A gente nas redes

 

A palavra que tenho hoje escrita aqui na Nigéria com uma faca afiada em meu coração é: RESISTÊNCIA. De todos os deuses antigos do mundo, deuses pagãos como se pode chamar, os nossos Òrìṣà foram o únicos que resistiram ao Cristianismo, Judaísmo e o Islamismo. Todos os demais sucumbiram e se tornaram meros mitos da história e filmes; Atena, Hecate, Perséfone, Isis, Hórus, Thor, Odin e tantos outros ... não se tem notícias. Dizem que estes cultos estão voltando silenciosamente, mas os nossos Òrìṣà não foram enterrados pelas religiões que visam o poder e o controle sobre o ser-humano em momento nenhum. Os nossos Òrìṣà resistiram, sobreviveram e continuam vivos.

 

 

Òrìṣà está vivo aqui, de uma forma linda, entre aqueles que de fato seguem o caminho dos pais. A coletividade é encantadora. No terceiro dia, por exemplo, eu estava presente em um ebó para Ogun. Ogun comeu aja. Estou na casa do meu Babalawo, e sabe quem fez o ato de cortar o aja com facão mais potente que um canhão? (Exagerada!!! Huahuahuahuahua) Não foi o Babalawo, foi o sacerdote de Ogun. Tratado com toda honra merecida, numa atmosfera de cooperação e irmandade. Ele foi convidado pelo Bàbá para fazer o ato do corte. O Babalawo fez todas as invocações, alimentou Èsù e no ato, foi esse sacerdote que o fez. Com certeza ele ganhou um dindin para fazer aquilo, pois é a especialidade dele, é o Àṣe dele, e a vida é sim, uma troca, pois Ogun reconhece a mão e o Àṣe daquele sacerdote de forma solene. A uaite aqui, gritava OGUN YE MO YE OOOOOOO e pensava ao mesmo tempo em alguns atos do ebó: Se eu sempre soube que não sabia nada, agora eu tenho certeza absoluta com direito a selo em ofício reconhecido em cartório. Que eu viva mais 50 anos com saúde para poder aprender e ensinar mais. Eu lutarei com todas as minhas forças e com sabedoria para que Òrìṣà seja honrado. 

 

Voltando aqui, para eu não me perder. 

 

Na noite do mesmo dia, eu tive um momento emocionante. Voltei às minhas origens do Candomblé, quando a minha ingenuidade e a minha busca incessante por respostas, não pediam uma lógica para tudo, e eu podia simplesmente descansar a alma e entregar meu coração. Saudades!

 

A Iyaloriṣa me perguntou se eu queria aprender cantigas para Ọṣun (Ela não fala quase nada em inglês) mas mesmo assim, consegui entender o que ela disse e foi aí que ela e a outra Iyaloriṣa começaram a cantar pra Ọṣun, e mesmo sem ter a mínima ideia do que estava sendo cantado, lágrimas pularam dos meus olhos, me senti novamente a menina que pedia para Ọṣun cuidar de mim e não me abandonar. Sem luz, sentadas do lado de fora, com uma promissora lua cheia por chegar em 1 ou 2 dias, eu louvei Òrìṣà sem saber o que estava sendo dito. Não importava, conversava com o meu coração e vinha de um fonte infinitamente da minha confiança. E a última coisa que pensei foi em me preocupar com a tradução, F... a tradução. 

 

Eu nunca vou esquecer esse momento.

 

Obrigada Òrìṣà por ter resistido ao bicho homem, mesmo que não mereçamos, e por eu estar viva para VIVER essa experiência.

 

Essas pessoas aqui inspiram resistência, as crianças têm muito a ensinar. E caso venha um dia até a Nigéria não tentem compra-las, por favor, com doces ou seja lá o que for. Só vou dar uma palhinha, 90% das casas sequer tem geladeira, porque não tem energia. Tem dia que dura 30 min e no outro não vem nada. Chuveiro? Banho de cuia, como chama no Ceará, no balde. Descarga? Privada? Cada um improvisa como pode usando o cano do esgoto. Só lembrando que estamos em 2019. Aqueles mais providos compraram seus próprios geradores, mas a gasolina aqui também é coisa de rico. Eu realmente me senti de volta ao roncó do Candomblé, mesmo sem ainda ter entrado para a iniciação.

 

Com certeza essa viagem me deixou menos tolerante para certos mimimi, incluindo os meus próprios. Nunca mais serei capaz de olhar o mundo da mesma forma. Aqui as doenças emocionais do séc XXI ainda não chegaram de fato, pois o instinto de sobrevivência ainda é latente e uns cuidam dos outros. Todas doenças emocionais, que não foram herdadas, partem de um sentimento chamado solidão. Aqui a palavra FAMÍLIA vale realmente muito. Apenas não se iluda também em nenhum sonho de fadas, porque o machismo e o patriarcado comandam, como no Brasil de 1950.

 

E só pra terminar, aprendi com o Rock Balboa, que não ganha a luta quem bate mais forte e sim quem tem mais resistência. Sábio Rock! 

 

Ainda volto antes de ir, espero eu.

 

Um chêro e a benção de cada Ori  que desejou a sorte verdadeira.

 

Muito obrigada.

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)
Ìyá IfáṢọlà Ṣówùnmí 


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Imagem: Ifagbemi Ṣówùnmí ọmọ Babalawo Ifarombi Ṣówùnmí 

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18.04.2019

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