• Ìyá Ṣọlà

O fracasso na vida afetiva de quem tem um marido espiritual




Eu tinha 08 anos quando aconteceu pela primeira vez. Sempre com a sensação de estar sendo vigiada e ouvindo dos adultos: Isso é coisa da sua imaginação!!! Difícil ser levada a sério quando se é criança. Até que uma certa noite fui me deitar e o ar pareceu mais pesado, ou atmosfera… sei lá como se chama. Parecia que o véu que une os mundos tinha se rompido e que o tempo tinha parado. Eu tinha a certeza de que havia alguém no quarto. Meu quarto estava escuro, iluminado apenas pelas pequenas brechas de luz da janela que vinham do lado de fora. Eu cobri meu corpo inteiro com o lençol e fechei os olhos com medo. Na época eu dividia o quarto com a minha tia avó e ela já estava dormindo, com seu rádio ligado naquelas rádios que passavam apenas músicas românticas a noite inteira. De repente: Pressão no meu colchão. Alguém estava sentando bem na beirinha da minha cama. O pavor tomou conta de mim. Senti uma mão na minha perna me apertar e me machucar… Tive tanto medo, que ao gritar nenhum som saia da minha boca… (continua) Até pouco tempo atrás, a grande massa dos cultuadores de Òrìsà no Brasil, não sabia da existência de Egbe Orun dentro da crença dos Yorùbá. Então pouco a pouco descobrimos que muitos de nós, na verdade, precisava fazer as pazes com o seu próprio Egbe, antes até mesmo de nos iniciarmos em Òrìsà. A ignorância sobre Egbe Orun trouxe a várias casas de Àse a ausência de respostas para muitos de nós, os Elegbe. E o conhecimento trouxe o alívio para Orí que nunca conseguiam desabrochar. O que era motivo de lágrimas, tornou-se a alegria de festejar a nossa própria família espiritual. Possivelmente você já ouviu falar que havia uma regra no Candomblé que dizia: "Não se raspa um abiku", e no entanto sequer sabíamos o que de fato era um Abiku. Talvez você conheça a dolorosa história de alguém que tenha se iniciado para Òrìsà e que tenha voltado para Orun durante a iniciação ou logo após. Mas por que? Hoje sabemos que essa pessoa tinha a grande possibilidade de ter um pacto com o seu Egbe Orun.


Egbe Orun ainda é um mistério para nós, a verdade é essa. E enquanto muitos nadam de braçada em busca de compreensão e conhecimento em Terra Yorùbá, há muitos que surfam na onda (brasileiros e yorùbá) e enganam pessoas que estão em busca da salvação de seus problemas.


Infelizmente o brasileiro é modista. Modista no sentido de buscar novidades no mundo espiritual para se envaidecer, ou se gabar da sua vida espiritual. Nos últimos anos passamos por muitas modas e eis que chega o momento de Oko (marido) e Aya (esposa) espirituais, que estão ligadas a Egbe Orun.


Hoje trago o relato real de uma mulher, cujo nome não posso identificar, da história dela com Oko Orun e a saga para resolver o problema dela. Caso você se identifique com a história narrada, cuidado para não confundir os botões e procure o seu sacerdote da Religião Tradicional Yoruba que possua conhecimento sobre o assunto. Ofereça solução para os seus problemas e para o seu Orí, seja responsável com a SUA espiritualidade e não se agarre na primeira mão estendida, ela pode na verdade também estar procurando alguém para se salvar.



… Tive tanto medo, que ao gritar nenhum som saia da minha boca. Tentei pela segunda vez e quanto mais força eu fazia para gritar, mais os apertos machucavam a minha perna e nenhum som era produzido por mim. O medo tomou conta de mim, a ponto de me paralisar completamente. Eu tinha apenas 8 anos. A mão chegou bem perto de estar no meio das minhas coxas e de repente… parou. Eu me tremia e as lágrimas pulavam dos meus olhos. Senti o peso sair da minha cama. E de repente eu consegui gritar:


- Titiaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!! ( o som saiu fazendo um barulho estranho, como o de quem estava engasgado)

- O que foi menina? Quer me matar de susto?

