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O Culto Tradicional Iorubá e o Candomblé

 

Outro dia me marcaram em uma publicação no Facebook de um Babalorixá, em que ele parafraseava em um vídeo sobre Ifá e seus cultuadores. Falava muito mal, diga-se de passagem. Quando eu terminei de assistir, minha respiração estava forte e meu coração apertado. No mesmo momento, apareceu na minha timeline, um Awo Ifá chamando para um levante de resistência contra os sacerdotes do Candomblé e os mals dizeres sobre o Ifaísmo.

 

Apoiei minha cabeça na mesa, em cima do teclado e fiquei ali, parada, durante alguns minutos.

 

A princípio fiquei triste e de péssimo humor, porque atitudes como estas não enfraquecem o Culto Tradicional Iorubá, enfraquecem o culto ao Orixá, independente da liturgia escolhida, seja Umbanda, Candomblé ou o Isese Lagba.

 

Eu queria encontrar essas pessoas, sacudi-las pelos ombros e lhes dizer:

ACORDE!

Não precisamos de mais guerras!

 

Compreendo que muitos sacerdotes do Isese Lagba, falam mal do Candomblé, aliás não compreendo não, apenas sei. Talvez essa reação deste e de outros Babalorixás sejam justamente uma resposta aos que se dizem Ifaístas e desonram o Candomblé, com o argumento do certo e do errado, porque na África não existe isso, ou não se faz aquilo.

 

Vou dar um exemplo:

 

No Candomblé existe o culto ao Orixá Xangô Ayrá/Airá. Em meus estudos encontrei muitos achismos sobre o culto a ele em Savé, Oyó, assim como em Dassa Zoumé e Ketu, mas nada de concreto e historicamente comprovado. Aos que pergunto, me respondem o mesmo: Este Orixá não existe em terras Nigerianas. Não há comprovação sequer da ligação direta a Xangô ou a Oxalá/Obatalá, como muitos afirmam. Nada de servo nem Mogbá de Xangô e muito menos seu irmão gêmeo ou mais velho. Muitas hipóteses a nada que comprove a existência deste Orixá como cultuado no Brasil. Nem Pierre Verger conseguiu algo concreto em suas viagens.

 

São fatos como este que alguns Ifaístas usam para desonrar a imagem do Candomblé, e tentam legitimar a sua. Só que quase 100% dos Sacerdotes do Culto Tradicional, já foram do Candomblé ou da Umbanda, e até pouco tempo, também não tinham acesso a esta informação e tantas outras.

 

Ignoram o fato de milhares de pessoas serem cultuadoras deste Orixá e terem suas respostas a tempo e a hora. A questão é: O Orixá responde na vida da pessoa, e não vai  ter ninguém que tire isso dela.

 

O Candomblé esteve na minha vida por 28 anos. Passei anos sentando no chão, comendo de mão, dormindo na esteira dias seguidos, que ficava com o ossinho do quadril dolorido. Me curvei a pessoas que não mereciam, beijei a mão de pessoas sem nenhum caráter, passei 21 dias para ser iniciada, levei quase 10 anos para me tornar Egbon Osun Tolá e faria tudo novamente para ter Orixá em minha vida.

 

Quando encerrei o ciclo do Candomblé na minha vida, e deixei honrarias para trás, eu não deixei o Orixá do Candomblé, eu não deixei a liturgia. Eu fui ao encontro de um código de Ética e Moral que não existe no Candomblé de forma clara, infelizmente, e com o desejo de ser alguém melhor, não apenas para mim, mas como também para os meus descendentes. Eu fui para o Isese Lagba para cultuar Ori e a Ancestralidade de uma forma que me modificasse positivamente, por que o Orixá é o mesmo, seja aqui ou em qualquer lugar.

 

Eu poderia continuar seguindo os dois? Candomblé e Culto Tradicional?

 

Sim.

 

Há algo que impeça uma pessoa de ser do Candomblé e do Isese Lagba?

 

Sim, existe.

 

A primeira delas é o seu próprio Ori.

 

A segunda é a aceitação do sacerdote do Candomblé, pois a maioria dos Sacerdotes do Culto não se opõem. De resto… Está tudo certo. Não há impedimento algum. Não há malefício nenhum. E quem disser que há, fica aí o espaço para esclarecimento fundamentado.

 

Você consegue compreender que Orixá não veio ao aiyé para dizer que há um caminho certo? Do tipo o Candomblé ou o Culto é o caminho a verdade e a vida. Ou:  Só Ifá salva!

Não!!! Isso não existe.

 

Eu conheço espíritas, evangélicos, budistas, agnósticos e católicos macumbeiros e nem por isso há alguém retalhando as suas escolhas.

 

Só quem sabe o que me salva ou qual é o meu caminho sou eu, e você sabe do seu.

 

Quem sabe das nossas dores e amores somos nós. Quem deita no travesseiro e dorme, ou não, somos nós. Quem paga as nossas contas? Então vamos nós mesmos decidir a nossa vida sem opinar na do coleguinha. E quando não tiver conhecimento suficiente para decidir, procure pessoas da sua confiança, vá em busca do conhecimento e estude. E quando decidir, compreenda que o que é bom para você, pode não ser para mim e mesmo assim podemos ser felizes e amigos.

 

Assim como  há Sacerdotes do Candomblé que enganam, mentem e roubam, existem Sacerdotes do Culto Tradicional que fazem o mesmo. São todos humanos e disso não há como fugir.

 

A única questão que eu gostaria de defender aqui, e de alertar a todos, é que não está certo um Babalorixá/Iyalorixá proibir um filho de conhecer o Culto a Ifá ou o Culto Tradicional e vice-versa. A partir do momento que ele faz isso, ele está tolindo o seu livre arbítrio, a maior dádiva que temos dada por Deus/Eledunmare.

 

As pessoas tem atitudes como estas pelo medo de perder adeptos, essa é a grande verdade. Precisamos compreender que isso não é uma briga por clientelismo. Estamos falando de vidas. Uma vida, não pode ser tratada como venda ou posse.

 

O Candomblé não vai acabar, ele é uma religião de resistência. Cabe aos Babalorixás e Iyalorixás avaliarem se há algo que precisa ser atualizado, não pelo modelo do Isese Lagba, mas sim pela nova realidade da humanidade. O Culto Tradicional, não vai acabar e nem voltar para a África, como li em algum lugar.

 

A Era da ignorância acabou. Ser ignorante agora é uma opção.

Estude, se informe. Sabendo que quem fala mal do outro está revelando mais sobre si mesmo do que sobre o outro.

 

Para mudar a história, precisamos ter atitudes diferentes e inteligentes. Não falo de uma supervalorização da passividade, mas sim de fazer como os orixás nos ensinam em suas histórias:

 

Compre as brigas que valem a pena.

 

Ire O

 

Fê Aguiar  - Ifásolá

Saiba mais sobre a autora AQUI.

 

Imagem : http://sotaodamente.blogspot.com.br/

 

 

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