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  • Ìyá Ṣọlà

Você tem Odù de Sacerdote?




Este texto retrata especificamente sobre o ofício do Sacerdócio dentro do Esin Orisa Ibile, para comunidades que consultam, iniciam e fazem rituais para Ifá/Orunmilá. Não estou aqui falando de Candomblé, Umbanda ou Cultos Tradicionais Familiares do Isese Lagba. Cientes disso, vamos lá.


Primeiro eu vou te dar uma informação que possivelmente vai mexer com muitas das suas crenças e convicções. Todos os recortes abaixo foram retirados do material sobre os 256 odù Ifá do Chief Ṣọlágbadé Pópóọlá. E afinal quem é Ṣọlágbadé Pópóọlá?

O Chief Solagbade Popoola é um dos principais Babalawo nigerianos. Ele tem mais de trinta e cinco anos de conhecimento e prática como adivinho e conselheiro espiritual, intérprete das estrofes de Odu e professor de medicina, filosofia e ética no Ifa. Além de sua ordenação como sacerdote Ifa, o Chefe Popoola possui mestrados em sociologia e antropologia pela Universidade de Ile Ife, em Ile Ife, Nigéria, além de um diploma em administração moderna pela Universidade Ahmadu Bello, em Zaria, Nigéria. Também é fundador ou co-fundador de várias organizações, incluindo Ifaworks e o Conselho Internacional para a Religião Ifa e autor de mais de uma dezena de livros. Dos 256 Odù de Ifá, segundo a publicação do Chief Ṣọlágbadé Pópóọlá, encontrei uns 20 versos, no material que possuo, que não tem esse campo de Possíveis Profissões, TODOS OS DEMAIS possuem a indicação de profissão que mostrarei logo abaixo:


Odú Ifá - Oyeku Okanran:



Odù Ifá - Ose Oyeku:








Odù Ifá - Otura Odi:


Odù Ifá - Osa Oturupon



Odù Ifá - Osa Ofun:


Odù Ifá - Okaran Iwori:


Odù Ifá - Ogunda Owonrin




Odù Ifá - Irete Iwori


Odú Ifá - Irosun Otura



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Isso significa que todos nasceram para ser Sacerdotes? NÃO. O Sacerdócio não está definido no odù. Se fosse assim teríamos uma tribo apenas de pajés e caciques.


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Então agora podemos começar. Este é mais um texto de reflexão, diante da MINHA experiência empírica e teórica. Sendo assim, você tem o total direito de discordar ou concordar e está TUDO BEM, mas lhe chamo mais uma vez para ser sincero com você mesmo e não tentar enganar-se.


Vou construir uma linha de raciocínio, portanto o texto será extenso para que não hajam gaps quanto ao meu silogismo, a forma de escrita será diferente do que estão acostumados.


1º - O QUE É UM SACERDOTE?

Vamos a etimologia da palavra e uma breve explicacão usando um recorte da Wikepedia. Sacerdote (do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante, portando "representante do sagrado") é uma autoridade ou ministro religioso, habilitado para dirigir ou participar em rituais sagrados de uma religião em particular. Em muitas religiões, o ofício de sacerdote é um trabalho de tempo integral.


2º - O QUE OS SERES HUMANOS BUSCAM NAS RELIGIÕES ?


Respostas para as suas angústias e problemas, buscam apoio, paz interior para conseguir ter uma vida em equilíbrio e diante desse cenário acaba sendo uma necessidade humana. Portanto um sacerdote precisa ter isso para oferecer ao outro.



3º - SÓ PODEMOS DAR, AQUILO QUE TEMOS. NINGUÉM NASCE PRONTO.


Um Sacerdote é um orientador espiritual com base em uma base filosófica. A nossa base filosófica chama-se IWA RERE, o bom caráter. No Esin Orisa Ibile, cremos que uma pessoa que tenha um bom caráter sempre terá as bênçãos de Eledumare, Orisas, Divindades e da Ancestralidade, conseguindo assim o que para os Yorúbà é o conceito de prosperidade:

- Vida Longa com saúde (não adianta ter vida longa internado num hospital)

- Saúde

- Honra

- Um bom cônjuge

- Bons filhos

- Alegria

- Progresso

- Sabedoria

- Trabalho

- Dinheiro

- Alaafia – Paz interior, bem-estar.