- Tinha uma pessoa na minha cama me machucando.

- Lá vem você e as suas maluquices para querer chamar atenção. Vá dormir!!


Só me restou chorar. Eu sempre serei a filha de pais separados que é carente e louca.


Daquele dia em diante, comecei a dormir de luz acessa, bem a contra gosto da minha tia, a convenci na insistência quando arranjei um tapa olho para ela dormir.


Durante muito tempo, dormir me dava medo. O tempo passou e apagou da minha mente parte da sensação, e voltei a dormir com a luz apagada. Será que a minha mente inventou isso? Comecei a duvidar da minha própria sanidade.


Aos 9 anos passei a ter sonhos sexuais com um homem de uns 50 anos de idade sem rosto. Contei para a minha tia e ela me proibiu de assistir as novelas da Globo. Sonhei mais algumas vezes e um dia parou. O tempo passou. Me esqueci de muitos momentos da minha infância.


Cheguei até a vida adulta, sempre procurando respostas para os meus devaneios espirituais e o que muitos sempre chamavam de "querer aparecer". Conheci Egbe Orun. E em uma das minhas primeiras conversas com um sacerdote ele me perguntou: _ Você tem sonhos de cunho sexual?

Eu disse que não. Ele me perguntou se eu era casada e se tinha filhos? Respondi que sim, mas não entendi muito bem as perguntas. Então ele bem sem graça me perguntou: _ Como é a sua vida sexual com o seu marido?

_ Em que sentido?

_ Vocês conseguem ter relação sexual?

Bem sem graça eu respondi: _ Tenho desejo pelo meu marido. Nos provocamos mutuamente, combinamos noites íntimas, mas sempre que chega na hora de colocar em prática, sinto que o corpo dele me repele, o cheiro dele me irrita e eu tenho repulsa de quando ele me toca. Então ele me disse: - Pode ser que você tenha um marido espiritual. - Hã? Que loucura é essa agora? O que é isso?


Não deixei ele terminar. Achei a coisa mais absurda que eu já tinha escutado. Era muita esquisitice para a mesma pessoa. Alguns bons anos se passaram.


Um dos motivos que o meu casamento foi abalado, foi justamente o fato do meu ex-marido acreditar que eu não tinha nenhum desejo por ele.

Meus sonhos "premonitórios" sempre trazem água, muita água. E sempre que eu sonho com inundações, tsunamis com águas limpas ou sujas, enormes buracos no meio do oceano em espiral sugando tudo para dentro, a chuva carregando e invadindo… Senta e espera. A mudança vem chegando, levando e lavando tudo o que está pela frente. Me mudando de cenário, me tirando de cena e me jogando em uma nova realidade que eu preciso me adaptar. Meus sonhos começaram. Eu me separei. Numa consulta com uma sacerdotisa, ouvi novamente a mesma pergunta sobre a vida sexual nos sonhos e mais uma vez neguei. Afinal, aconteceu quando eu era criança. Então com paciência ela me perguntou se eu planejava noites sexuais com o meu ex-marido que falharam. Levei um susto. E me lembrei que na verdade isso não tinha acontecido apenas com o meu ex, mas como também com antigos namorados. Imediatamente me lembrei do espírito tarado da infância, assim como o sonho com aqueles homens mais velhos e sem rosto. Olhei para ela com desespero e recebi um olhar fraterno, que mais parecia um abraço. Ela pegou na minha mão e disse: Vai dar tudo certo!


Fui embora. Eu realmente precisava de um tempo. Minha cabeça procurava fazer novas conexões para compreender que o mundo espiritual era ainda mais complexo do que eu imaginava. Procurei no Google sobre maridos e esposas espirituais em outras religiões e crenças. Nada em português, mas encontrei em outras línguas, principalmente em inglês.





Não era possível!!!

