A gente nas redes

Não exista em vão

 

 

Mais uma semana, mais um mês e daqui a pouco mais um ano. O tempo não está apenas passando, ele está atropelando a todos nós. Dá a impressão que se não corrermos atrás, a gente não vai perder só o trem como a vida também.

Nesse tic tac louco a gente passa pela vida e segue o fluxo da maioria: Nascer, crescer, estudar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, dar mais dois passos à frente, ter netos, com sorte bisnetos e morrer.

Mas e aí? Acabou?

Uma vida para quê? Se a gente não passar por algumas dessas fases com excelência, a gente serviu para quê?

 

Para os Iorubás a morte só existe, de fato, quando somos esquecidos por aqueles que aqui estão. Quando ninguém mais vivo, lembrar que um dia eu e você existimos. É muito estranho pensar isso, mas é praticamente inevitável. Quantos de nós seremos lembrados daqui há 150 anos?

 

Os descendentes, os filhos, são tão importantes porque eles fazem parte do nosso legado. Mas que tipo de filhos, de pessoas, estamos deixando para o mundo? Por isso os filhos, a prole, para os iorubás, são sinônimo de prosperidade, de um mundo melhor, um lugar mais próspero, com pessoas que devem ser melhores do que nós somos. Isso é progresso e prosperidade.

 

Orixás são veneráveis e memoráveis pelos seus feitos, bastar se atentar aos itans de Xangô, Orunmilá, Ogum, Oyá e tantos outros.

 

 

E nós, o que temos feito, além de colecionar amigos virtuais, likes e visualizações? Sim, afinal é isso que mede o sucesso de algo hoje em dia. Só não imagino meus netos se gabando por mim, porque eu tive 10.000 likes em um post na minha página pessoal, afinal isso não faz de mim e nem de ninguém alguém especial.

 

Quero falar de valores, de legado, de virtudes e de uma história que eu possa contar com orgulho, porque contribuí com a vida de alguém ou de alguéns.  

 

Não tem como falar de vida sem falar de morte, elas andam juntas o tempo todo. Nunca tive medo da morte, mas sempre tive medo de ter uma vida vazia, em vão. A questão é que andamos correndo tanto, ou jogando tanto tempo no ralo com coisa inútil, que quando a gente vê: anoiteceu. Basta silenciar alma e se perguntar, o que fizemos neste ano? Eu vivi apenas para mim ou fiz da minha existência algo que Orixás se orgulhariam?

 

Minha filhas não conheceram as minhas avós. Ambas foram grandes mulheres. Por isso eu conto para elas as histórias de vida dessas mulheres. Minha avó materna foi professora, formou, alfabetizou e contribuiu com a vida de muitas pessoas. Um exemplo de moralidade e ética. Não lembro dela falando mal da vida de ninguém uma única vez. Minha avó paterna foi costureira, passadeira, cozinheira e o que mais tivesse que fazer, ela fazia. Criou irmãos e filhos. Se não fosse o sacrifício que ambas fizeram, eu não teria tido as mesmas oportunidades que tive na vida. Com certeza não. Talvez eu tivesse tido que começar a trabalhar ainda criança, para garantir a sobrevivência e não teria estudado, e sabe-se lá onde eu estaria hoje em dia. Tenho muito orgulho. Se eu tiver que escrever 1000 vezes sobre elas, as 1000 serão com lágrimas nos olhos e peito estufado.
 

Como posso permitir que elas sejam esquecidas? Não posso. Tenho muita gratidão pela existência delas. Quero que um dia alguém tenha esse sentimento por mim. Por quê? Porque eu não quero que a minha vida passe em vão. Não quero ter apenas passado por aqui, eu realmente quero ter contribuído.

 

Falo delas, porque são exemplo para mim, e têm muito a me ensinar, mesmo depois de anos que já se foram, continuo usando frases que elas usariam. Assim para mim são orixás, temos muito o que aprender com eles. 

Há tanta gente preocupada em falar de fundamento, de assentamento, de segredo e de magia. Orixá tal come isso, não come aquilo. Tem isso no assentamento de fulano e esse é o segredo para ativar a energia do Orixá cicrano. Será mesmo que todo mundo precisa saber isso? Mas para quê? Se na maioria das vezes não tem a intenção de ajudar um cachorro com sede na rua? 

E viver Orixá? Cultivar atributos, tornar-se alguém memorável, de acordo com os ensinamentos desses mesmos deuses, fala-se tão pouco. Do que me adianta saber magia  e fundamento, se não se tem Axé?  Se não há coerência com a filosofia.  Para mim, hoje, o sábio não é aquele que conhece todos os segredos e fundamentos, e sim aquele que busca os atributos e vive uma vida de Orixá, deslumbrando, mirando uma vida melhor, de progresso para si e para os seus.

 

Hoje em dia, com um pouco mais de dinheiro, se vai até a África e é possível conseguir muitas informações. Agora viver com a postura e a realeza que um filho de Orixá deve ter, isso ninguém compra. Deixar legados sólidos que contribuam para que aqui seja um lugar melhor para se viver, não é para qualquer um.

 

E você, filho de Orixá, o que vai deixar para o mundo?

 

Ire O

Ifásolá

 

Imagem: Pinterest. Autor não identificado. Caso você reconheça o artista desta foto, por favor indicar pelo e-mail contato.ifasola@gmail.com para possa ser dado os devidos créditos.

 

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