Desses conceitos de prosperidade, desdobram-se a necessidades de um lar, roupas e etc.


Com certeza este é um ideal de vida não apenas para os Yorúbà, mas para muitos de nós. Como diz meu marido a vida é um cobertor curto, muitas vezes temos que escolher entre cobrir o peito e cabeça ou as pernas. Mas há quesitos em um Sacerdote que são indispensáveis:

- Caráter

- Paz interior

- Equilíbrio

- Conhecimento

- Sabedoria em lidar com conflitos


Uma pessoa que não possui um dos cinco itens acima, não está habilitada a orientar ninguém na espiritualidade, até o momento que se adquire todas essas habilidades e predicados.

Então, afinal o que faz com que algumas pessoas durante os processos iniciáticos recebam a indicação de Sacerdócio?


É agora que você precisa de fato prestar atenção.

Há muitos anos ouvi uma conversa entre duas pessoas Kardecistas que se aplicam indiretamente a este novo sentido que você precisa ao menos dar atenção sobre o aspecto do ofício OBRIGATÓRIO do sacerdócio.


Um homem, sentado ao meu lado em um café, que pelas vestimentas e seriedade aparentava ter algum posto importante num centro Kardec aqui de Brasília observa o outro que se gabava sobre seus dons mediúnicos como se fosse alguém escolhido por Deus para uma grande missão espiritual, um chamado desde o seu nascimento.


Eu estava sentada ao lado bem próximo deles, e não consegui deixar de olhar a expressão do possível sacerdote. Ele todo de branco, já grisalho, olhava fixamente para o rosto do homem que tagarelava sobre si e seus super-poderes e premunições, assim como a capacidade de curar as pessoas com um abraço. Quando o homem finalmente percebeu o quão era exaustivo aquele momento Narciso e se calou, o outro homem, bebeu um gole do café, respirou fundo e disse algo mais menos assim:

- Quanto mais dons você tiver, significa que mais tem a resgatar e aprender. Indica um passado em outras vidas de mãos dadas ao pecado, a perseguição contínua de muitos obsessores e que você precisa muito de Deus. Talvez algum dia, quando estiver pronto, passando por todas as nossas classes de ensino, conhecendo bem o Evangelho de Alan Kardec, você venha desempenhar uma liderança espiritual, mas não será porque você tem dons, e sim porque você precisa para esta vida por sua necessidade, não porque você é um escolhido.


O outro homem murchou.

O Odù Ejiogbe fala sobre Orí, da necessidade de cultuar, tratar, alimentar Orí para que se tenha um bom destino. Trata-se de um dos 16 Olodu (os principais), Ejiogbe também é chamado de Bàbá Odù (O pai de todos os Odù). Este é um odù cobiçado pelos macumbeiros, até mesmo em consultas, pois indica o caminho de Sacerdócio, pois ele trás uma estreita ligação com a espiritualidade e muitas bençãos. Ejiogbe diz que as coisas na vida daquela pessoa só prosperam se ela viver a espiritualidade em sua rotina. Na contramão desse Odù esta a morte, mesmo que a morte em vida, está a loucura e a doença. Essa pessoa precisa aprender sobre de fato quem ela é, das qualidades aos defeitos, com o auxílio do seu Orí. O sacerdócio é indicado como uma forma de viver, pois essa pessoa precisa da espiritualidade.


Todos os Odù meji, ou seja, os Olodu, tem uma "carga" energética positiva e negativa duplicada, isso significa que os desafios são muitos mais densos. De fato a pessoa se quiser pode gabar-se: Eu sou um lascado e os meus desafios são enormes. Mas como o brasileiro se comporta? Parecido com o rapaz Kardec do exemplo que acabei de citar. - Sou iniciado em Ifá e meu Odù é sei lá o que meji, um dos principais Odù, eu nasci para ser sacerdote.