Eu jurei amor eterno à alguém que hoje sabota a minha vida? Que droga de amor maluco é esse? Que não quer que eu seja feliz, para que eu volte correndo (através da morte em aye) para os braços dele? E esse pacto é tão forte?

Sinceramente eu preciso de um bom porre! Não sei quantas vezes você negou algo para si. Mas eu faço isso com bastante frequência. Me sentia sendo obsediada por um espírito sem limites.


Nada pode piorar certo? Errado. Daquele dia em diante, ao de fato ter total consciência do tal marido, ele resolveu se fazer presente novamente. Eu estava em um novo relacionamento. Feliz e muito apaixonada. Eu tinha encontrado minha alma gêmea e o relacionamento que a vida inteira eu sonhei em ter. Comigo acordada, no meio da cama, senti a presença de alguém, mas não tive coragem de me virar. Viajei no tempo e voltei até o meus 8 anos, a cama afundou ao meu lado bem nas minhas costas. Dessa vez foi sutil. Eu fiquei desconfiada. A noite chegou. Fomos deitar juntos e cada vez que ele me encostava, meu corpo repelia o dele com espasmos que não me deixavam dormir. Isso causou uma briga e eu fui dormir no sofá. Os espasmos sumiram e dormi a noite toda. Ainda na mesma semana, também à noite, os móveis que nunca estalavam, mais barulhos estranhos começaram a acontecer. Tivemos mais brigas.


Eu estava sendo obrigada a acreditar no que parecia loucura. Fiz mais uma consulta e novamente o mesmo "diagnóstico". Com algumas observações a mais: "Quanto mais a sua vida na terra não fizer sentido, quanto menos amigos você tiver, só dele você será e não estará ligada emocionalmente a esse mundo. - Mas por que???? - Porque você jurou, você prometeu, você deu sua palavra e os Orisa não interferem nas suas escolhas. - Mas eu nem me lembro! - Não interessa! Você é um ser espiritual, passando por uma experiência humana, mas o seu Orí ainda é o mesmo. Somos sempre causa e consequência independentemente do tempo em que isso ocorreu. - Disse a sacerdotisa.

Daí em diante sonhei com um homem mais velho, que na hora que eu ia me deitar, eu o encontrava na minha cama.


Até que em uma noite de madrugada eu acordei com a sensação de que estava sendo ameaçada. Minha cabeça e o meu corpo se arrepiou por inteiro. Me deu um acesso de fúria e raiva! - Chega! Chega! Sai daqui eu não quero mais nada com você, me deixe em paz, me deixa ser feliz e viver a minha própria história. Não eu não quero droga nenhuma com você! Se eu disser que ele respondeu eu estaria mentindo, mas senti como se ele risse de mim.


A minha filha chegou no meu quarto de pressa e se arrepiou por inteira! - Mãe, tem alguém aqui!!!!!!!

Ela correu pra onde eu estava, e ficamos em cima da cama, esperando e rezando para que aquela presença tão ameaçadora fosse embora. Uma hora e meia depois, nos restava apenas o machucado que o medo deixa no corpo e na lembrança.

Setembro de 2022.

Resolvi fazer a separação espiritual que na família da Ìyá Ifásolà Egbekemi se chama Eru oko Orun.


Pedi para a Ìyá colocar nas palavras dela toda a minha angústia para que eu pudesse compartilhar com mais homens e mulheres que possuem a mesma experiência, ou algo parecido. Em breve volto com o relato de como ficou a minha vida após a separação do marido espiritual. Torçam por mim! —----------X —----------- Não brinquem com Egbe Orun, eles não têm apego ao que chamamos de vida, para eles a vida é só a página de uma longa história. Sejam responsáveis com a vida de vocês, para nós ela é tudo o que temos. Ìyá Ifásolà Egbekemi Para informações e consultas, contato pelo Whatsapp 13 99687 1985. Confira também o perfil do Instagram do Meu Coração Africano @meucoracaoafricano




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