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A Força e o Significado dos Nomes que Recebemos dos Orixás

 

 

 

Quem já recebeu um nome dentro da religiosidade sabe o tanto que ele é algo que desperta em nós um pouco de ansiedade antes de recebermos. Qual será? O que ele vai significar? Será que vai ser bonito ou terá uma sonoridade estranha?

Depois que recebemos sentimos orgulho. É como se através dele tivéssemos sido de fato reconhecidos pelos deuses. A gente chega a pegar um arzinho a mais nos pulmões de felicidade na hora pronunciar. Diz aí se não é? :)


Fiquei ansiosa para receber o meu nome de Ifá, pois sabia que aquele nome teria uma identidade diretamente relacionado ao meu destino. Seria um divisor de águas na minha vida. Ele não seria apenas o mártir de um recomeço, como também uma pista, uma dica do que estava reservado para minha vida.
 

Quando recebi o meu nome de Ifá, Ifásolá - Ifá me fez próspera -, eu acreditei como uma pequena criança que a partir dali as coisas seriam mais fáceis. Sim eu acreditei. Afinal a iniciação era em Ifá, o Senhor que conhece o Destino de todos os Oris, e o meu nome trazia consigo prosperidade. Simples assim. Era como mágica e as coisas iriam prosperar. Só que eu cometi o mesmo erro que cometi na minha iniciação em Oxum no Candomblé. Acreditei mais uma vez que as respostas e as soluções para os meus problemas, eram externas e não internas.  

 

Não basta cometer o erro uma vez e se dar mal, tem que ter um problema de memória e se danar novamente né?

 

Ao contrário das minhas expectativas, minha vida deu um mortal de frente e eu caí de cara.

 

Uai Orunmilá? Cadê a prosperidade? Com todo respeito, cê deu pra quem?

 

Na primeira fase, dessa nova saga, eu tive que compreender, que quando vamos arrumar algo, como o nosso quarto, por exemplo, ele primeiro fica mais bagunçado ainda, para que depois fique de fato organizado. E nessa arrumação, a gente tem que se desfazer de coisas que não deveriam estar mais lá.  Assim é a vida, e dessa vez eu entendi até que rapidinho.

 

O que demorei a entender de fato, é que toda missão (destino ou predestino), no caso específico da iniciação em Ifá, traz consigo DESAFIOS para chegarmos ao nosso objetivo, ou seja, o meu destino também é meu desafio. Eu esperava pelos louros sem batalhar por eles? Bobinha.

 

Eu fui me transformando, na proporção em que fui buscando me conhecer. As coisas começaram a se transformar de uma maneira que eu não esperava. As maiores mudanças foram internas. O mundo não era mais o mesmo, e hoje percebo nitidamente, que devo isso ao meu Ori, pois foi ele que aceitou a mudança como algo inerente a vida e não como um castigo. Tive momentos incríveis, mas também surgiram novas dúvidas e questionamentos sobre a minha vida. Confesso que a tristeza tomou conta de mim algumas vezes, e eu só queria ficar só para pensar. Aqui nesta página, ganhei fôlego para estudar, por mim e pelos amigos que fiz. Pedia a Ifá e a Exú, insistentemente, que me dessem um pouco mais de paciência e sabedoria, para que eu pudesse parar de ser imediatista e enxergar além do agora.

 

A Terra não tem pressa. Ela sempre se recompõe.

É assim que eu busco forças.

 

Foi quando no mês passado li um texto no site do Odé Ợlaigbò, que falava do próprio nome dele de Ifá.  Ao ler o texto, cheguei a trocar alguns poucos e-mails com ele, e mal sabe ele o tanto que isso me valeu.

 

De repente

Click!

Eureka!

 

Compreendi que quando fazemos uma iniciação em um Orixá, e aqui me refiro a qualquer um dos Orixás, seja no Culto, na Umbanda ou no Candomblé, passamos a ser REPRESENTANTES daquele Orixá e do seu axé em áiyé. Olha o tamanho da responsabilidade!!!! A partir daquele momento também estamos casados, pactuados e devemos seguir as verdades daquele Orixá. Pois elas passam a ser as nossas verdades também, e ao não segui-las estamos indo contra nós mesmos.

 

Não é uma loucura de tão óbvio?  

 

Quando nos iniciamos para um Orixá, nos tornamos iyawo, noivos, daquele Orixá, e como em todo casamento, assumimos compromissos, até um nome recebemos. Quando não cumprimos os compromissos assumidos o que acontece? O casamento enfraquece.

 

Mesmo que você não saiba conscientemente todas essas verdades, nosso Ori conhece boa parte. Pode ter certeza! Afinal o processo de recebimento do axé, é feito boa parte aonde? No Ori.

