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Òrìṣà - A Cobrança de Iniciações e Rituais Atrasados

 

 

Tem muito tempo que quero escrever sobre este tema. É dolorido receber pessoas de todas as partes do Brasil, que de fato crêem que os Òrìṣà são deuses que interferem no livre-arbítrio do ser humano, tirando delas o que possuem de mais precioso: saúde mental e física, família e seu próprio sustento. 

Òrìṣà não tira a liberdade de ninguém, Òrìṣà devolve a liberdade.

Ser livre... A minha alma é assim e espero que a sua também seja. A sensação da liberdade é como um sopro no peito, que te faz aspirar e soltar o ar leeeentamente, de olhos fechados, com cheiro de ar fresco e com um sorriso espontâneo e involuntário. Uma mente leve e intensa. Uma sensação de poder sobre si mesmo e o querer viver intensamente o agora. E o que é a vida senão é o agora, o agorinha?

 

Muitas vezes escutei pessoas de dentro das religiões de Òrìṣà, referirem-se a sua própria fé como um fardo ou uma prisão. Seja pela rigidez  e exigência da dedicação, pelas cobranças de Iniciações dos Òrìṣà, pelos sacrifícios madrugadas a dentro, pelos altos custos de rituais, ou pelo perfil de sacerdotes(isas). Sempre há reclamação, lamúria e queixas do próprio sacrifício.

 

O conhecimento oral, dentro do culto aos Òrìṣà, permitiu com que alguns muitos equívocos e mitos se tornassem os verdadeiros monstros para o Ori, na vida de muitas pessoas. Fazendo com que toda a desgraça que acontecesse na vida de cultuadores de Òrìṣà, fossem sempre cobranças de Òrìṣà. 

Não funciona assim. Vamos falar primeiro sobre uma palavra que muitos de nós esquece o seu significado: 
Livre-arbítrio (S.m. - Refere-se a possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante)

Livre-arbítrio 
é a sentença máxima de Eledumare e o livre-arbítrio está intimamente ligado à Ori.


Já atendi em consultas pelo erindilogun, pessoas desesperadas, desesperadas mesmo,  dizendo que perderam tudo, que estão prestes a enlouquecer, que estão doentes, desempregadas, sem dinheiro e até que já perderam familiares porque o ÒRÌṢÀ ESTÁ COBRANDO FEITURA/INICIAÇÃO, ou a OBRIGAÇÃO DE ANOS. 

 

Fazer cara de paisagem nesses momentos de acusação contra os Òrìṣà, não dá, eu não consigo. Dói, sabe? Eu sempre acabo demonstrando a tristeza. E tento explicar de uma maneira didática que não há ninguém que seja tão especial a ponto de Òrìṣà vir pessoalmente “cobrar” algo que é para benefício da sua própria vida. 

Òrìṣà não cobra, mas já a ancestralidade é quem de fato faz esse papel. Mas por que?

Dentro da cultura yorúbà, são os ancestrais os responsáveis em nos orientar, pois eles já tiveram uma existência em àiyé, assim como nós, e também cobram essa melhora da conduta e do caráter humano. Quem cultua Òrìṣà precisa entender que somos continuidade. Quer saber para onde vc esta indo? Olhe de onde você veio. Muitas vezes, há cobranças que não são nossas, e sim dos nossos ancestrais e as vezes do nosso Ẹgbẹ́ Ọrun.

 

Para mudar esse conceito e ter até mesmo mais amor pela nossa fé, é necessário entender algo simples que fará a diferença na crença, que é assim:

 

ÒRÌṢÀ não precisa de comida, de sangue, de oração, de festa nem de adoração. SOMOS NÓS QUEM PRECISAMOS DE ÒRÌṢÀ, E NÃO SÃO ELES QUEM PRECISAM DE NÓS, LOGO, ÒRÌṢÀ NÃO COBRA NADA.

 

Nós os cultuamos para termos suas bênçãos. Afinal, Òrìṣà não precisa de vela, de água... Òrìṣà não é espírito sem luz, com sede ou fome. Òrìṣà é divindade.

 

Olhar Òrìṣà como um ser que cobra iniciação, e que se assim, você não o fizer ele vai prejudicar a sua vida é um olhar deturpado, que empobrece a crença de todos nós.

 

Essa dinâmica de pensamento é um tanto quanto complexa para todos aqueles que visualizam os Òrìṣà como seres antropomórficos, ou seja, atribuindo características humanas aos deuses.

