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Você sabe o que é viver Orixá?

 

 

Independente da religião que tenhamos escolhido, a busca de todos nós é uma só, estamos em busca de RESPOSTAS PARA A NOSSA VIDA.

 

Irei começar uma série de textos que vão mudar a sua forma de ver e viver Orixá, e que com certeza vão permitir com que eles possam atuar mais em sua vida, ou que você possa compreendê-los com segurança.

 

Vamos nessa que o caminho é longo, mas é próspero.

 

Cada religião tem as suas próprias explicações, cada uma se baseia em sua própria filosofia e em suas raízes. Cada religião procura dar respostas ao seu devoto acerca dos acontecimentos da vida, como um modo de aquecer o coração e calar a dor.

 

Vou trazer um fato que aconteceu em 2016.

 

Ano passado fui ao enterro do filho de uma amiga. Um bebê de dois meses. O pai, também meu amigo, deixou o neném cair do colo. Eu acompanhei a gravidez toda dela, éramos colegas no trabalho e sentávamos uma ao lado da outra pelo menos 8 horas por dia. Ir naquele enterro foi uma das coisas mais tristes que eu já presenciei, a dor da minha amiga era quase palpável e eu como mãe, sofri junto com ela. Quem é mãe, sabe  exatamente como isso funciona.

 

No cemitério, durante o discurso da mãe da minha amiga, que é de uma família evangélica, ela discursou com a voz bem alta, com todas as forças dela, que Jesus havia levado um anjo para ficar ao lado dele e que essa havia sido a vontade do Senhor. Se eu fosse cristã aquela explicação ia me trazer a ira e a revolta. Enquanto isso fiquei olhando para o pai que deixou o bebê cair e ia viver o resto da vida com a culpa da morte do seu próprio filho. Vi a mãe tão pálida  e com os olhos tão mortos, que parecia que ela não tinha mas vida dentro de si. Eu só queria abraçá-la.  Era a primeira vez que eu observava a ação de um abiku, desse tipo, tão perto. O meu olhar para toda aquela situação era completamente diferente do de todos os que estavam alí. Eu só fiquei tentando entender o que aquele abiku estava trazendo de lição para aquela família.  Foi aí que no meio do discurso do pastor eu tirei os sapatos e senti a terra. Com os pés descalços me lembrei de muitas coisas que não convém escrever aqui, mas que dentro da minha filosofia religiosa, era uma explicação inclusive muito lógica e reativa, e não era nem de perto, que Jesus queria mais um anjinho perto dele.

 

Aprendi com a minha família Yorùbá,  mais especificamente com o Bàbá King e com o meu *pai, que para cultuarmos orixá, precisamos primeiramente entender a filosofia da nossa religião.

 

Estamos num país onde a cédula de dinheiro possui a frase: "DEUS SEJA LOUVADO". Vivemos em um país laico, como já citei uma outra vez, em que nos cultos ecumênicos se reza o pai nosso, e que a sala do presidente da república tem uma cruz atrás da mesa. Estamos há mais de 500 anos respirando o cristianismo, então é normal que olhemos tudo com esse olhar cristão. Aí que eu te pergunto: Quem nos ensinou a filosofia e a cultura Yorùbá?

 

Ninguém.

 

E o que fizemos?

 

Inserimos os orixás dentro da filosofia cristã.

 

Como assim, né?

 

Observe o que fizemos com  Exú,  por exemplo, o transformamos no que?

 

Eu não estou aqui falando do sincretismo. Estou me referindo a forma que interpretamos tudo dentro do culto aos Orixás no Brasil. O nosso olhar cristão até mesmo a respeito de Eledumare. No cristianismo acredita-se que Deus sabe de tudo, na filosofia Yorùbá, Eledumare não sabe de tudo. Ele não sabe por exemplo o que você vai fazer ao terminar de ler este texto, e  de que  forma o que está escrito aqui vai impactar na sua vida. Seu Ori sabe. Para os Yorùbá Eledunmare não é perfeito e há alguns *itans inclusive que ele recorre aos Orixás para resolver situações.

 

O que na verdade eu acredito ser um dos pilares da filosofia dos Orixás e que estamos a kilômetros de distância de aplicarmos em nossa vida, é a visão sobre o bem e do mal, que está intrínseco no Cristianismo com a saga Deus versus o  Diabo. Para os Yorùbá o bem e o mal  simplesmente não existem.

 

Vamos ver se eu consigo explicar isso ao seu Ori.

 

Vale lembrar que a natureza e tudo que faz parte dela e o seu comportamento são a base de tudo, e que para entender a vida como um filho e devoto de Orixá, precisamos observar a natureza.

 

A água é boa ou ruim?

 

Acredito que você dirá que ela é boa, certo?

