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O que Recebemos ao nos Iniciarmos?

 

Antes de você começar a ler este texto, preciso que fique claro que aqui em todos os detalhes me refiro a experiência dentro Religião Tradicional Iorubá e especificamente dentro da minha família Oduduwa, no entanto, acredito que pode ser de grande valia para todos os cultuadores e devotos de Orixá. Lembrando que nenhum sacerdote, nenhuma casa, nenhuma família ou até mesmo comunidade detém todos os conhecimentos sobre os Orixás, além de não existir uma verdade absoluta, cientes disso, vamos viajar juntos em nossas lembranças e emoções.

 

 

Quando eu nasci, ou melhor, quando nós nascemos, viemos para àiyé incompletos. Para mim faltaram muitas características que possivelmente teriam me salvado de situações difíceis. Para alguns faltou coragem ou sobrou medo, pode ter faltado equilíbrio, vigor, paciência, resistência, foco, amabilidade, gentileza, caráter, tolerância, silêncio, auto-estima, e até mesmo vontade de viver esta vida com brilho, como quem vai para uma viagem num lugar maravilhoso e prefere ficar no hotel vendo televisão e no Wi-fi, olhando a vida acontecer lá fora.

 

Muitas dessas lacunas também podem ter sido adquiridas, conforme o badalar da vida, afinal também somos fruto do meio, dos exemplos de pessoas que temos e tivemos ao nosso redor, e por mais que a gente negue, copiamos e herdamos.

 

A vida vai tictacteando e muitas vezes perdemos grandes oportunidades que mudariam as nossas histórias, estragamos uma amizade por não sabermos a importância do silêncio, perdemos um grande amor pela falta de auto-estima e amabilidade ou até mesmo uma promoção, que nos traria a possibilidade da casa própria, no trabalho por não sermos mais focados e pacientes. E assim vamos todos nós, enfrentando a vida real com as nossas reais deficiências.

 

Dentro deste imenso mundo, alguns de nós tem a oportunidade de ter Orixá na vida, e a possibilidade de que essas Divindades possam preencher o vazio das nossas deficiências com o seu Axé.

 

No Isese Lagba essa oportunidade pode ocorrer através de Orunmilá no itefá/itelodu com um Babalawô ou com um Olorixá que consulta o oráculo do erindilogun e é revelado qual Orixá pode preencher esse vazio para nos fazermos vitoriosos de nossa própria existência, para que possamos progredir, avançar na vida ou ter a paz e a sociabilidade para finalmente sairmos do hotel e ir aproveitar a viagem.

 

No Culto Tradicional nós não nos iniciamos no “Orixá de Cabeça” como é chamado no Brasil, nós nos iniciamos no(s) Orixá(s) indicados por Ifá (oráculo) que nos ajudará a sermos mais completos e eficientes para as nossas próprias vidas e quando nos iniciamos, recebemos uma SEMENTE DE AXÉ.

 

Caso me falte auto-estima  e equilíbrio possivelmente Xangô ou Oxum responderão, caso precisemos de paciência, Obatalá e Exú podem se manifestar, se precisarmos reconhecer que fazemos parte de um todo e tivermos dificuldade de socialização pode ser Egbé, se for caso de doenças há a possibilidade de Obaluaiê, Egungun e até mesmo Ajê para trazer longevidade, deficiências finitas e possibilidade de melhora infinitas.

 

Nosso corpo é preparado através de rituais sagrados e milenares assim como o nosso Ori, para recebermos esta grande SEMENTE DE AXÉ. Nosso corpo, alma e mente são equilibrados para que nos tornemos terra fértil e digna para receber esta semente.

