A gente nas redes

Abebé, Abebé meu existe alguém...

 

Simbologia do Espelho de Oxum

 

Outro dia na varanda de casa, já tarde da noite, ouvi:

 

- Menino!!! Não é possível! Você é uma porcaria mesmo e não serve pra nada! Você não faz nada certo, vai ser um Zé ninguém!!!!!!!!!

 

Aquilo era uma mãe praguejando um filho? Ou uma tia, sei lá….Minha mente voltou há mais de 20 anos e lembrei da minha adolescência, de quantas pessoas, parentes, professores e colegas me diziam QUEM eu era.

 

Claro que eu não sabia quem eu era, mas gostaria de saber. Meu espelho era o que os outros diziam sobre mim. Como eu não sabia quem era e nem do que era capaz, cada adjetivo e todo lixo que me diziam, de alguma forma ficavam armazenados na minha cabeça.

 

Lembro de uma madrasta que tive que adorava repetir que  meus pais não gostavam de mim, assim como lembro de uma mulher praticante de bruxaria familiar, chamada Rita, que me dizia que o meu espírito era luz pura e que eu teria inimigos a vida toda, mas que eu sempre sairia vitoriosa.

 

Qualquer coisa que diziam sobre mim ganhava vida própria, tornava-se uma informação absoluta de forma incontrolável e sem o menor pudor ou filtro, principalmente quando eram pessoas próximas e muitas vezes amadas por mim.

 

É desta forma que vai se formando um dromedário, com bico de ornitorrinco e chifre de unicórnio. A gente simplesmente não faz a menor ideia de quem somos. 

 

Claro que nem todas as pessoas nascem assim, só que acontece que a maioria de nós brasileiros apresentamos problemas de autoestima e insegurança. Pode pesquisar aí no pai Google.

 

Quando a vida é uma eterna batalha a gente tende a sempre acreditar no pior e a se ver dar pior forma. O pior é mais acessível e parece sempre estar disposto a te dar as mãos. A gente se acostuma tanto em receber o pior que até esquece como é a paz, e se acostuma a lutar até mesmo quando não há problemas.

 

Não tem problemas?

Como assim estou sem problemas?

Eu preciso de um problema!

Se não tem, inventa um, porque a gente não sabe o que é ser feliz pois não sabemos quem somos. E acabamos sendo uns viciados em encontrar o prazer na dor. No fundinho a gente acredita que é o que a vida tem para nos dar e nem tenta lutar contra.

 

Como eu vou saber o que é ser feliz, se eu não sei nem quem eu sou?

 

Quando eu tinha uns vinte e seis anos a minha ex-sogra (se é que essa categoria existe) me disse na lata:

- Você não sabe viver em paz e muito menos ser feliz, quando os problemas não existem você cria um.

Pow! Foi um jab direto com um gancho no queixo e uma banda de capoeira que me fizeram levantar da cadeira, engolir o choro e ir para o banheiro enxugar a lágrima que eu não deixei cair e me olhar no espelho.

 

Afinal de contas:

Quem eu sou?

O que EU me permiti ser? Ao consentir que me dissessem quem eu era?

 

A frase da sogra me assombrou semanas, porque eu sabia que era verdade. A menina que tinha medo até de pular meio fio porque diziam que ela era medrosa. Isso fez com que ela se achasse incapaz de coisas mínimas. A menina que se escondia por trás de um nariz empinado, de uma cara carrancuda, mas que na verdade implorava pelo amor dos que ela admirava, a guria que só sabia lutar, mas não sabia vencer.

 

Quem não tem amor próprio tenta suprir essa falta de amor no amor dos outros.

 

Quando fiz a iniciação de Oxum e  ganhei todas as paramentas de presente do meu Pai de Santo, ele me deu as primeiras paramentas da falecida Iyalorixá da casa, da Oxum dela... A mais bela Oxum que eu já tinha visto na vida. Seu nome é Omiladê (“aportugueizando”), a tradução seria algo como: A realeza, a coroa das águas. Quando ela ia dançar no barracão eu mirava os olhos nos pés dela, pois tinha certeza que em algum momento ela flutuava e que eu ia pegar ela no flagra voando baixinho.

