• Ìyá Ṣọlà

Quando se Morre Sem Permissão




Este texto teve a permissão para publicação da história de quem o vivenciou.


Esta não é uma publicação popular para likes e compartilhamentos, pois sempre que o assunto é a morte, as pessoas refutam e fogem. Mas eu sei que essa publicação pode ajudar pessoas, então vou prosseguir. Essa publicação não tem religião, ela tem vida, cura e ressignificação. Gostaria que o mundo pudesse ler, para a compreensão do perceber e do olhar dessa pandemia. Falarei sobre uma experiência durante o sono, e não apenas um sonho e sim uma vivência, uma mensagem do mundo espiritual que serviu como diálogo para muitas pessoas que tinham pensamentos suicidas, deixarei o texto ANÔNIMO, mas escreverei na terceira pessoa e por vezes na primeira. Peço para todos aqueles que forem tocados que passem esse texto adiante para amigos e amores desta vida.


Que o seu Orí possa compreender cada caracter, é o que desejo, mas antes gostaria de agradecer ao Miguel Galvão, ouvinte dessa história e que quando a contei há mais de um ano, ele me mostrou a importância de publicá-la.



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El@ não se sentia mais parte, nada fazia nenhum sentido, não havia propósito, apenas vazio. Não tinha apego a nada, nenhum propósito e queria ir, apenas ir. Para que não houvesse um sentimento de pena vindo daqueles que eram próximos; companheir@, filh@s e seus pais. Em seu silêncio tagarela resolveu forjar seu suicídio parecer uma morte acidental. Então estudou o motor do carro, para saber o que poderia ser feito para parecer um problema mecânico e el@ não ser vist@ como um(@) suicida. Não era fraqueza, era distância do seu corpo, era uma tristeza que dormia e acordava ao seu lado. Estava tudo pronto. Lançaria seu carro na direção do poste, de uma maneira e horário que não pudesse prejudicar mais ninguém além del@. Decidid@ e firme, só faltava a data, talvez em uma semana.


Foi dormir, de repente estava no carro e o mirou no poste, acelerou até 140km/h, enterrou seu pé no acelerador e pediu perdão. Todos os sonhos que temos, caso morramos, acordamos imediatamente em casos de morte, mas dessa vez não. Sua consciência/sua mente foi lançada a muitos metros do seu corpo, na hora do impacto e el@ não acordou. Olhou para o seu carro, destruído, o poste no chão, sua cabeça destruída pelo impacto, mas o corpo parecia um papel amassado, nem parecia que algum dia tinha pertencido a el@. El@ tinha se transformado apenas numa espécie de consciência e mente sem corpo. Sem frio ou calor, sem fome, sem sono, sem cansaço, sem sensações corporais, mas as sensações mentais, as emoções que tanto @ cansaram e não faziam nenhum sentido… essas não tinham ido embora e @ acompanharam mesmo na morte. QUE INFERNO!!! Justamente de tudo aquilo que fugiu, ainda estava com el@. Ainda era el@, ainda não tinha tido contato com nada espiritual, nem Deus, nem o Diabo ou outras consciências. Estava só, com uma diferença, o fato de não ter mais um corpo, mas ainda existia toda a dor , ela , a dor, tinha @ acompanhado na morte. Não era possível. Sim… era.


Seu eu energético, fluido como uma corrente, tinha olhos, não tinha boca, mas podia sentir sensações emocionais e racionais, luz e sombra, sentia ambientes, sentia ódio, sentia amor… Era a cabeça espiritual del@ que ainda estava alí, junto com toda a dor.


De repente, seu(ua) parceir@ chegava ao local do acidente e começa a gritar, balançando os braços de raiva e dizia: - Eu sei que não foi um acidente!!! Eu sei!!! Foi de propósito e eu nunca vou te perdoar por fazer isso. Se achou que eu iria chorar, vou chorar, mas não quero te ver nem depois de mort@. Frac@! Você tinha um futuro brilhante e só você não enxergava isso.


