A gente nas redes

 

 

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Hora tão Osun. Olhos nos olhos,  atração,  arrepio, querer, ter e seduzir. Toma o controle do homem pelo sexo, pela chantagem e pelo toque. Somos água fervendo dentro de nós... que evapora e se torna nuvem branca que brilha e cheira, pra voltar na chuva do fim da tarde e cair no rio... Outrora tão Yemoja, que protege a prole como uma leoa recém parida de dentes afiados e com gosto de sangue na boca, travando a mandíbula, em prol da família e na empatia do amor de todas as mulheres que não medem a quem se entregam.. e se perdem. Tolas, sem raciocínio. Por isso perdemos o controle, por sermos intensas e por amarmos demais, por não compreendermos que nesse mundo, poucas vezes cabe o coração. Mas ainda assim... é melhor viver intensamente em nossas peles quentes.

 

Somos assim, romantizamos o improvável, veja só... a gente romantiza até macumba... para que valha a pena todos os sentidos extra sensoriais. A gente cheira, sente com a boca, toca com a língua o tempo, vê o amor e escuta os sentimentos alheios.

 

A gente torna tudo  tão mágico... Qual é a graça e a beleza do mundo sem nós? Nós condutoras de Axé. 

 
Como aquele momento em que a filha se prepara para encontrar a Mãe.

 

Tira os sapatos, caminha lentamente como se houvesse uma música de fundo.

 

 

Olha para os seus dedos dos pés e os aproxima da beira da água brilhando. Quando a filha abraça a mãe ... a água toca e lava a alma de dentro pra fora. É rio, é água, é açude, córrego e cachoeira. Me cura, me limpa, me lava e leva para o fundo do oceano através das mãos de Olokun tudo aquilo que me faz pensar em desistir. Yemoja me alimenta de vida.

 

Somente a água sabe o que é ser profunda. Profundo como o nosso sexo, como os nossos mistérios, que são os verdadeiros condutores de àse e que levam vida para onde o amor se ausenta.

 

O amor mora dentro de quem se permite amar. Mas este mundo não nos permite ser como gostaríamos, de podermos dançar ao som de nossa própria intensidade. Repito: Há poucos lugares no mundo onde o amor e o amar sejam de fato bem vistos. Este é o mundo da razão... Foi por  causa do amor que perdemos o poder.

 

Foram profundos e intensos processos de ver em mim a água que de fato somos. Quando digo somos, digo nós mulheres. Enquanto o mundo se acabava em guerras por poder, eu guerreava em mim para entender a natureza de Yemoja.

 

 

Na iniciação na Religião Tradicional Yorúbà (em minha família e em outras que conheci) no terceiro dia da iniciação, faz-se uma consulta ao Òrìsà que está sendo iniciado. Essa consulta tem alguns objetivos, como o de ver se tudo ocorreu bem, saber se existe a necessidade de mais algum ebó e trazer mensagens do Orisa.

 

No terceiro dia da minha iniciação, logo pela manhã, a Ìyá Omifunke fazia carinho na minha cabeça enquanto eu estava com a cabeça em seu colo. Eu estava alí deitada enquanto ela me ensinava alguns orin de Osun. Logo eu, manhosa que adora um colo e um chamego.

 

Pouco mais tarde fomos para a consulta à Obatalá. Uma das Iya cobria meus olhos, enquanto a outra fazia a queda dos búzios. De acordo com as caídas dos búzios, eu imaginava que viria justamente uma mensagem de Osun. Meu coração se encheu de amor.

 

A Ìyá olha pra mim com o olhar reticente e começa a dizer finalmente:

Obatalá diz que tudo vai ficar bem: Você será curada. Obatalá guiará seus passos. Todos os seus esforços serão recompensados pelos Òrìsa porque você é uma boa filha (Só aí eu já comecei a chorar como uma criança... meu esforço para ser alguém melhor estava sendo visto pelos meus Deuses), mas Obatalá diz que você é filha de todas as águas. Pensei comigo: (Ore yeye oooo!!!) e então ela completa: Você precisa cultuar Yemoja, e quanto mais você cultuar Yemoja, mais sucesso você terá. Seus inimigos são inimigos de Yemoja e de Osun, pois uma mãe jamais abandona suas filhas. Sua próxima iniciação deve ser em Yemoja, e você deve sempre cultuar Osun, para que Osun também proteja suas filhas.

