmare, mas o nosso, particular Elédá, refere-se ao nosso Deus Individual: Ori.

 

Por isso, precisamos ser amigos de Ori. Aquele que jamais nos abandona e o único que atravessa todos os mares junto ao filho. Nenhum Orixá, além de Ori, foi capaz de atravessar a morte junto ao homem.

 

E como ser amigo de Ori?

 

Só há um caminho prático: Autoconhecimento. Moldar-se para ser diariamente uma pessoa melhor, esse é o mais difícil e  o mais desafiador. O litúrgico é mais simples, saudar Ori todos os dias, passar as mãos na cabeça com delicadeza ao acordar, reconhecer Ori como a parte de Eledunmare em cada um de nós, cantar um belo orin de coração, ser positivo, ser grato, reconhecer Ori como seu Eledá e finalmente: o Bori.

Na minha família não temos o Ilè Ori (casa de Orí ou assentamento de Ori) por acreditarmos que a nossa própria cabeça já é o assentamento, mas há famílias de Orixá que possuem. Tem alguém certo e alguém errado? Não.

 

O ritual do Bori é uma cerimônia para o nosso Ori. Uma vez uma moça veio me dizer que estava muito preocupada porque no Bori dela o Orixá não se manifestou. Aí em um tom descontraído e de brincadeira eu disse: Que bom que ele não apareceu, afinal de conta o homenageado era outro.

 

Voltando a senhorinha.

 

Eu expliquei à ela a nossa concepção de destino, ela, já com os olhos brilhando, disse que era mais fácil acreditar em destino dessa forma.

 

Tudo depende de nós, das nossas atitudes e conduta, mais do que de qualquer outra coisa. Em quase 100% das vezes, a resposta está acessível a nós. Seja através da nossa intuição ou análise dos fatos. A questão é que na maioria das vezes, nós estamos à procura de facilidades e milagres para resolver problemas. E quando não temos coragem, determinação e sobra preguiça a gente pendura no cangote do sacerdote e acha que ele é responsável por resolver os nossos problemas. #TemDóDePapai  #TemDóDeMainha
 

Ô minha gente, sacerdote(isa) tem a vida dele(a), enquanto você acha que ele(a) vai perder noites e noites de sono com o problema alheio, ele(a) vai dormir gostosinho. Afinal ele(a) sabe que tem a missão de ORIENTADOR e não pode, nem deve, resolver e decidir pela vida de ninguém. Para a vida é proibido terceirizar problemas, sacerdotes preparados sabem disso. O destino, a vida é nossa e não de outra pessoa, nem de pai, nem de mãe e nem de Bábàlòrìsà/Ìyálòrìsà.

 

Sempre digo que independente de onde nascemos, em que família nascemos, com a saúde que nascemos, com a situação econômica que nascemos, todos nós estamos aqui e nascemos para sermos FELIZES. A questão é que ser feliz exige trabalho, competência, resiliência, força, coragem, amabilidade, paciência, tolerância, empatia, autoanálise, dinamismo, verdade, equilíbrio, estratégia, criatividade, tempo, atitude e umas das coisas mais preciosas da vida: caráter. Ninguém vem para esse mundo com todos esses atributos, então a gente precisa buscá-los. E para trazê-los para as nossas vidas, vamos aprender com os melhores: ORIXÁ.

Ire O ;)

Ifásolá

 

Imagem: mysticmamma.com

Referência bibliográficas:  http://www.templeoduduwa.org/

 

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