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Alimentar a cabeça : O Ritual do Bori - PARTE II

14.01.2016

 

 

Tem gente que veio nesse mundo a passeio, eu sei que vim a trabalho mesmo. Depois dos filhos então, a luta só aumentou. Eu já me questionei qual o nível de juízo de Deus, por me enviar duas vidas para cuidar. Logo eu, tão cheia de questionamentos e inquietações na alma. A minha sorte, hoje, é que a filosofia de vida iorubá é sensacional, e me dá segurança e tranquilidade de que estou no caminho certo. 

 

Explicar aos nossos filhos e descendentes como funciona a nossa filosofia de vida é fundamental. Estamos imersos sob uma cultura e filosofia cristã em nosso país, que tem pouquíssima ou quase nenhuma similaridade com a iorubá. O nosso foco está ligado aos valores pessoais para que possamos nos tornar pessoas melhores, para que assim, o mundo seja melhor, e esse trabalho começa com a vigília de hábitos, com a resiliência e com o respeito ao próximo, quem quer que ele seja.

 

Parece simples, mas é a tarefa mais difícil de nossas vidas. Viemos a este mundo lotados e carregados de heranças genéticas das sete gerações anteriores a nossa. Essa herança não se resume a células, biotipo e predisposições a doenças. Ela é espiritual também. Carregamos conosco, em nosso espírito, a história de vida de nossos ancestrais. Faça as contas do pedacinho de quantas pessoas há dentro de você: Seus pais, seus avós paternos e maternos, seus bisavós, seus trisavós e por aí vai. A Ciência já prova isso hoje, mas os iorubás sabem disso há séculos. 

 

Não chegamos a ser nulos, mas somos essa mistura de tantas pessoas e vidas diferentes, assim como somos a nossa própria alma, carregada de nossas existências anteriores. Somos as nossas dores e as alegrias de uma linhagem completa, e no entanto, nesta vida, somos nós que estamos no comando com o nosso livre arbítrio, ao lado daquele que não nos deixa nem após a morte e nos acompanha desde sempre: Ori.

 

Para que tenhamos a CAPACIDADE de nos observar, de nos policiar, precisamos justamente do equilíbrio em nossas cabeças, o desafio de uma vida, de quem não está por aqui a passeio. Este é o desafio. Ninguém quer ser coadjuvante de si mesmo e desperdiçar  sua própria vida. 

 

O Bori é um Ritual capaz de nos ajudar neste desafio, eficiente para nos equilibrar e fortalecer. Hoje acredito que todos nós nascemos para sermos felizes, independente da realidade e dificuldade que vivemos e enfrentamos. Nascemos para ter abundância. Só vive na escassez o Ori que se limita.  

 

Por toda parte do mundo foram feitos milhares e milhares de boris que tiveram fundamental importância na vida das pessoas, justamente na intenção de ajudar na busca de se tornarem melhores, assim como o de vencer os desafios do dia a dia.  Ori, é o senhor do nosso destino.

 

Vou contar duas pequenas histórias que aconteceram em nosso Templo ano passado, de maneira simplificadas, mas que deixam evidentes alguns tipos de efeitos e benefícios que um Bori pode trazer.

 

HISTÓRIA I

 

Um dia, uma filha de santo foi conversar com a nossa Iyá e com o Bàbá, e eles disseram que a filha mais velha dela, com 10 anos, teria que dar um Bori. Tudo bem. A menina já tinha passado por alguns especialistas e feito terapia para descobrir o motivo da dificuldade de aprendizado na escola. Ninguém descobria nada. Diziam apenas que era ansiedade. A mãe não pegava leve, achava que era preguiça da menina e por isso ela vivia de castigo. Ela já tinha dado como certo que o diagnóstico era preguiça crônica. A menina fez o Bori. Uma semana depois o pai da menina (eles são divorciados), liga dizendo que uma amiga dele indicou um exame que existe há pouco mais de cinco anos. Ele mesmo levou a menina para fazer o exame, e ela foi diagnosticada com DPAC (Deficiência no Processamento Auditivo Central). A mãe parou de brigar tanto com a menina, que foi submetida a fazer um tratamento com uma fonoaudióloga. 

 

A história acima, pode ser interpretada com os olhos de quem vê o copo meio cheio e de quem vê o copo meio vazio.

 

Copo meio vazio: Fez o Bori e descobriu que tinha uma deficiência. Que triste!

 

Copo meio cheio: Fez o Bori e descobriu finalmente o que podia atrapalhar a vida dela no futuro. Sabendo da deficiência, foi possível iniciar logo o tratamento, para que não houvessem consequências no seu futuro.

 

HISTÓRIA II

 

Um rapaz estava desempregado e estudando para concurso público. Era formado em Geologia, mas não gostava do curso, e dizia a todos, que não tinha nascido para aquilo, que tinha apenas o canudo em casa. Ele já tinha trabalhado com outras profissões e nada dava certo como ele gostaria. O país entrou em crise e foi anunciado que teríamos menos concursos públicos do que o de costume. Ele se inscreveu na Catho. Nada durante dois meses. A Ìyá e o Bàbá disseram que seria bom ele fazer um Bori. E no caso dele também foi detectado em um jogo de búzios, que deveria ser feito um ebó, para equilibrar uma energia que estava com deficiência, digamos assim. O Bori e o ebó foram feitos. Menos de duas semanas depois, uma empresa entrou em contato através da Catho chamando ele para uma entrevista para Geólogo. Mesmo tendo acabado o período contratado de 60 dias a Catho ligou e ofereceu mais 30 dias de bônus. O trabalho  não exigia experiência e ainda pagava bem. Ele foi chamado para a empresa e descobriu que ele gosta de Geologia sim.  O problema dele era que ele tinha insegurança quanto a Geologia, e não se julgava capaz o suficiente para trabalhar na área. Ele se apaixonou pela profissão e vai começar a fazer  Mestrado.

 

 

 

Ire O

 

"E mesmo que você perca tudo.

E mesmo que você se perca.

O fato que o único tesouro que ninguém pode se apropriar,

nem mesmo o tempo consumir, é o seu Orí. 

Nele mora a capacidade de se recriar

quantas vezes forem necessárias agora e na eternidade.

Fonte criadora inesgotável,

que acompanha cada indivíduo por sucessivas existências,

que evolui, que se amplia, que se recria... 

Fragmento divino que cria."

Por: Michelle Nery

 

Imagem: http://www.saatchiart.com/art/Painting-African-Queen/402340/1519774/view

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