 

O tempo parou.

 

Yemoja???

 

Eu fiquei parada olhando para o nada. Pois eu nunca cultuei Yemoja de uma forma frequente, apenas em rituais coletivos. Mas em menos de 6 meses era a 4a pessoa que me dizia: Você precisa cultuar Yemoja. Mas iniciar em Yemoja? De repente Booom! Com  mais algumas palavras a Iya me explicou todos os motivos pelos quais eu precisava de Yemoja em minha vida.

Foi aí que eu entendi o que é ser filha das águas. É correr em busca de um objetivo grande, como o próprio mar. É ser profunda, é ser rasa, é ser imprevisível, é não brigar e apenas contornar os obstáculos... é seguir em frente, mas ter cuidado para não se perder em si. Ser água é nutrir.

Com o ocorrido tenho me dedicado mais ao saber sobre Yemoja, e consegui “ir” em alguns lugares que nunca cheguei antes. Esses lugares que me refiro, são lugares silenciosos, onde tento ligar peças e fazer conexões neurais das informações que possuo. Claro que muitas questões não terão respostas, mas antes de tentar buscar saber sobre folhas, comidas, magias ebó e medicinas, Yemoja precisa estar completa dentro de mim.

 

Yemoja não é apenas a Ìyá Agba (Mãe Antiga) de seios cheios, a mãe dos Òrìsà ou Òrìsà das Águas. Ela é muito mais. Muitas mulheres buscam o empoderamento em Iyami  por ignorância do saber, do que de fato são as Grandes Mães. Muito dessa força do feminino está no Culto à Yemoja e a Osun.

 

Yemoja é a própria mulher em toda a sua essência. O Seu mais profundo amor e entrega, que é capaz de dar a própria vida em nome do amor, pelo outro e pela família, assim como também o mais submerso rancor, que traga a alma e deixa ela murcha e cinza. Yemoja é capaz de ouvir a lágrima que cai e molha a terra, quando suas filhas choram verdadeiramente com a alma e não estão manipulando uma situação nem se vitimizando.

 

Yemoja rege também os hormônios do corpo. Fiz várias associações entre alguns símbolos e crenças de Yemoja, mas as principais são a Lua, as marés e até mesmo o fato dela ter sido chamada de Ìyá Ori aqui no Brasil. Título que NÃO confere à ela em terras Yorúbà.

 

O emocional e até mesmo os relacionamentos afetivos e pessoais são regidas por hormônios. O amor é um hormônio, a raiva, a ira, a gravidez, a menstruação, a alegria, a força... tudo são hormônios.  


Yemoja é a principal deidade dos RIOS, e da água, capaz de curar dores internas que o outro, fora de nós, é incapaz de compreender. Yemoja é o amor incondicional.
 

Minha Iya disse que ela é capaz de fazer uma mulher infértil, tornar-se fértil. Ela não perde facilmente a paciência, mas quando se enfurece, ela pode ser bastante destrutiva e violenta, como as águas da enchente de rios turbulentos.


Yemoja é descrita em Yorubaland como uma sereia em terra Yoruba, assim como Osun. O que muitos candomblecistas criticam os Umbandistas por chamarem Yemoja de sereia, é perfeitamente real em terras Yoruba. Ela é protetora das mulheres. Ela governa tudo sobre mulheres, parto, concepção, paternidade, segurança infantil, amor e cura. Ela supervisiona segredos profundos, sabedoria consciente e o inconsciente coletivo.


Ouvi um conto que diz que quando suas águas se romperam, causou uma grande inundação criando rios e córregos, e os primeiros humanos mortais foram criados de seu ventre. Yemoja é a líder das divindades do rio.


