A gente nas redes

Onde moram os Òrìṣà?

 

Ainda adolescente eu aprendi: “Um mesmo homem não toma banho duas vezes no mesmo rio.” Agora aos 40 anos eu aprendi que quando se atravessa o Atlântico a primeira vez, você se enterra viva e renasce com outros olhos para a vida. 

 

Minhas concepções sobre tantas coisas mudaram:

Respeito 
Submissão 
Coletividade
Vaidade
Arrogância 
Poder
Futilidade 
Importância 
Amor próprio 
Opinião alheia 

 

Em um pouco mais de uma semana foram talvez anos de terapia.

 

Aqui eu aprendi que quando eu te dou respeito e você me devolve submissão e escravidão, você está me dizendo que você não sabe o que é respeito.

 

Conheço histórias de pessoas que na primeira vez que vieram à Nigéria, voltaram ao Brasil insuportáveis, donas da razão e subindo em tijolo para dar discurso. Narrativas como se fossem o primeiro brasileiro a pisar na terra mãe dos Òrìṣà e a desvendar segredos. Apesar de ter certeza que isso fala muito mais sobre o caráter, fraquezas e a inseguranças daquele indivíduo, eu consigo compreender. Estar aqui é algo surreal.

 

O mundo de Òrìṣà aqui é outro e a ficha cai para muitas nuances. Nunca teremos um verdadeiro Festival do Òrìṣà Ogun no Brasil, por exemplo. Precisaríamos unir seguidores de uma cidade, ou alguns bairros. Irmos para a rua caminhar com imagens de Ogun pela rua. Eleger um único Eleegun desse Òrìṣà, sabe-se lá com que critérios, e isso já seria caso de morte. Recitarmos Ijala, orin, oriki. Sacrificar aja em praça pública, eleger uma pessoa que possa ser um representante do Festival, e com apenas isso já sabemos que isso não vai acontecer no Brasil, pode acontecer em outros países, mas no Brasil é complicado. Como disse minha irmã Janaína de Yemoja outro dia, no Brasil tem muitos Deuses e não são os Òrìṣà.

 

Brasileiro é tão louco por poder e é tão vaidoso, que vem na Nigéria e é “enganado” com títulos como: “Chefe Representante de Obatalá no Brasil”, por exemplo. Se for representante de uma família, super OK! Mas caso não seja, é vergonha alheia. Brasileiro vem na África, mas não entende a África. Quanto mais nos desprendermos do ocidente, e olharmos mais para o simples, mais estaremos perto. E não adianta vir para a África e ficar dentro de um Forte sem contato e sem prosa com o povo daqui. É preciso pegar a sua trouxa de roupa e ir lavar junto de uma Yorúbà. É preciso ficar dois dias sem luz e comemorar quando chega. É preciso caminhar e correr alguns perigos sim, para que se possa ver a realidade.

 

Tudo muda, até o nosso Àṣe. Eu mudei. E não sei se você vai achar se foi para melhor ou pior, aqui tudo é diferente.

 

A fé é diferente.
O culto é diferente.
Os pedidos e desejos são diferentes.
A Tradição é diferente.
A ideia de hierarquia é diferente.
O conceito de Òrìṣà é diferente.
O respeito é diferente. 
O vício de ter possessões e ou virar no Òrìṣà é diferente.
O conceito do que é importante e do que é fútil é diferente.
Aliás ainda estou procurando o que é igual...

 

A pessoa vem aqui e realmente acredita que agora ela é o Joãozinho dono da bola, porque ela olha para a prática no Brasil e pensa que agora ela é a dona do saber. Como eu disse no início, vai da personalidade de cada um. É só mais um ser humano fazendo seres “umanisses”.

 

Como eu adoro pensar ouvindo o disco ao contrário, eu tenho uma mensagem diferente das que já foram dadas.

 

O sabor das frutas aqui é diferente. A maçã parece ser menos ácida, a banana é mais gostosa, o melão que eu comi parece pepino. Cada tempo, cada lugar é uma realidade. Tente tirar o melhor, deixe o mais próximo possível que puder, mas sempre se lembre que  seremos diáspora, não negue isso. Apenas dê o seu melhor, sem ter que abrir mão do que emociona, do que fortalece e do que nos une.

 

Toda religião em algum momento no tempo foi inventado pelo ser humano, a gente pensa pouco sobre isso. Então se amanhã eu quiser inventar o Isese Lagba da Ifáṣolà no Brasil, onde o culto de Egbé predomina sobre os demais, vai ter doido pra me seguir, e vão poder fazer o que a respeito? NADA. Vão dizer que eu surtei e ainda assim não vão poder me impedir.

 

Òrìṣà responde no Candomblé e responde no Isese Lagba diáspora e pronto. Cada um segue pro caminho que faz feliz e cabô o problema.

 

Eu vim buscar conhecimento em alguns Òrìṣà e inclusive a parte turística vai ficar pra quando eu vier com o meu marido, mas isso não invalida o que eu aprendi no Brasil e FUNCIONA. Toda essa ladainha pra dizer o seguinte: Valorize o que você sempre teve e funcionou tantas vezes. Aperfeiçoar é lindo, ignorar o passado, é cometer o erro. 

 

Na África tem Òrìṣà. No Brasil tem Òrìṣà. Se no Japão alguém chamar por Èṣù, no Japão também vai ter Òrìṣà. No entanto eu pergunto:

 

O que o seu Ori quer de Òrìṣà? 
Quais são os valores que você acredita precisar de Òrìṣà?


É isso que vai fazer a diferença.

 

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)
Ìyá IfáṢọlà Ṣówùnmí 


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Imagem: Oloriṣa Ẹgbẹ́ Olorojuwa

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