Cada um se envaidece com o que pode não é mesmo?


Um outro bom exemplo é o Odù Irosun meji. Dentre os versos que conheço deste Odù, 70% dos versos falam sobre ataques de Ajogun, ou seja, a doença, as perdas, a morte prematura, a miséria, os acidentes e por aí vai. Como essa pessoa se protege dos Ajogun? Vivendo em sua rotina diária a adoração aos Orisa e as divindades ligadas ao ikorita (encruzilhada). A prática diária é uma forma de garantir a sobrevivência. O sacerdócio faz com que a pessoa tenha o contato com a espiritualidade diariamente livrando-se dos Ajogun.


Mas essas questões mais tensas e da necessidade só estão ligadas aos Olodù?


Não. Existem diversos Omodù (Os filhos dos Odu Meji, os outros 240) que também falam sobre problemas com uma complexidade gigante e muitos desafios e daí a NECESSIDADE de apaziguar o negativo através do culto contínuo. Alguns outros falam sobre a necessidade de uma pessoa aprender muito sobre caráter, tolerância, paciência, generosidade, polidez, ter sabedoria. e isso se dá através dos conhecimentos de Ifá. Alguns outros falam sobre apaziguar MUITO as energias ancestrais biológicas e espirituais, Egungun e Egbe Orun.


Mais exemplos:

- Ogunda Owonrin - Precisa tanto de Ifá, Ogun e Egbe em sua vida para ter prosperidade (dentro do conceito Yorúbà), que quando nascido entre os Yorúbà é indicado morar na casa do Babalawo, se iniciado ainda criança, para JUSTAMENTE poder viver Ifá, tornando-se Babalawo e no caso de mulheres Iyanifa.


- Obara Irete - Precisa muito de Ifá e de fazer Ipese para afastar os Ajogun, como precisa trabalhar o caráter, o bom coração e a generosidade e não fazer-se de vítima na vida. O caminho de Babalawo ou Iyanifa, também pode ser indicado para essa pessoa, justamente para que ela aprenda com a filosofia de vida de Ifá.


O que quero exemplificar aqui é que a necessidade de sacerdócio, não faz NINGUÉM ser especial, a não ser que ter necessidades espirituais muito fora da curva, de alguém que terá mais batalhas do que os outros, antes mesmo dessa pessoa vencer ou superar, façam dela alguém especial.


O nosso maior problema dentro do nosso meio, e o que pode fazer com que a nossa religião simplesmente acabe são a VAIDADE, O EGO e a incompetência e inabilidade de conseguir se AUTO AVALIAR e perceber quem de fato você é e o que busca com a espiritualidade. SACERDÓCIO se servido por pessoas com propósitos honrados, não tem STATUS, mas há quem comece sem vaidade e a encontre no meio do caminho.


Por que há pessoas que precisam tanto do sacerdócio ou de um Oye(título/cargo)? - Ele(a) está na religião para conseguir se sentir importante, por alguma frustração da sua vida social e profissional? - Ele(a) possui algum histórico de rejeição em que precisa sentir bem quisto e necessário? - Ele(a) na verdade é alguém que camufla a sua vaidade na figura do SER sacerdote para alimentar essa vaidade de sentir-se importante?


- Ele(a) é alguém que sofreu tanto na vida que o meio que encontrou de trazer significado para ela foi ajudando as outras pessoas através da religião?


- Ele(a)é na verdade um(a) mercenário, sem caráter que engambela todo mundo e acredita que o sacerdócio é uma maneira de ganhar dinheiro fácil nas costas de pessoas que possuem fé? - Ele(a) é uma pessoa que não encontrou razões para viver e acha que tem uma missão espiritual de curar pessoas?


- Ele(a) é alguém que de fato se completa no sagrado e na espiritualidade e só consegue se sentir feliz ao dedicar a sua vida aos Orisa e ao Ori das pessoas? O que ainda é por um motivo pessoal.