Ela é considerada uma guardiã das mulheres e detentora dos mistérios. Ela é a Mãe de tudo aquilo que é vivo, enquanto Osun luta e seduz para que as mulheres tenham o seu espaço.

Minha Iya disse de uma maneira um tanto quanto poética que foi Yemoja que  deu luz as estrelas, a lua, o sol e a maior parte dos Orisa.


Outros caminhos que nos levam a cultuar Yemoja é o guiar de si, em meio ao amor,  passando por dores como o divórcio, ou a manutenção do casamento e da família. Tive acesso ao aprendizado de algumas magias e medicinas com Yemoja que são feitas para pessoas que sobreviveram a estupros e abusos sexuais de todos os tipos, para que possam continuar as suas vidas, sem esta dor, culpa e tantos sentimentos que rondam mulheres/pessoas que foram violentadas. Traições familiares  onde  há ciúme e rancor também podem ser tratadas com essa poderosa Orisa..


Em seu aspecto negativo, quando está em IBI, Ela pode ser como a torrente do rio em uma tempestade - indiscriminadamente violenta e destrutiva. Mas a violência é interna também. No entanto, esse aspecto de força que ela possui é tão parte de seu caráter quanto seu papel de mãe.

 

Quando se transpira o negativo de Yemoja, o suor fede a rancor, a mágoa e a falta de sorrisos. A pele perde o viço, perde a alma e nos tornamos apenas carcaça. Vemos defeitos e apontamos defeitos o tempo todo nos outrs, reclamamos de tudo e nos distanciamos do que é sagrado e andamos atadas a dissabor de viver uma vida mesquinha e sem cor. 

 

Eu adoro observar e perceber como a maioria das cultuadoras de Yemoja e de Osun, estão quase sempre atraindo o negativo dessas Orisa para a sua vida. E quem sabe um dia eu conto para vocês quem mais aparece para cobrar energeticamente esse negativo gerado. Não apenas em uma vida, mas sim na vida de todos os descendentes.

 

Quando uma mulher destrói uma família, ela está atraindo o negativo de Yemoja, que muitas vezes pode vir em formato de doenças ligadas ao útero, infertilidade, problemas no sangue e aos hormônios. E não importa se isso foi feito há décadas atrás, a conta chega. Quando uma mulher e até mesmo um homem destroem a imagem de uma mulher com mentiras, fofocas, falsidade e traições de um modo geral, o negativo é gerado não apenas pelo Ori daquela pessoa, mas como também por Yemoja e Osun. Este é o departamento delas. Zelar pelas mulheres, que hora sangram e hora sangram novamente.  Quando uma mulher maltrata uma criança, ela gera este negativo de maneira duplicada.

 

Yemoja não poupa suas filhas e filhos dos erros e das punições. Portanto, não se engane. Ninguém está imune. O que as pessoas ainda não entenderam é que a colheita é sempre obrigatória. Yemoja, na hora de punir, pode ser fria como areia do rio. Isso não significa que ela não se importe, significa que ela sempre fará o certo.

 

Todos os Orisa nos ensinam sobre o valor do comportamento e do caráter, não estou romantizando novamente, vejo todos os dias em minhas consultas, pessoas colhendo suas sementes e acreditando estarem sendo injustiçadas. O mundo tem sua própria lei, não faça com o outro o que você não quer que façam com você ou com alguém que você ama.

 

Cabe a nós: Vigiar o nosso comportamento, reconhecer o erro, não cometê-lo novamente e se policiar para isso e continuar a nadar... continue a nadar... Yemoja é a mãe dos filhos peixes, porque os peixes são incontáveis e ela é mãe de  numerosos filhos, ela é mãe de todos nós, e neste mundo não existe amor maior do que o amor de uma MÃE. Aos que não tiveram isso, deitem-se no colo de Yemoja. Mas antes de se deitar, se cure. 

 

Ressignificar Òrìṣà na vida é ser livre, é voar pelos desafios que SEMPRE existirão, com a certeza de que SE QUISERMOS ser melhores, não estaremos sozinhos.

 

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Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

Ìyálòrìṣà IfáṢọlà Ẹgbẹ́kemi Ṣówùnmí

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