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Alimentar a cabeça : O Ritual do Bori - PARTE I

06.01.2016

No final do ano passado, tive um dia cheio no trabalho e esqueci de comer durante todo o dia. Eram 20 horas, eu estava no trânsito há 40 minutos voltando para casa. De repente a minha vista embaçou e minhas pernas começaram a tremer sem parar. Eita!!! Claro que no primeiro instante meu cérebro foi tentar entender o que estava acontecendo, e como uma boa "macumbeira", eu pensei por alguns instantes que fosse "santite" das brabas, sim,  achei mesmo que fosse incorporar no meio de um engarrafamento na hora do rush, no meio de centenas de pessoas. Sério.... Imagine a cena! Imagine os vídeos bombando no Facebook. Com toda certeza, eu teria que me mudar para uma tribo no interior da Amazônia sem internet, até que tivesse caído no esquecimento. Foi aí que falei em voz alta:

 

- Minha Mãe Oxum, por favor aqui não! Eu posso bater o carro, a Sra não deve saber dirigir.

 

Acho que ela deve ter rido alto da minha cara e pensado: Vai ser lerda assim lá longe!!!

Foi nesse instante que eu lembrei. Eu estava há quase 11 horas sem comer nada, e apenas com o café da manhã, que não tinha sido lá essas coisas, pois eu não podia chegar atrasada no trabalho.

Eu pedi apenas proteção extra para chegar em casa. Eu não conseguia pensar em nada, porque os meus pensamentos simplesmente não faziam muito sentido. Pensei em parar o carro, mas se eu fizesse isso, eu tinha certeza que ia desmaiar até alguém chegar. Eu estava no meio de um engarrafamento e sabe lá Deus quem ia me encontrar desmaiada dentro do carro. Eu pedi a Olorun, Oxum, Egbé, Exú, Ogum, Oyá e Obatalá e todo panteão africano que me ajudassem a chegar em casa com segurança. Peguei o celular e enviei um whatsapp de áudio para o meu marido, que estava sem carro. Avisei o que estava acontecendo. Eu só pensava: Respira. Você vai conseguir. Foco. Respira. Vamos! Você vai conseguir. Bora Fê!

 

Quando entrei na garagem do meu prédio, eu só conseguia agradecer por estar bem. Abri a porta de casa tremendo muito, sem forças nas pernas e com os pensamentos todos embaralhados. Fui então recebida com um prato de comida, eu só consegui chorar de emoção. 

 

Os iorubás acreditam que assim como o nosso corpo, a nossa cabeça, o Ori, também fica debilitado e precisa ser alimentado. A falta de alimento pode causar vários e diferentes efeitos colaterais, sem que você saiba. O nosso Ori precisa ser muito bem cuidado, afinal, é ele quem determina o nosso destino, é ele quem passa o axé aos nossos orixás, ele é o dono do ser. 

 

Quando o nosso Ori está "com fome", ele também pode ficar fraco como o nosso corpo, no entanto, os sinais são diferentes. Hoje, eu consigo identificar alguns dos sinais do meu Ori dizendo: Ei! Está na hora de um Bori. Os meus sinais são: Maior irritabilidade, fico mais agitada do que o normal, minha memória falha bastante. Eu também entro no modo off  mais vezes. Como se eu fosse desligada e ficasse olhando para o nada. Cansaço e sono que não passam nunca. Falta de foco e dificuldade de tomar qualquer decisão, seja suco de laranja ou maracujá. Parece até falta de férias, o que não seria nada mal.

 

Portanto, o Bori é um culto de equilíbrio e fortalecimento da cabeça de cada indivíduo e pode ser feito em todas as pessoas, independente de religião. É comum pessoas que não são do culto nos procurarem para fazer um Bori. Conta-se que Getúlio Vargas tinha Mãe Aninha (Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá 1869 - 1938) como conselheira espiritual e era comum que fosse "dar Bori" com ela.

 

A primeira vez que passei por um ritual de Bori ("Dar de comer a cabeça") foi na minha iniciação de Oxum no Candomblé. O ritual de Bori no Candomblé - Ketu, dura aproximadamente três dias. Durante todo o processo, a pessoa fica reclusa em um quarto, onde apenas algumas pessoas tem acesso. Liturgicamente o ritual é muito bonito. Já no Culto Tradicional, dura uma noite e uma manhã. Qual está certo? Os dois. Qual o mais eficiente ? Eu acredito que depende principalmente da mão de axé do sacerdote,  assim como da ritualística e material corretos. 

 

A desvantagem que eu vejo ,hoje, no Candomblé, é que para dar um Bori é mais difícil e por isso também acaba sendo mais caro. São necessários três dias da pessoa e da equipe de pessoas que ficarão no suporte, afinal você fica isolado e incomunicável com o mundo exterior durante todo o processo. Outra coisa que me incomoda, e sempre me incomodou, é que para conseguir dar um Bori no Candomblé, você precisa quase que "merecer", como se fosse uma recompensa. Com a visão que tenho hoje, acho isso um absurdo. Em nossa casa por exemplo, ano passado, acho que todos o filhos que tem assiduidade, e até mesmo alguns que não tem, tiveram a oportunidade de passar por um Bori, alguns fizeram inclusive mais de um. Eu acho isso maravilhoso!

 

CONTINUA.

 

Como o texto ficou muito grande, vou fazer a PARTE II para relatar acontecimentos na vida de algumas pessoas após o ritual de Bori. 

Sim, é um testemunho. Por que não?

 

Ire O

 

Bibliografia:

Fonte: Por Gbolahn Okemuyiwae Awo Ademola Fabunmi - traduzido por: Adélékè Àdìsá Ògún

Imagem: Fonte : http://john-kenny.com/

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