- Ele(a) é alguém que sua vida só anda para frente se viver a espiritualidade no dia a dia, e acabou nessa quase que por obrigação? Não precisa dizer para ninguém, apenas seja sincero se hoje você exerce o sacerdócio ou crê que você precisa ser. É bom também lembrar que se a sua vida sacerdotal é um fiasco e você vive na lama e sem NADA de prosperidade (dentro do conceito Yorúba), o que é muito comum pela falta de conhecimento devido a necessidade do auto cuidado) lembre-se que você pode repensar os motivos que te trouxeram até aqui, pois a verdade é que a pressa e a vaidade pode ter te levado para um caminho que você AINDA pode não estar preparado para trilhar.



Ìyá, eu não sou sacerdote ou sacerdotisa, mas sou iniciado em Ifá/Orisa e hoje não confio em ninguém, o que eu preciso saber e fazer?


Juro que te entendo!


O Esin Orisa Ibile já é hoje uma piada de mal gosto no Brasil, dezenas de pseudosbabalawos e sacerdotes(isas) se formaram, fazem rituais e iniciações sem o mínimo de conhecimento na prática. O conhecimento deles dar-se através de apostilas e livros e até mesmo com a chancela de nigerianos que só visam o dinheiro e não estão nenhum pouco preocupados se a sua vida está boa ou não. Para um Yoruba, você sempre será sempre um estrangeiro, e o compromisso dele conosco não é o mesmo que eles tem com seus patriotas. Portanto, o primeiro passo é saber se de fato o que você fez seja um Itefá, Isefá ou outra iniciação de fato é válida diante dos valores litúrgicos e de Àse.


0. Você precisa ter o(s) seu(s) igba com você; 1. Você precisa saber dar Ose em seus assentamentos;

2. Precisa conhecer o calendário do kojoda, feito de 4 em 4 dias;

3. Você precisa saber consultar Obi, e saber inclusive quando o Orisa está dizendo que você deve buscar uma orientação de um sacerdote(isa), por ser uma questão mais complexa, para que ela(e) possa estar te orientando;

4. Você precisa ter noções MÍNIMAS, de fazer uma Ijuba, um Oriki, de saudar Ile, e de abrir um assentamento; 5. Você precisa saber quais são as oferendas/comidas que agradam o teu Orisa;

6. Você precisa conhecer quais folhas você pode usar para fazer uma limpeza do seu Igba de Orisa;

7. Você precisa ter um sacerdote que possa estar lhe auxiliando, mesmo que esporadicamente, quanto a ebós e etc, pois não é possível fazer um auto-ebó;


O intuito deste texto é bem claro: Para que você possa ser um sacerdote, você precisa ser aluno. Se em algum momento da sua vida alguém lhe disse que você tem caminho de sacerdote, não é porque você é um fenômeno ou o escolhidos dos Orisa, e sim por SUA necessidade e isso não te faz melhor do que ninguém. Se você recebeu essa missão de ser Sacerdote e simplesmente, sem estudo e sem conhecimento você abriu a sua casa, crendo que o ensinamento vem com o tempo, lamento lhe dizer, você foi vítima do seu próprio EGO. Orisa é responsabilidade, por que é a VIDA de pessoas, e com a vida de pessoas, meu caro/minha cara, não se brinca.


Que Yemoja e Osun possam sempre me proteger. Ressignificar Òrìṣà na vida é ser livre, é voar pelos desafios que SEMPRE existirão, com a certeza de que SE QUISERMOS ser melhores, não estaremos sozinhos.


Se você acredita que este texto pode fazer a diferença na vida das pessoas do seu meio: compartilhe! Se você acredita que ele pode fazer a diferença para alguém em específico: encaminhe para essa pessoa!


Um coração agradecido é sempre maior.


Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

Ìyá Ṣọlà Ẹgbẹ́kẹ́mi


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Imagem desta publicação: afropunk.com

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