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O Meu Encontro com Orunmilá / Ifá

 

Sabe aquele momento em que você tem vergonha de você mesmo, pelos pensamentos que teve e pelos julgamentos que fez? Pois é.

 

Já fazia alguns anos que eu escutava falar sobre pessoas do Candomblé e de outras religiões de matriz africana que optaram em se iniciar no Ifá. Algumas permaneceram na casa onde estavam e outras resolveram sair.

 

Aí vem a minha vergonha:

 

Eu, até então, toda cheia de razão e com o peito estufado igual ao de um pombo, atribuí isso à globalização, que consequentemente levava a vinda de muitos africanos ao Brasil. Africanos esses, que não tinham como foco disseminar o culto ao Orixá e sim apenas ganhar dinheiro aqui no Brasil. Pessoas que tentavam apenas fazer comércio por aqui e melhorar de vida.  É... Eu falava isso de boca cheia e convicta de que estava com razão. Vergonhosamente generalizei, sem me informar. O que fez de mim uma ignorante e preconceituosa. Não o suficiente, eu também julguei as pessoas que procuravam Orunmilá e o Culto Tradicional Iorubá.  Em meu íntimo eu as rotulava e as chamava de TRAIDORAS.

 

Aqui estou.

Me julguem.

 

Foi aí que o mundo deu voltas e descobri a origem do problema depois de olhá-lo de frente e encará-lo:  Medo.  Peço que tente compreender o meu medo, pois durante a infância eu acreditei que existia Candomblé na Nigéria, e que os cultos familiares eram fatos isolados. Eu acreditei durante uma boa parte da minha vida, que o que eu aprendia e praticava aqui no Brasil era o mesmo da África. Mesmo com a obra de Pierre Verger, Entre Dois Mundos, eu consegui de uma forma que não consigo explicar bloquear a informação que estava escrita ali. Quando percebi que o MEU Candomblé era de fato brasileiro, tive medo de não ser reconhecida perante os Orixás. Esse medo era como um golpe no joelho. Medo de ter sido em vão. Pânico de um Africano, que cultua Orixá há muitas gerações, chegar para mim e dizer: Seus 28 anos dentro de uma casa de Candomblé não valem nada.

 

Mas Freud explica:

 

“Quando não somos capazes de entender alguma coisa, procuramos desvalorizá-las com críticas… Um meio ideal de facilitar nossa tarefa” 

 

 

Fiz o caminho de vinda sim. E muitos me perguntam por que eu migrei. E a minha resposta só poder ser compreendida por aqueles que fizeram o mesmo percurso, com ou sem escalas. É como explicar o amor de mãe para uma mulher que não teve filhos e ela dizer: " Eu sei como é! Tenho uma minha prima que é como se fosse filha". Não, não é. Na Religião Tradicional Yorúbà eu encontrei respostas, a minha alma se aquetou, encontrei sentido em estar viva, encontrei o lugar que me ensina a ensinar as minhas filhas, encontrei em concórdia com o meu Ori e TODOS os dias eu me desafio a ser melhor.

 

A minha entrada oficial para a Esin Òrìsà Ibilé, foi marcada pela iniciação em Orunmilá, que se chama: Itefá. Este é um costume da minha família em que Orunmilá/Ifá é o ponto de partida.

 

Não escolhi pelo certo ou errado, não é nada disso, optei pelo que tinha mais coerência para o meu Ori e que para mim representa melhor o que chamo de espiritualidade, palavra que embala a minha vida com carinho desde sempre.

 

Alguém pode discutir isso? 

 

E a afinal o que aconteceu de tão diferente e extraordinário na minha vida? Você deve se perguntar.

 

Não está em nenhum livro o que eu vou dizer aqui, e todos os Awo que genuinamente  passaram pelo processo do Itefá, acessarão este sentimento que eu vou relatar aqui agora. Alguns com certeza vão dizer que é conversa fiada, mentira ou invenção, mas os que passaram pelo processo saberão o quão verdade é.

 

Obviamente isso não acontece assim que você acaba o processo. É uma energia que vai se encorpando durante o decorrer do ano seguinte a iniciação. Quando você olha para o passado, você percebe o salto "quântico" que o seu Ori deu. Maior facilidade para resolver situações, clareza para analisar problemas, melhor racionalidade e um sentimento indescritível de CERTEZA  de dias melhores.

 

Não se recebe a magia da vida perfeita e nem a do dinheiro, mas se recebe uma centelha do axé da SABEDORIA. E obviamente como tudo na vida as pessoas nem sempre  sabem usar. E axé é algo que se você não sabe cultuar, se perde.

 

Tenho a nítida impressão que segurei em minhas mãos a bússola vida. Ifá revelou quais Orixás têm a maior capacidade de nos ajudar nesta caminhada, o axé que realmente precisamos para vencer os obstáculos, cabe a nós aprender a desfrutar e usar de cada um deles com sabedoria. Ifá revela, individualmente, quais atitudes e comportamentos são fundamentais para o sucesso e quais as que levam para o caminho oposto. 

 

Não foi milagre, foi um norte. Meu encontro com o Orunmilá, não me deu superpoderes aos olhos alheios. O que eu recebi ninguém pode ver. Mais do que nunca sei que atitudes são mesmo sementes férteis que ecoam em cada passo que damos, mas é a resiliência, o sacrifício, o esforço que vai adubar, arar e molhar a terra. A semente vai germinar, ela vai aparecer pequenina na terra e vai crescer. Só que o que vai fazer com que ela permaneça em pé, será o caráter, a generosidade,  a moral e  a conduta. Os homens tem suas leis, o Universo também.

 

Se eu pudesse dar um conselho a alguém que quero bem nesta vida, eu diria: Faça Ifá. Mas faça com um Babalawô sério e reconhecido pela comunidade e nem pense em fazer com um iniciante. Orunmilá não é melhor do que nenhum outro orixá,  não há hierarquia entre os Orixás. Daria esse conselho a todos os que tem sede de viver e vencer. Mas só faça se você estiver disposto a lutar, se superar e se sacrificar pela SUA vida. Não faça Ifá se você estiver em busca de milagre, status, poder ou dinheiro, NÃO FAÇA POR MODA!  Faça Ifá se você quer encarar o desafio de ser melhor do que você mesmo a cada dia e que precisará estar consciente disso mesmo 50 anos depois do processo iniciático, para que o axé permaneça latente em você. Se estiver na dúvida, não faça.

 

Orunmilá é um Orixá como qualquer outro, ser uma Awo Ifá, não faz ninguém ser melhor do que ninguém a não ser para si mesmo. 

 

 

"Ser feliz é melhor do que ser Rei."

PROVÉRBIO AFRICANO

 

 

**** Texto original publicado em 16/02/2016

**** Texto revisado e editado em 31/08/2017

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)
IfáṢọlà Sówùnmí - Fernângeli Aguiar

 

Imagem: Pinterest

Fê Aguiar (Awo Ifá - Ifásolà)

* Imagem - Laurie Rubin 

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