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Egbé Òrun | Uma nova Leitura - Parte I de III


 

 

 

Àkìiká asèègèè Iyalode

Egbé Oooo

Muso Muso Muso!!!

 

Há tantas perguntas na vida que parecem não ter respostas, algumas dessas perguntas moram no sentimento de injustiça e da desilusão, mas de repente a vida gira em torno de si, mostra que de fato quem reluz o bem atrai o bem e PIMBA! Tudo é luz!
 

Egbé Orun trouxe tanta clareza na minha vida, que fiz uma tatuagem no ombro esquerdo com um de seus nomes, para que todas as vezes que me sentisse sozinha, eu me lembrasse que nunca estive e nem estarei só.

 

O culto a Egbé Orun na minha vida foi de fato um divisor de águas, e é por isso que tenho um profundo sentimento de gratidão.

 

Em agosto de 2015, escrevi um texto com o título “ ​Meu Coração Africano, Minha Alma Abiku​”. Foi esse texto de 3 anos atrás que me motivou a escrever este texto aqui que você está lendo, pois eu precisava dizer a cada um dos seguidores da página do MCA, que EU ESTAVA ENGANADA, pois ​nunca de fato fui Abiku​. Este texto que você vai ler agora, trata-se de uma evolução do primeiro texto, com base no aprendizado oral e de muitas horas de pesquisas bibliográficas.

 

Não podemos ter medo de errar e reconhecer os nossos erros. Vergonhoso é ser PRISIONEIRO do orgulho, da vaidade, da mentira e do dinheiro. Pensar, estudar, aprender e viver, deve ser uma honra.

 

Vem comigo.

 

Todos os problemas que pareciam sem solução de fato existiam, vou relembrar alguns trechos de um dos textos mais visualizados do Meu Coração Africano em que eu afirmei ser Abiku:

 

...A  sensação pode ser de deslocamento, de não pertencer ou talvez de estar aqui por engano. Como se você fosse o Super-Homem, sem todos aqueles poderes, mas com toda certeza os seus pais te mandaram para um planeta que não é o seu...

 

...o que me fez muitas vezes chorar atrás de portas e debaixo do chuveiro com uma saudade que doía fisicamente. Chorei com saudades de casa, de uma casa que eu não lembrava onde era, mas tinha certeza de que existia. Como se tivessem me esquecido aqui ou me abandonado. Olhei muitas vezes para a minha mãe e para o meu pai ao meu lado e não me senti em família.

 

...sou do tipo que tende a se isolar. Eu tenho pavor de multidão, não gosto de festas sociais, reuniões, não gosto de falar com pessoas estranhas, não gosto de interagir e muito menos que toquem em mim. Eu me esforço MUITO para ser legal...

 

...Como se uma força dissesse: “Ei, seu lugar não é aí! Seu lugar é aqui ao nosso lado. Volta logo para casa.”...

 

Todos esses sintomas eram reais e alguns perduram até hoje. A grande questão é que essas características pertencem a alguém que tem uma grande PROBABILIDADE de precisar se iniciar em Egbé e se tornar um Elegbé, e não necessariamente ser um Abiku Omode ou Agba.

 

Dentro da Religião Tradicional Yorùbá, Abiku é a pessoa que ao nascer, transforma a alegria de uma família. O Abiku não traz tristezas apenas para si e sim para toda a sua família, o nascimento da criança traz consigo a perda de dinheiro, de propriedades, de paz e até a morte de pessoas da família, mas nem por isso a família deixa de amá-lo. Vou me aprofundar no que é ser Abiku de fato na segunda parte, vamos primeiro falar sobre o que é ser Elegbé.

 

O Elegbé é a pessoa que segundo o Ifá (seja merindilogun, ikin ou opele) revela que aquela pessoa tem um vínculo tão forte com o seu Egbé, que é necessário que se inicie nesta Comunidade.

 

Na Religião Tradicional Yorubá, o culto a Egbé possui alguns nomes como Egbé Orun, Egbé Araagbo/Aragbo, Ere Igbo, Muso, Egbé Alaraagbo e com certeza devem haver mais que não conheço. É importante destacar que Egbé não é um Òrìsà, e sim uma "Comunidade Espiritual", sendo assim nas regiões de Yorubaland, em que não é tradicional a iniciação em mais de um Òrìsà, a iniciação em Egbé não é um impedimento.