 

Mas e em uma enchente? Em que a água deixou vários desabrigados e matou várias pessoas? Ela deixou de ser boa? O mesmo vale para o sol, para a terra, para o vento, para o sal, para as folhas… para absolutamente tudo.

 

A filosofia mais próxima que eu encontrei ao dos yorùbás é o taoismo, que diz  que tudo que existe no Universo expõe a dualidade e polaridades. E não é o bem e o mal. Para os yorùbás há energias, que podem estar no positivo ou no negativo, e  também não tem a ver com o bem e  mal.

 

Tudo que existe no mundo tem a polaridade positiva e negativa, e o ideal é que elas estejam equilibradas. Quando elas estão desequilibradas, elas geram impulsos para que sejam harmonizadas novamente, ou seja, problemas, para que possamos voltar ao equilíbrio da energia.

 

Quando você vai até um sacerdote e no seu jogo cai um Odu que esteja no negativo, por exemplo, o sacerdote busca um ebó para que essa energia que está desequilibrada volte a se equilibrar e não lhe traga os aspectos negativos daquele Odu. Todos os Odus possuem positivo e negativo, sem exceção.

 

Mas o que gera um odu estar no negativo? Na grande maioria das vezes as nossas atitudes e pensamentos. Em outras ocasiões mais raras, podem ser fatores ligados à ancestralidade, assim como manipulação de energia de forma equivocada e a mando de outras pessoas.

 

Certo.
 

Mas aí, você vai lá, faz o ebó com o(a)  sacerdote(isa) e ele(a) equilibra as polaridades, e você não muda a sua atitude e continua com os mesmos pensamentos.

 

Vai dar certo o ebó? Não. E se você for em outro sacerdote, porque afinal de contas aquele não presta e foi dinheiro jogado fora, você vai jogar novamente o oráculo e o problema vai estar lá e possivelmente ainda maior.

 

Só uma observação: NÃO EXISTE O ATO DE SE DESPACHAR ODU. Este é mais um dos exemplos em que inserimos os Orixás dentro do cristianismo.

 

Se você quer viver a vida como um devoto de Orixá, e contar com as forças deles para ser um vencedor,  a primeira coisa que você precisa fazer é começar a observar, como ideia do bem e do mal estão em seus pensamentos  e no cotidiano. Não é possível compreender Orixá se você não consegue se desapegar desses conceitos.

 

A filosofia yorùbá exige muito mais de nós. Ela exige que sejamos pensadores, observadores e disciplinadores de nós mesmos. É de fato um estilo de vida. Em que buscaremos as nossas respostas através dos nossos inimigos internos e das nossas crenças limitantes, que foram adquiridas ao longo de nossas vidas, ou que estão registradas em nós através do nossa dna espiritual, representado pelos nossos ancestrais.

 

Quando baixamos a nossa cabeça para as circunstâncias, estamos olhando para o nosso próprio umbigo e somos apenas vítimas. Quando olhamos para o céu, não enxergamos onde estamos pisando e podemos cair. Quando erguermos o nosso queixo e enfrentamos as situações que nós mesmos criamos, conseguimos enxergar a estrada e avançar. Buscar o equilíbrio é seguir em frente. A filosofia yorùbá nos ensina a ter equilíbrio, nos ensina a guerrear e a vencer os desafios, assim como nos ensina a nos portarmos como vencedores.

 

 

No próximo texto, vou  publicar um teste para que você possa se auto-avaliar e diagnosticar se você lida com a sua vida de forma cristã ou yorùbá.

 

Vou terminar este texto com uma bênção que escrevo para as pessoas queridas desde os meus 16 anos, é uma adaptação minha de uma bênção irlandesa.

 

“Que a estrada se erga ao encontro do seu caminho

Que o vento esteja sempre às suas costas

Que o sol brilhe quente sobre a sua face

Que a chuva caia suave sobre  os seus campos

E até que nos encontremos de novo,

Que  os Orixás o guardem na palma da sua mão.”

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

 

Por:

IfáṢọlà Sówùnmí - Fernângeli Aguiar

 

Saiba mais sobre a autora da página AQUI.

 

Fontes Orais:

 

Babalorixá Sikiru Salami (Babá King) 

 

Babalorixá Fernando Ifaseun Sówùnmí ,  Sacerdote do Templo dos Deuses Africanos Egbé Aiyé, vinculado ao Oduduwa Templo dos Orixás, que tem como o principal sacerdote o Babalorixá Sikiru Salami (Babá King).

 

Itan citado no texto sobre Eledunmare

Exú e a Ordem do Universo - Bàbá King e Ronilda Iyakemi - Editora Oduduwa

pág 279 - Odù Ogbè Ògúndá - Narrador: Bàbáláwo Fábùnmi Sówùnmí.

 

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