 

Voltando... peguei a adaga e o abebé nas mãos quando os recebi. Naquele momento eu estava desempregada, recém divorciada de um casamento horrível e manipulador e com uma filha de 1 ano e meio de idade. Eu olhei no pequeno espelho do abebé no fundo dos meus olhos e me perguntei: Que droga que eu sou? Quem eu sou? A vida só tinha me ensinado a usar a adaga para lutar. Criada em um ninho de cobras, em que tive que aprender a andar em terra de sapos e a me defender. Mas a vida não me ensinou a me amar… já que eu não sabia nada sobre mim mesma.

 

Como se ama algo que você não conhece?

 

 

Mas ok, não é de um dia para o outro que a gente descobre quem somos e eu não sabia nem por onde começar. Mas uma coisa Oxum me disse naquele dia sem dizer: 

 

Você não é o que dizem de você.

 

E como eu sei que foi ela? Não sei, só sinto que foi.

 

Eu acreditava que o espelho de Oxum era apenas uma paramenta usada por ela, porque ela era vaidosa, assim como o abebé de Yemonjá, para que elas pudessem se olhar e se admirarem ou uma arma que refletia a energia dos inimigos e nada mais.

 

Sei que estou falando muito de mim neste texto, mas é porque neste tema eu sou PHD e acredito que alguém aí do outro lado possa se identificar e de repente virar a chave que precisa, usando a minha experiência.

 

Nenhum processo de mudança, repito: NENHUM, acontece sem que antes essa mudança ou desafio passe pela nossa REAL vontade e o QUERER de Ori. Para o ser humano conseguir qualquer coisa: Primeiro Ori e ATITUDE, depoissssss Orixá. E quando digo querer, não é apenas dizer que quer e esperar acontecer, igual promessa de ano novo que você diz que quer muito e precisa emagrecer, mas não se esforça mais do que duas semanas. É preciso agir, vigiar, conhecer e lutar com resiliência, para encontrar a si mesmo e aceitar-se com defeitos e qualidades. O input, o primeiro impulso contínuo é nosso e não do Orixá. Depois ele dá uma mãozinha, como uma ferramenta que te ajuda a escalar uma grande colina. Nós somos as pernas e os braços fazendo a força para subir a colina, Orixá é a corda com o gancho. Mas quem decidiu ir e enfrentar todos os desafios da colina fomos nós.

 

Ainda hoje, depois de muitos textos repetitivos de Ori, as pessoas me mandam mensagens me perguntando: Como cultuo o meu Ori?

 

Além do ritual de Ebori/Bori, que deve ser feito ao menos uma vez por ano, que sintoniza, harmoniza o Ori Àiyé com o Ori Orun, que é fundamental para que possamos estar sincronizados corporalmente e espiritualmente, o culto a Ori é um desafio PESSOAL sem receitas prontas. É olhar-se no espelho e ver de fato quem somos, sermos honestos nessa busca e aceitar qualidades e defeitos. É olhar o seu corpo nu de frente ao espelho com a melhor luz e sem máscaras e acolher-se. O segundo passo é avaliar o que precisa ser melhorado e explorado para que possamos saber quais armas nasceram conosco e quais precisamos buscar. É chorar, perder-se e orgulhar-se de si mesmo. Também é necessário saber pra onde se está indo e se é pra lá que você quer ir. E se não souber…descobrir.

 

O culto a Ori é também enxergar-se em seus ancestrais, os vivos e os que já se foram e aceitar que você é tanto uma continuação de uma história como uma novinha em folha sendo escrita neste instante. Avaliar mais uma vez o que deve continuar sendo parte de você, que veio dos seus ancestrais, e o que você não quer repetir.

 

A partir do momento em que você entra na pista do jogo do autoconhecimento e se esforça para isso, os Orixás começam a atuar de forma dinâmica e muitas vezes não da maneira como nós gostaríamos, porque a verdade é que a gente não tem a sabedoria muitas vezes nem para saber o que é bom para nós mesmo, portanto faça a sua parte bem feita.

Observe-se e principalmente não se engane contando para si mesmo falsas verdades, querendo ser um exemplo de ser humano perfeito, bom e imaculado, pois ninguém é. Como diz a minha mãe: Se nasceu na Terra é Terráqueo, e se é Terráqueo tem muito o que aprender e melhorar.