 

Para o Isese Lagba, origem do culto de Egbé, é praticamente de comum acordo em todas regiões de Yorubaland, o entendimento de que todos nós temos um par/companheiro/amigo em Orun que se chama Elekeji Orun ou Enikeji Orun (par espiritual no céu), indo mais próximo ao significado literal da palavra, seria algo como “o segundo”.

 

Há dizeres dentro do culto de Egbé e Orunmilá que dizem: “Todos os seres humanos têm seus pares em Orun. Aqueles que não têm pares no céu, não podem estar vivos na Terra”

 

É muito surreal, trabalhar em nossa mente ocidental, que temos esse par/companheiro/amigo em orun. Essa ideia demora um pouco a ser maturada, assim que se toma conhecimento dela. É algo que de fato deve ser pensado.

 

Indo em busca da existência e importância do Enikeji em nossas vidas, encontrei alguns ẹsẹ Ifá. Vou citar dois versos já traduzidos com a origem de um dos textos do Babalawo Obanifa, de Ijero Ekiti, em Yorubaland.

 

Owonrin Ogbe diz:

 

“A Terra seria inabitável para Degbe

(Degbe é o nome do personagem deste ẹsẹ Ifá )

Se não fosse pela assistência do companheiro de Degbe no mundo invisível. (Enikeji)

Foi lançado o Ifá para o companheiro celestial de Degbe. (No caso o Enikeji)

Também é necessário fazer a leitura de Ifá adivinhação para o Araye. (Araye é o nome que se dá a uma das parte entre os dois companheiros, no caso o que vive em àiyé - Literalmente o Corpo da Terra)

Agradeça a existência do duplo de Degbe em orun, isso não permite que Degbe sofra.”

 

Neste trecho de um verso de Ifá, fica claro que o nosso companheiro em orun, no caso Enikeji, é um amigo/companheiro que de fato nos apoia em nossas batalhas de vida.

 

Mais um verso, agora em Obara Oyeku que diz:

 

São as pequenas crianças que usam seus olhos como luzes (lanternas) na escuridão. (Egbé é representado frequentemente por crianças e neste trecho elas são o farol em nossos momentos de aflição)

Foi realizada a consulta de Ifá para Egbé

Quando Egbé estava vindo do Céu para a Terra.

Ele foi instruído a oferecer o sacrifício

Ele cumpriu

Nós imploramos que você (Egbé) não nos deixe cair em desgraça

Em vez disso, que Egbé venha para a Terra

Seu companheiro do orun virá em seu auxílio (Enikeji)

Por favor, venha em nossa ajuda e não nos permita cair em desgraça.

 

Enikeji, esse companheiro espiritual que temos segundo a Tradição Yorùbá, é a ligação/elo com o nosso Egbé. A forma de culto, adoração e fortalecimento dessa parceria, faz-se através do culto a Egbé. Em muitos casos não é necessário a iniciação, basta a consagração de um assentamento e o culto com disciplina. Por isso precisamos ter cuidado antes de fazer uma iniciação e ver se de fato existe a necessidade.
 

Na visão da Tradição Yorùbá, da mesma forma que existem Comunidades na Terra, também existem comunidades em Orun. A Comunidade em que o meu Enikeji estiver inserido, será o meu Egbé em Orun, pois o meu Enikeji também terá a sua família em Orun. É por isso que algumas pessoas afirmam que em Egbe Orun há famílias constituídas de pai, mãe, marido e/ou esposa. Portanto o meu Enikeji é a minha representação em orun. Eu sou a representação de Enikeji  em aiye.

 

Espero que até aqui tenha sido didático.

 

Resumindo, segundo o Isese Lagba, a nossa primeira ligação com Egbé, é através de Enikeji, que está presente na vida de todos, independente de religião.

 

Vamos adiante.

 

Algumas pessoas possuem uma forte ligação com o seu Enikeji, como se fossem melhores amigos, irmãos gêmeos daqueles inseparáveis que um sente quando o outro não está bem, um companheiro de vida com uma base sentimental tal como o do(a) marido/esposa. Para os Yorùbá essa relação pode vir a ser possessiva.

