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Chamado à Todas as Mulheres de Axé

 

 

Se preferir, você pode ouvir o áudio desta publicação. Clique AQUI.

 

 

Quando estamos em uma religião, seja ela qual for, muitos de nós busca amparo, esperança e identidade. Precisamos encontrar algo que de alguma maneira represente a nossa essência e abrace o nosso espírito e nos diga: Aqui é o seu lugar. Sem esse sentimento as raízes são frágeis e não conseguimos firmar morada.

 

Ainda menina melequenta, que brincava de queimada e ouvia histórias sobre os Orixás sob a sombra de uma mangueira, sentada na terra, eu imaginava Yemoja com a sua pele negra, seios duros, nus, grandes e fartos, cheia de confiança em cima das águas. Imaginava Osun dançando e seduzindo Ogun, toda faceira em uma dança leve, que até mesmo os pássaros pousavam para ver tamanha graciosidade. Fantasiava que as nuvens que tinham forma de bichos haviam sido transformadas por Iyewa. Já Oyá, eu tinha certeza que conhecia todos os cantos do mundo pois tinha o poder de se transformar em Oriri (Vendaval) e rondava o mundo em grandes aventuras. Obá era a guerreira imbatível que carregava em seu coração um grande amor e Nanã (Omolu) era a sempre  velha e sábia que tudo via e tudo sabia, mas que tinha sempre um bom conselho para dar.

 

Sempre foram Elas que me representaram, continuamente Elas me mostraram que o gênero devia ser complementar e jamais oponente.

 

Cada uma das Deusas que escolhi para amar e me representar nesta vida falam da essência feminina que eu e todas nós mulheres nascemos e carregamos genuinamente. Somos grandes Feiticeiras capazes de amar sem limites e loucamente como Obá. Mães que doam a própria vida para morte em nome de um filho. Deusas que  brincam com a própria sensualidade quando escolhem sua presa. Minhas Deusas são bichos selvagens, como o Búfalo de Oyá e toda a sua coragem. Elas têm  mãos que curam a dor e pulso que ensina com vigor.

 

Elas sou eu. Elas são você.

 

Ser mulher é viver essa essência divina que mora em cada uma de nós em sua totalidade e confiança, mesmo quando várias religiões suprimem o nosso bojo.

 

Tirando o Islamismo, segundo uma pesquisa feita em 2016, pela Pew Research Center, as mulheres são maioria em todas as religiões cristãs ou não, no entanto a grande maioria das religiões são machistas e não prezam pela igualdade de gêneros. Inclusive a nossa. Não é a toa que aplaudo de pé as grandes Damas do Candomblé como Mãe Senhora, Mãe Stella, Íyá Oba Biyi e Mãe Menininha. Elas são sim grandes Mulheres e símbolo de resistência e força.

 

Outro dia em um debate sobre a menstruação, um sacerdote, bem conhecido inclusive, me chamou no privado e me disse num tom bem humorado: “ A verdade é que nós  homens temos medo do poder de vocês mulheres possuem, e como não conseguimos compreender  tamanha força , não sabemos como agir ”.

 

Hoje eu escrevi para falar com a sua face Deusa, que pode ter adormecido ao longo da sua vida, diante de inúmeras vezes que nos disseram o que éramos ao invés de nos perguntarem quem somos. Ela pode estar dormindo ou talvez perdida diante de tantas emboscadas que sofreu ao longo do tempo. Peço que se desnude dos  valores culturais e sociais e me deixe ter um minuto a sós com ela.

 

Tragam as Coroas!  Preciso entregá-las às mulheres juntamente com suas adagas e abebés, assim que eu desvendar seus olhos!

 

Dentro de você há uma Deusa e não importa o nome que você dê à ela. A minha tem muitos nomes. Não importa a sua aparência ou a idade que você tenha. Ela mora em você. Ela nos observa todas as vezes que nos diminuímos diante dos outros, ou que renegamos a nossa própria sexualidade com receio do que vão pensar de nós. Ela não usa bolsas ou sapatos de marca, ela dança com os pés na terra, imitando o movimento do fogo ao som do balouçar das folhas no vento e com o som da água correndo ao longo da mata.

 

Preciso que consiga  encontrá-la, vou te falar um pouco dela através de um trecho do livro Mulheres que Correm com o Lobos da Clarissa Pinkola Estés:

 

“Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora. É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela sussurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la.

 

Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz, "Por aqui, por aqui".

 

Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de todas as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus Pensamentos."

 

Seja Oxum

Seja Obá

Seja Yemanjá

Seja Oyá

Sejá Onilé

Seja Iyewá

Seja Omolú (Nanã)

Seja Ajê

Seja fiel a você a sua essência.

 

Não tenha um Dia da Mulher, tenha um vida .

 

Ire O

 

 

 


Ifásola Sówùnmí - Fê Aguiar

Saiba mais sobre a autora AQUI.

 

Imagen .gif - Dyego Shenskovisk

Imagem - Jaime Barra Photo - http://ibarraphoto.com/

 


 

 

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