Por que eu ainda estou aqui? Por que estou aqui vendo isso? Eu me matei, eu morri! Eu não quero ver isso! Foi do sofrimento que eu fugi e por que ainda sinto tanta dor? Onde está o inferno? Onde está o céu? Onde está o breu ou o limbo? Era disso que eu FUGIA, mas eu ainda estou aqui. Seu(ua) parceir@ urrava de raiva e ódio, com um ar de alguém que está prestes a loucura de encarar a realidade que lhe mirava, que lhe olhava sem nenhuma compaixão. E el@ era @ responsável por aquilo. A culpa lhe consumiu, lhe comeu como um verme vivo que chupava as suas tripas enquanto ainda vivia… ou melhor, mort@ ainda sentia. Não havia absolutamente ninguém alí para lhe dar as boas-vindas a vida de mort@. Nada de Oxalá, Jesus, Buda ou São Pedro. O mundo ainda era o mesmo, mas as cores eram menos vivas, parecendo sempre que havia um nevoeiro entre tudo, uma bruma, um tom de cinza em cima de todas as cores. De repente el@ estava em uma cidade que nunca tinha visto na vida. Uma cidade que não sabia sequer onde ficava, em que lugar do planeta era. Não havia questões de idioma, era possível compreender o que se dizia e com todos os detalhes. Mas aquela cidade era desconhecida, assim como as pessoas. Vagava por toda a cidade e não se cansava, mas a dor, a aflição que @ fez desistir, essa @ perseguia o tempo todo, o verme da culpa, continuava a lhe consumir. Como estavam os meus pais? Como estavam @s filh@s? Por que esse vazio continua aqui? Eu quero me livrar dele e ele me perseguiu até depois da morte.


Assim como os vampiros de ficção, não sentia fome, não sentia sono, não sentia frio nem calor. Subia nos telhados das casas para ver a paisagem que era meio cinza, e nas copas das árvores para se balançar, mas não havia nenhuma sensação no estômago e nenhuma brisa suave no rosto. Não sentia nada, absolutamente nada além de toda a dor que a tinha feito justamente fracassar e desistir. Aquilo era pior do que o inferno cristão. Ninguém podia vê-l@. A solidão que achava que sentia em vida havia ganhado um peso de algumas toneladas a mais.


Cada dia era infinito, não acabava nunca. Então eu seguia pessoas para ver o que elas estavam fazendo ou iam fazer. Algumas pessoas parece que sentiam a minha presença, passavam a mão na nuca como se fosse calor, ou olhavam de uma vez para onde eu estava com um certo olhar de nojo ou incômodo. Eu não era bem-vind@ ali, e ia embora. Eu via o sol nascer, mas não era tão bonito quanto em vida e a lua sequer tinha algum brilho especial.


El@ queria sair dali, mas tinha perdido algo vital, seu livre arbítrio, não decidia mais nada, a última decisão foi tirar a sua vida, mas a sua cabeça/Orí/Alma/Espírito apenas tinha se separado do corpo e todas as sensações ainda estavam lá e el@ não podia se matar, porque já estava mort@. O que podia ser feito? NADA. Em algum momento daquela eternidade, foi jogad@ como num passe de mágica para um quarto, que não era o que el@ havia morado. Neste quarto estavam, seu(ua) cônjuge e seus filhos. A filha mais nova, que na época do suicídio tinha 2 anos, não lembrava mais del@, devia ter passado aproximadamente uns 5 anos, era uma criança introspectiva, visivelmente instável, com um olhar perdido e sem muitas esperanças. O filho mais velho que tinha aproximadamente 12 anos, estava envolvido com drogas, não queria mais ir para escola, estava com depressão e fazia alguns furtos como uma maneira de desafiar a vida e encontrar a morte também, já tinha alguns pensamentos suicidas também. @ espos@ ainda @ culpava e não tinha sequer saudades, apenas ódio e raiva. Na verdade já tinha até se casado novamente, mas levava a ferida aberta ainda para os seus dias e todas as consequências daquela atitude estúpida.


El@ vendo tudo aquilo e a vida andando a fizeram explodir de dor e arrependimento, mas el@ não chorava e não podia transbordar. Tinha conhecido algo muito mais doloroso e violento.


Por instantes, num outro local viu seu pai como se absolutamente nada tivesse acontecido. Foi indiferente ao menos aparentemente, pois não lia corações e nem ouvia pensamentos profundos. Sua mãe havia desenvolvido ódio pela vida, apenas esperava a sua hora de ir embora, se entregou à deriva e apenas sobrevivia, não mais vivia. Todos, menos @ espos@, achavam que havia sido um acidente. Os amigos, a grande maioria já tinham se acostumado com a sua ausência e lembravam apenas em datas específicas.