 

Há pessoas que a relação com o seu  Enijeki e/ou Egbé Orun é tão forte e intensa, que esses laços são referenciados em vários ẹsẹ Ifá. Acredita-se que todas as vitórias de uma pessoa, que possuem esse forte vínculo, são fruto obviamente do seu próprio esforço e da ajuda de seu Egbé, e que devemos sempre ser gratos e reconhecer a ajuda de Ere Igbo. É importante ressaltar que mesmo que todos as pessoas tenham seu Elekeji, não necessariamente tenham um forte vínculo com o seu Egbé.

 

Pessoas que possuem forte ligação com o seu Egbé Araagbo, fizeram pactos/promessas que foram feitos ainda em Orun com a sua comunidade espiritual, antes mesmo de virem para àiyé. Este pacto muitas vezes se referem ao compartilharem suas vitórias, de sempre lembrarem e homenagearem o seu Egbé e de sempre praticar a gratidão a Egbé. O pacto pode ter sido feito com o oko/aya orun (marido/esposa do orun), em que ainda no orun, ambos fizeram a promessa de não se casar em vida, e essas pessoas não se casam, se não houver um ritual muito específico para se desfazer esse pacto.

É bastante comum que um(a) Elegbé tenha forte comunicação com o seu Egbé e o mais popular é através de ala (sonhos).

É importante destacar que este não é um comportamento de uma pessoa que pertence a Egbé Abiku, mas sim uma pessoa que possui oko/aya orun. O pacto de Egbé é diferente do pacto de Abiku, mas falaremos sobre isso mais a frente.

 

Quando o pacto vem sendo cumprido da maneira correta e há reconhecimento, Egbé proporciona ao seu membro de àiyé (Araye), vida longa, saúde, vitória, um bom casamento, filhos saudáveis e prósperos, alegria em viver e de estar vivo, a prosperidade e o progresso. No entanto quando o pacto não está sendo cumprido e Egbé não se sente reconhecido, a polaridade inversa dessas bênçãos acabam se manifestando na vida da pessoa, muitas vezes através de doenças, o sentimento de não pertencimento a este mundo, a dificuldade de socialização, o desencontro com um bom parceiro para a vida, relacionamentos curtos, a dificuldade em gerar filhos, o vazio e uma solidão que muitas vezes não fazem sentido ou parecem não ter uma origem lógica.

 

Mais uma vez, no corpus de Ifá encontramos um verso em Ogunda Ofun,  que retrata o abandono e a não assistência ao Egbé pelo próprio Orunmilá, quando ele consultou Ifá para compreender porque estava perdendo bens e dinheiro. Já traduzido do Yorubá para o português.

 

Em um pequeno trecho de Ogunda Ofun Ifá diz:

 

Ajankulu mon kulu  (Nome de um antigo sacerdote de Ifá)

Fez a leitura de Ifá (oráculo) para o próprio Orunmilá

Quando Orunmilá estava em luta e tendo problemas com seu Egbé

Egbé manda uma mensagem para Orunmilá:

Nós estávamos juntos de Orunmilá o tempo todo, enquanto ele preparava a sua plantação

Por que Orunmilá está nos renegando agora?

Durante o cume do plantio de Orunmilá nós ficamos lado dele

Por que você Orunmilá nos negligenciou agora?

Quando Orunmilá estava colhendo seu milho, nós também o ajudamos

Orunmilá, por que você nos esqueceu agora?

Nós estávamos juntos quando você está colhendo seu sorgo

Por que Orunmilá nos descurou agora?

 

Este verso retrata uma história do próprio Orunmilá, quando ele obteve sucesso e depois perdeu tudo o que conquistou. Foi revelado a ele através de Ifá, que ele não estava sendo grato ao seu Egbé, e era Egbé quem estava trazendo a perda para a vida de Orunmilá, justamente pelo não reconhecimento do esforço do Egbé em todas as suas lutas e conquistas, ou seja, a falta de culto.

 

Hoje consigo compreender na teoria e na prática, que os sintomas de um Elegbe, dos quais eu citei no texto de 2015, podem SIM ser amenizados e até desaparecerem por completo.

 

Aquela pessoa que escreveu o texto em 2015, não existe mais. Justamente porque hoje há culto ao meu Egbé Orun. De todos os sintomas que citei, ainda sinto saudades de casa, mas esse sentimento não me faz mais chorar. Ainda não sou tão social como gostaria de ser, pois adoro a minha própria companhia e os meus pensamentos, e essa característica não atrapalha a minha vida social.