 

Eu passei por todo esse processo e sabe o que aconteceu?

 

Eu sei quem eu sou e não sou o que me disseram que eu era. As pessoas continuam me julgando me rotulando e insistem em dizer quem eu sou sem saber por qual momento estou passando, e EU resolvo se a opinião delas vale ou não apena ser analisada por mim, e isso vale inclusive para os meus pais. (Oi mãe, oi pai, meus leitores queridos!!! Amo vcs!)

 

Todo esse processo começou de dentro para fora e continua aqui comigo. Estou agarrada ao axé de Oxum e ao seu espelho, que é capaz de mostrar a verdade sem nenhum tipo de julgamento e me faz dizer:

 

Deixe-me sentir e ter certeza que sou a pessoa mais importante da minha vida. Se eu não me encarar dessa maneira, será inútil para mim, pois por mais que eu receba todo amor do mundo, nunca será o suficiente.

 

O abebé é  uma arma, assim como a adaga que aprendi manusear cedo, mas uma arma contra os meus inimigos internos, uma ferramenta que me obriga a reconhecer o que é bom em minha vida, e sabe o que mais? Me gera gratidão.

 

Ahhh.... Oxum Grande Oladekojú. Mãe que me criou em Àiyé. Como eu não vi isso antes? Como eu nunca havia olhado no fundo dos meus próprios olhos até me encontrar? Virei o Rio Amazonas de tanto chorar quando percebi que eu não era o que falavam ou achavam de mim, mesmo que eu ainda tenha cicatrizes e na minha testa  um mapa em linhas de expressão que me lembrem quem eu fui.

 

Parece fantasioso, romântico e digno do Augusto Cury, mas foi assim.

 

Sabe o que eu aprendi com Oxum e seu espelho?

 

  1. Quando honramos Oxum e seu axé,  estamos celebrando a nós mesmos, e seremos celebrados. Não em termos de popularidade, mas como alguém que é aceito pelo mundo e honrado.
     

  2. Que as pessoas são exatamente o que elas pensam que nós somos.
     

  3. A nunca perder a oportunidade de falar sobre as qualidades das pessoas queridas que me cercam e inclusive desconhecidos. Algumas mulheres inclusive devem achar que eu sou gay, pois adoro dizer para mulheres desconhecidas na rua: Ei Você é linda!
     

  4. Aprendi a espalhar amabilidade e força ao mesmo tempo, assim como o riso, assim como a respeitar o MEU tempo das coisas.
     

  5. Aprendi que a maior arma que temos é a certeza de quem nós somos e do que somos capazes.
     

  6. Aprendi a carregar com a mão direita o meu próprio abebé e a lutar contra os meus inimigos e sombras internas. Com esquerda carrego a minha adaga para a luta diária.

 

Foi isso que Oxum me ensinou. Eu posso dar amor, mas não posso obrigar a ninguém a recebê-lo e muito menos que gostem de mim. Sou eu que preciso me amar.

 

 

Se este texto também falou  com o seu Coração Africano, cultue Ori, cultue Oxum ao ponto de fazer com que você perceba sem nenhum pudor, que você é SIM, a pessoa mais importante da sua vida.

 

Ori Ooooo! Ori Huuu

Oore ye ye o!!!!

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

 

IfáṢọlà Sówùnmí - Fernângeli Aguiar ou Fê para os amigos.

 

*Toda experiência citada neste texto são pessoais e não se tratam de uma verdade absoluta perante a diversidade do culto dos Orixás seja brasileira ou africana.

 

* É útil e necessário informar que em terras Iorubás, Osun carrega consigo um leque e não um espelho. O leque foi adaptado para espelho no Candomblé e a experiência que relato neste texto foi iniciada dentro do Candomblé e dentro do entendimento de Ori.

 

Fontes de Ensinamento

Bàbá King - Sacerdote do Oduduwa Templo dos Orixás

Bàbálórìsà Ifáseun Sówùnmí - Fernando Aguiar - Sacerdote do Templo dos Deuses Africanos Egbé Àiyé - Brasília DF

 

Imagens Pinterest - Foto de autor desconhecido, caso o conheça por favor enviar contato para que eu possa dar os devidos créditos.

 

 

 

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18.04.2019

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