Jogada novamente para aquela cidade desconhecida, perambulando entre telhados e copas de árvores, ninguém chegou para dizer, mas ela simplesmente tomou conhecimento, como se fosse uma mensagem que chegasse diretamente no cérebro, algo que não temos no nosso dicionário, algo maior que uma epifania. Uma mensagem do Criador direto no inbox da sua mente, a primeira desde que tudo aconteceu, e que dizia o seguinte:



"Você podia decidir sobre quase tudo em sua vida, a única coisa que não te pertencia era o momento de nascer e de morrer. Essas são as leis do Universo. Todas as suas ações geravam consequências que, por pior que fossem, você ainda poderia reverter e corrigir. Agora não. Você perdeu esse direito. Se o Universo determinou que você precisa de 80 anos de vida aqui na terra, você ficará aqui os 80 anos. No dia que realmente foi determinado para a sua morte, você irá embora de onde está. Será enviad@ novamente para um novo corpo, uma nova vida e terá todos os desafios novamente dos quais você desistiu e fugiu, com o ônus e as consequências de toda dor que você causou ao tirar a sua própria vida. Tirar a própria vida NUNCA FOI UMA OPÇÃO."



Durante toda aquela eternidade sem relógio e sem tempo, eu vaguei. Vaguei de mãos dadas a toda a dor que fugi, elas nunca me largaram, nenhuma das agonias. É inexplicável, eu sei, mas até as contas atrasadas me perseguiam ou o sentimento que elas geraram em mim, assim como qualquer outro que você tente fugir: solidão, vazio, medo, dívidas, amor não correspondido, a impotência diante de qualquer doença, a impotência diante da vida, quando nada dá certo… Não importa qual é o seu problema, você não vai poder fugir dele.


A VIDA é uma ORDEM, sempre foi, e NUNCA será uma escolha. Você precisa passar por ela. Você só tem uma única opção que é enfrentar os desafios deste grande mercado, e se não facear, frente a frente agora irá confrontar depois, até conseguir e superar-se como SER.


Após toda essa eternidade vivida como um inferno pessoal por el@, um belo dia estava em um telhado, sendo observad@ por um pequeno pássaro, - todos os animais podiam lhe ver e @ viam como uma ameaça ou um objeto fora do lugar - foi jogad@ para uma espécie de túnel, como daqueles video clipes dos anos 80, cheio de luzes e sua cabeça saiu através de uma vagina de uma mulher cujo rosto não lhe era estranho, mas suas lembranças foram se apagando e as cores voltando a serem fortes novamente… el@ tinha olhos e um corpo novamente, iam-se suas memórias dançando para longe.


[Gritos agudos]


SOCORRROOOOOOO!!!!! SOCORRROOOOOOO!!!!!

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!


Levou um soco forte no meio do peito e acordou dizendo:

Eu não quero viver isso, eu nunca mais vou pensar em tirar a minha própria vida, prefiro enfrentar!!! Serei forte eu prometo.

Acordou seu(ua) espos@ e contou sobre a experiência, el@ sentia um cheiro diferente em seu corpo, um cansaço extremo.., contou sobre tudo o que vivenciou, e el@ disse: Esta seria exatamente a minha reação. El@ chorou por horas. O dia já amanhecia e continuava chorando, não de tristeza, mas um sentimento que não existe no dicionário, uma mistura de medo, gratidão, alívio e a certeza de que tinha recebido o maior presente da sua vida.


Se você acredita que este texto pode fazer a diferença na vida das pessoas do seu meio: compartilhe! Se você acredita que ele pode fazer a diferença para alguém em específico: encaminhe para essa pessoa!


Um coração agradecido é sempre maior.


Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

Ìyá Ṣọlà Ẹgbẹ́kẹ́mi >>>Sugestão de texto do site Orisa Brasil que fala sobre Akuudaya. https://orisabrasil.com.br/Loja/akudaaya-o-morto-vivo-na-crenca-yoruba/





























Imagem: onigirigeek.tumblr.com