 

Aí alguém vai me perguntar:

 

Mas Egbé é do mal?

 

E eu vou responder com uma outra pergunta:

O fogo é capaz de queimar, de acabar com quase tudo que existe, é capaz de acabar com a vida na Terra, é capaz de matar a nossa família se ele não for tratado/manipulado com respeito (Eeepaaa*) e com responsabilidade.

 

Isso faz o fogo ser do mal?

 

Mas vem cá! Sem o fogo também não há vida.

 

O fogo, assim como os Òrìsà são agentes TRANSFORMADORES.

 

Pois é. Por isso que repito tanto e tanto: Orixás não são do bem e nem do mal, assim como TUDO CRIADO por Eledumare. Mas algo pode estar em sua vibração positiva ou negativa. E nós temos a honra/poder de direcionarmos essa energia.

 

Nem a morte é do mal. Depende da perspectiva. Pense nisso.

 

Lembra da Mãe e do Pai que me referi neste texto, que todos nós temos em Egbé Orun?

 

Em Abeokuta, por exemplo, Egbé Orun tem uma Mãe e um Pai dentro do Culto Tradicional? Pois é!!!!! A Mãe ou Chefe, de acordo com a tradição familiar de TODOS os Egbé chama-se Iyalode, e o Pai se chama Jagun. Como sempre podem haver diferenças em Yorubaland, já em Ibadan, não existe a manifestação de Jagun, e sim apenas Iyalode e Eleeko, mas Iyalode continua sendo a Líder/Chefe/Mãe de todos os Egbé.

 

Você já deve ter visto uma foto ou vídeo dos dois.

 

 

Estes são Iyalode e Jagun. Imagem cedida por Jefferson Silva ao lado de Bàbá Ajagunmole, em Abeokuta, estado de Ògún, Nigéria.

 

 

Ambos os nomes também representam algumas das dezenas de sociedades dentro de Egbé. Este vai ser um dos assuntos abordados dentro desta série de textos, que será dividida em Parte I , II e III, por ser um assunto longo, que exige um pensamento racional e muita reflexão. Vou pautar todo este assunto com bases nos aprendizados dentro dos ese Ifá e das mensagens que são trazidas por eles. Na Parte I falamos de Egbé Orun, na Parte II de Abiku e na Parte III sobre as comunidades de Egbé com foco na cidade de Abeokuta.

 

No final desta série de textos sobre Egbé e Abiku, se você acredita(va) que você é(era) um Abiku, você vai conseguir repensar se de fato se enquadra no que se chama de Egbé Abiku. Lembrando que é importante SEMPRE confirmar através de consulta oracular com um sacerdote que seja iniciado em Egbé, que conheça Egbé e que cultue Egbé.

 

A Parte II desta série, será publicada no dia 16 de outubro, terça-feira.

 

Que o seu Egbé Orun tenha  sempre os olhos reluzentes no momentos de escuridão, pois eles são mestres na arte de nos  guiar aos caminhos de plena felicidade.

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

IfáṢọlà Ṣówùnmí - Fernângeli Aguiar

 

**Toda experiência citada neste texto são pessoais e não se trata de uma verdade absoluta perante a diversidade do culto dos Orixás seja brasileira ou africana.

 

 

Fontes orais, escritas e bibliografia:

 

Babalorisa Fernando Ifaseun Sowunmi - Brasil/ Abeokuta

Baba Oosa Dara Adisa - Brasil / Oyo

Ìyá Egbé Oladide - Abeokuta

 

Babalawo Obanifa -  Ijero Ekiti

 

Babalawo Ifadare Olajide - Sango Ota

Yorùbá Culture - Livro:A Philosophical Account - Kólá Abimbolá

 

Ayò Salami - Livro: The Heavenly Mates of Very Humans

Practical Ifa: S. Solagbade Papoola - Vol 3


Sandra Medeiros Epega- ​ÀBÍKÚ - 2009

 

Vários ese Ifá - S. Solagbade Papoola

 

A Sociedade Egbe òrun dos abikü, as criancas nascem para morrer varias vezes *

Pierre Verger - Universidade Federal da Bahia

 

Apoio sobre o culto de Egbé em Ibadan  -  Bàbá Maike Figueredo

 

 

Observação: As acentuações do Iorubá deste texto estão em sua maioria ausente.

 

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