 

Assim que saímos do processo iniciático, percebemos que algo mudou em nós, mas ainda é sutil como se tivessem modificado o nosso próprio DNA. Quem já passou por um processo iniciático com sacerdotes capacitados, especializados e detentores de axé e conhecimento sabe do que estou falando. A mudança é crescente com o passar dos dias e para cada indivíduo há um ponto no tempo para a maior percepção do Orixá que agora tem seu axé dentro de nós, que nos faz de fato termos certeza de que algo mudou. Mudamos de ideia em algumas questões, vemos o outro e a quem amamos de uma forma diferente, passamos a olhar a vida com os olhos abertos e em alerta para as oportunidades, olhos de alguém que tem em si a semente de grandes guerreiros e guerreiras, reis e rainhas e o mundo ganha mais cor, nossas certezas viram dúvidas e nossas dúvidas viram certeza, ou as certezas já não são tão importantes assim. Trata-se de um grande desafio e axé que está sendo absorvido e processado pelo nosso corpo, Ori e mente.

 

A semente tornou-se um pequeno broto, pois a terra foi muito bem preparada e temos dentro de nós essa semente que cresceu.

 

Para que este broto vire uma linda árvore ela precisa continuar sendo alimentada, precisamos dar continuidade ao que os sacerdotes INICIARAM, e essa responsabilidade é nossa, não do sacerdote, o axé é nosso, somos nós quem precisamos dele para vencer os nossos obstáculos.

 

Assim como uma grande árvore que precisa de cuidados; o sol, a água, a sombra, nutrientes e a terra que deve continuar sendo fértil. No caso dos Orixás, cada um deles precisará de devoção, de oferendas, de contato oral através da nossa voz, das nossas mãos, da nossa fé, seja com orin, iba, oriki e imolações,a energia precisa estar em movimento, precisa haver troca, assim como é necessário saber exatamente com qual intuito você fez aquela iniciação. Se  foi em busca da coragem e do foco de Ogum, e você não der o primeiro impulso, saindo da rotina improdutiva e preguiçosa, será apenas dinheiro jogado fora  e o seu broto voltará ao estado de semente em algum tempo, o axé foi desperdiçado, mais ainda está dentro de você, aguardando as condições certas para voltar a crescer. Nas iniciações nunca perdemos a semente de axé. Já os pactos, podem ser rompidos por ambos os lados, pois quem já os fez conhece os termos.

 

 

Quando nos iniciamos recebemos a oportunidade, e não a certeza de reescrevermos a nossa história.

 

 

É muito importante entender, estudar e conhecer o Orixá que nos iniciamos, justamente para que tenhamos a energia dele(a) latente conosco, e essa responsabilidade é individual, caso contrário o seu Orixá será apenas um adorno, um barro, uma louça, um búzio, uma pedra...

 

No Brasil os sacerdotes foram concebidos como responsáveis pela vida dos filhos e filhas, na Nigéria e consequentemente do Isese Lagba os sacerdotes são ORIENTADORES.

 

Nós somos responsáveis por todas as sementes de axé que recebemos, os nossos Orixás ficam conosco em nossas casas, somos nós quem devemos ir buscar o Orientador(a) para que ele(a) possa nos ensinar à como continuarmos sendo terra fértil para as sementes que foram plantadas em nós, até que elas jamais voltem a ser apenas semente e tornem-se  um grande e antigo Baobá dentro de nós.

 

A responsabilidade é individual na Filosofia dos Orixás, alguns são resistentes a aceitar, outros negam e se cegam para o compromisso já feito. Apenas aqueles que aceitam e se dispõem de fato a aceitar, trabalhar e manter o axé crescente podem de fato ser testemunha do que um Orixá é capaz de fazer em sua vida. Os que até hoje não conseguiram, sempre terão a oportunidade de começar novamente e entender que se há uma regra, ela se chama TROCA.

 

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

IfáṢọlà Sówùnmí - Fernângeli Aguiar

 

 

**** Todo este texto é baseado em princípios e ensinamentos que aprendi e aprendo em minha família espiritual, não trata-se de um conceito absoluto em Terras Yorúbàs.

 

Fontes de Ensinamento

Bàbá King - Sacerdote do Oduduwa Templo dos Orixás

Bàbálórìsà Ifáseun Sówùnmí - Fernando Aguiar - Sacerdote do Templo dos Deuses Africanos Egbé Àiyé

 

Imagens Pinterest - Foto de autor desconhecido, caso o conheça por favor enviar contato para que eu possa dar os devidos créditos.

 

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