 

Voltando para a ancestralidade que falei logo ali em cima, cada um de nós carrega dentro de si um histórico espiritual e ancestral. Aqui no Meu Coração Africano já exploramos esse tema em outros textos. Isso significa que as nossas necessidades espirituais nascem 90% das vezes de nossos antepassados, vivos ou não. Como se sabia muito pouco sobre o culto à ancestralidade no Brasil, Egungun e Ẹgbẹ́ Ọrun, esses problemas eram atribuídos a cobrança de Òrìṣà, justamente por não terem explicação.  E acreditando que isso possa ser justo ou não ao seu ver:  Os filhos herdam os erros dos pais, dos avós, bisavós e etc. Que erros são esses? Esses erros são gerados pelo princípio básico do iwa rere e a lei do retorno. Se alguém comete um erro, na infração do bom caráter, isso voltará. Essa cobrança pode vir de maneiras imagináveis, nunca me canso de surpreender.

 

Nesse penúltimo final de semana ao fazer um ritual de Ibori em uma criança, de apenas 8 anos,  muito especial aos meus olhos, eu perguntei para ela:

 

​- Você gostas dos Òrìṣà?

 

Ele abaixou os olhos e a cabeça levemente, fugiu com os olhos dela dos meus e levantou e abaixou os ombros, como um “sei lá ...” ou tipo "não dou a mínima...".

 

Expliquei a ele de uma forma lúdica, e até inventei personagens de quem eram os Òrìṣà, usando um game como exemplo. 

 

​Resumindo eu disse a ele para fazer de conta que ele tinha uma missão de chegar a um destino. O caminho para chegar esse destino é cheio de obstáculos e monstros. Ele está sozinho e por conta própria, mas tinha a opção de pedir ferramentas muito especiais, que o auxiliariam a escalar obstáculos, a nadar e até mesmo vencer as suas fraquezas internas. Cada uma dessas ferramentas o faria mais forte, apto para conquistar... mais ainda assim dependeria dele seguir até o destino. Depois eu o expliquei que cada ferramenta era um Òrìṣà. Ele sorriu.

 

Agora para quem acredita que são os Òrìṣà que cobram a iniciação, é necessário compreender que a cobrança na verdade não vem dos Òrìṣà, vem da Ancestralidade e do meu próprio Ori. Ori, o Senhor do meu destino, aquele que de fato sabe tudo sobre mim,  e me cobra (agora sim!) que eu tome uma atitude de emergência para conseguir ter uma boa vida, uma vida longa, próspera como a que todos nós somos predestinados a ter. 

 

Leia essa rápida história:
 

Há quase 20 anos, uma mulher estava no fundo do poço. E o que a levou para lá? A falta de amor próprio e a falta de segurança. Causados pelo quê? Circunstâncias da vida. No entanto ela tinha uma mãe que repetia a mesma história. 

 

Todas as vezes que ela ia consultar o erindilogun com o Babalòrìṣà, ele dizia:

- Ọṣun está cobrando sua feitura. 


E se ao invés de dizer Ọṣun está cobrando a iniciação ou a feitura, ele dissesse, é o Àṣẹ de Ọṣun, quem vai lhe fazer mais forte para conseguir sair dessa situação? É o próprio Ori  que diz isso.

 

Ọṣun, aquela que primeiro cuida de si

(ama a si mesma) para depois

cuidar dos seus.

 

 

Muitos e muitos casos por aí, as pessoas escutam que Òrìṣà está “cobrando feitura” quando na verdade não é. São nossas necessidades pessoais, por algo que está em desequilíbrio em nossa vida, seja esse desequilíbrio causado por nós mesmos e nossas atitudes ou por nossos ancestrais.

No caso de rituais anuais, quando as coisas começam a andar para trás, você está precisando que aquele Àṣẹ seja renovado. Não são os Òrìṣà que estão pedindo a obrigação. O ritual é apenas uma troca. 


A realidade é que nós somos, hoje, o retrato de todas as escolhas e até das nossas omissões, assim como das escolhas e das atitudes dos nossos ancestrais. 

 

 

Òrìṣà nunca será um problema, Òrìṣà é a ponte para a solução. 

 

 

Ressignificar Òrìṣà na vida é ser livre, é voar pelos desafios que SEMPRE existirão, com a certeza de que SE QUISERMOS, não estaremos sozinhos.

Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

Ìyálòrìṣà IfáṢọlà Ẹgbẹ́kemi Ṣówùnmí

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