 

Se por exemplo, eu sou iniciada em Xangô, o senhor da realeza e da nobreza, e sou uma pessoa constantemente prepotente e soberba, eu estarei vibrando na energia contrária daquele Orixá e começarei a criar o que chamamos popularmente de "contra axé" para mim mesma.

No caso da iniciação em Orunmilá, Orixá que revela o compromisso que fizemos para esta vida, quando ainda estávamos em orun, traremos no nosso nome juntamente com o Odu, todas as informações que precisamos para alçar voo e chegarmos em nosso destino.

 

Toda pessoa que se inicia em Orunmilá deve receber o nome de Ifá, como Ifayemi, Ifasola, Ifalola, Ifagbemi, Ifaseun, Ifadero, Ifadupe e daí por diante. Este Iyawo a partir daquele momento, está assumindo um compromisso com Orunmilá. E quem assumiu esse compromisso deve viver de acordo com ele.

 

E o que acontece quando a pessoa não vive de acordo com as verdades deste Orixá? Será castigado? Não necessariamente, mas cria-se uma incompatibilidade com a energia do Orixá e consequentemente com o seu predestino. Começamos a perder o axé que recebemos.

 

Mas quais são as verdades de Ifá?

 

Elas são encontradas no corpo literário de Ifá no Odu Ikafun (Ika-Ofun)

 

Vou colocar aqui para a gente:

 

1- O Awó, aquele que é  iniciado em Orunmilá, não diz o que não sabe.

2-  O Awó não faz cerimônias, das quais não tem conhecimento.

3 – O Awó não encaminha uma pessoa, por um caminho falso.

4 – O Awó nunca deve enganar as pessoas.

5 – O Awó não deve pretender fazer o sábio, quando não é.

6 – O Awó deve ser humilde e não deve ser egocêntrico.

7 – O Awó não deve ser falso e nem mal intencionado.

8 – O Awó não deve romper as proibições e tabus. cumprir o ewó.

9 – O Awó deve manter todo seus utensílios limpos.

10 – O Awó deve manter sua casa limpa.

11- O Awó deve respeitar aos menos favorecidos e  tratá-los bem e com respeito.

12- O Awó deve respeitar e tratar bem os mais velhos.

13 – O Awó deve respeitar as leis morais.

14 – O Awó nunca trai um amigo.

15- O Awó não deve revelar os segredos.

16- O Awó respeita aos outros awó.

 

Se você é iniciado em Ifá, parabéns! Você fez um pacto de viver de acordo com os mandamentos acima.

 

E adivinha quem vai cobrar isso da gente?

 

Orunmilá?

 

Não!

 

Ori. (Olha ele aí novamente!)

 

Tem também as pessoas que se iniciam em Ifá, mas que recebem o nome de outro Orixá. Esta pessoa, deverá seguir as verdade de Ifá de qualquer maneira, pois ela é um Awó, mas ela também vai ganhar um BÔNUS e precisará também viver as verdades do nome do Orixá que carrega se quiser ir em busca do seu predestino.

Vou dar um exemplo desse segundo caso: Faz de conta  que uma pessoa recebe de Ifá o nome Ogungbemi (Ogum me apoia). Como Ifá fala sobre a concretização do nosso destino, isso significa que aquela pessoa precisa viver as verdades e os atributos de Ogum para alcançar seu predestino. E quais são as verdades de Ogum? O trabalho, a inovação, a resiliência, a força, a generosidade e daí por diante.

Por isso é tão importante conhecermos os atributos de todos os Orixás que nos iniciamos profundamente, pois deveremos viver de acordo com a verdade de cada um deles, para que o axé se mantenha ativo em nossa vida.

Iniciação é algo muito sério, é um casamento, um compromisso. E não há como terminar esse relacionamento e se divorciar.

 

Orixá só não vai com a gente além da morte, exceto Ori.

 

É preciso honrar o Orixá para o qual nos iniciamos.

É preciso honrar o axé que se recebemos em nossos Oris.

 

Resumo dessa prosa?

 

Antes de culpar Orixá, a vida, a sorte ou a falta dela, veja se você está cumprindo com o que se comprometeu, pois com certeza o nosso Ori vai nos cobrar em algum momento, e não dá para voltar atrás no compromisso feito. 

 

Sigo feliz nessa busca linda e cheia de adrenalina. Na busca por mim e na busca por Orixá, que me faz todos os dias ter vontade de vencer as tristezas, os medos, os desafios e conseguir chegar no final do dia agradecendo por tudo o que houve, mesmo aquilo que eu ainda não tive competência para compreender.

 

Ire O

Ifásolá Sówùnmí

 

 

Fontes Orais: Bàbá Fernando Ifaseun e Ìyá Lena Ìgbá, meus orientadores e exemplo, sacerdotes do Templo Egbé Àiyé - Brasília, DF, vinculado ao Oduduwa Templo dos Orixás que tem como sacerdote Bàbá King.
 

Imagem:
Photo Herb Ritts

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