• Fê Aguiar - Ifásolá

Obalúwayé e as doenças deste século


Quem já esteve diante de Obalúwayé, sabe que a energia deste Orixá é única, densa e inconfundível. Ainda na casa de Candomblé que pertenci, durante a saída de uma iyawo, aos olhos de todos presentes, o Rei que é Senhor da Terra (significado do nome Obalúwayé) não permitiu que houvesse luz durante o seu run. Quando ele entrou no salão a luz do barracão acabou. Achávamos que tinha sido apenas um problema nas lâmpadas e logo um filho da casa correu para buscar um lampião a gás, mas o lampião não funcionava dentro do salão, apenas fora dele. Demoramos, mas entendemos o recado. E assim, apenas na penumbra e entre sombras, Obaluaiê dançou para nós de uma forma divina. Quando ele foi recolhido para o roncó a luz voltou. Foi incrível, inesquecível e inacreditável, do tipo de história que se conta para os netos.

No primeiro Festival de Obaluaiê que eu fui, já dentro do Culto Tradicional Iorubá, que aliás é um Festival para Exú e Obaluaiê, em que Exú veste vermelho com preto e o Rei da Terra veste preto com vermelho, fiquei ansiosa esperando a chegada do Orixá das palhas, mas para a minha surpresa ele não as vestia. Não quis comentar com ninguém, preferi desta vez esperar que a resposta viesse, por que ela sempre vem. Até que um dia me ensinaram que há muitas diferenças entre o culto de Obaluaiê na África e no Brasil. Para os Iorubás, Obaluaiê não veste palha, o único orixá que veste palha e que também está ligado a cura, a magia e a transformação, chama-se Akogun (no final do texto vou colocar um link para a imagem de Akogun em um Festival na minha casa matriz). Uma outra questão bem delicada de se tratar é a questão do epíteto Omolu não pertencer a Obalúwayé , esse nome é dado a outro orixá que está bem próximo a ele, mas que prefiro não entrar nesta questão agora.

Dentro do culto ele também é chamado de Olúwa Aiyé, Deus da Terra, e Ilè-gbóná, Terra quente e também está ligado ao Sol. Há algumas similaridades com o culto afro brasileiro, como o de ser o Deus da varíola, da Terra e da Cura de Doenças, mas aqui, no Ìsésé Làgbá, encontrei atributos deste Orixá, que jamais imaginei.

Vivemos, eu, você e o mundo, uma grande fase de transformação. Uma mudança tão recente, que ainda não aprendemos a nos adaptar à ela.

Há centenas de anos, vivíamos em comunidade e havia um grande senso de coletividade entre nós, senso esse que ainda é preservado entre os Iorubás.

Se estudarmos um pouco a história da humanidade, vamos perceber que não existiam pequenos núcleos familiares, existiam tribos, povos inteiros que constituíam uma grande família. Passamos então a constituir um pequeno núcleo familiar, fechado, composto por pai, mãe e descendentes.

Os novos tempos chegaram, e esse núcleo familiar acabou de sofrer mudanças. As mães, as mulheres, as grandes mantenedoras da união da família e educadoras, também precisaram sair do seu papel de cuidadora e foram trabalhar, conquistando assim um lugar de importância econômica dentro do seio familiar, que era apenas exclusivo do homem. Chamo de recente pois em minha família, a minha avó foi a primeira a sair de casa e se tornar professora.

Eu sou dessas que vibro, luto e se for preciso brigar eu brigo por esse espaço da mulher, mas a questão aqui é que, toda ação gera uma consequência. Com a saída da mulher do papel de educadora para o mercado de trabalho, quem educa os filhos?

Acredito que deve ser um papel de ambos, pais e mães, mas ainda estamos nessa fase de transformação, em que muitos homens, ainda não se veem como responsáveis pela educação dos filhos e pela ajuda nos afazeres domésticos. Mas realmente acredito que em até duas gerações esse comportamento que é retrato de uma sociedade fruto do patriarcado, já será minoria. Dedos cruzados!!!

Mas e agora? Quem são essas crianças que nasceram nesse modelo familiar? Algumas já passaram dos 30 anos de idade, ou seja, alguns já chegaram na fase adulta. Essa é geração de adultos, jovens e crianças que não tiveram a atenção que necessitavam, nem uma educação presente dada com amor. São crianças criadas por pais extremamente ocupados, que ficam fora de casa por mais de 12 horas por dia. São pessoas que desenvolvem um processo de incompreensão para com o mundo, por falta da base de uma estrutura emocional. E assim, o que era apenas um sentimento incômodo, vai crescendo silenciosamente até virar um monstro que não se pode deter.

Como filha e parte dessa geração, eu afirmo que é uma droga passar por isso. Como mãe, dou graças a Deus em ter um marido que sabe que a responsabilidade é de ambos e não da mulher.

Eu sou da primeira geração que passou por isso, mas a geração que está aí é de crianças que buscam preencher esse vácuo com eletrônicos, redes sociais e amigos virtuais, já que nem a convivência com outras crianças por vezes é possível, para brincarem de pega-pega e esconde-esconde. Muitas não sabem conviver, não sabem dividir, não sabem intermediar conflitos, como os que aprendíamos no zerinho ou um, na hora de decidir quem começaria uma brincadeira.

De comunidade para família, de família para indivíduo, de indivíduo para a solidão, da solidão para a ansiedade, para depressão, para milhões de crianças com essas doenças modernas, como distúrbio de atenção, tomando ritalina. Pequenos seres humanos, sempre informados que não sabem olhar nos olhos de ninguém, que não sabem apreciar o vento batendo na copa de uma árvore, que não sabem o que significa a palavra respeito, assim como não sabem usar da liberdade e não fazem ideia do que seja altruísmo. Meninos e meninas que não precisam dos pais para ensinar nada, afinal, eles tem o Google e o YouTube com tutoriais que ensinam tudo. Tudo isso é um grande vazio.

Como diria Renato Russo em 1996, há 20 anos, na música Esperando por mim, “O mal do século é a solidão /Cada um de nós imerso em sua própria arrogância/ Esperando por um pouco de afeição".

Mal ele sabia que ia piorar e muito.

Tudo bem, a grande maioria já sabe disso que escrevi. Mas o que isso tem a ver com Obalúwayé?

Obalúwayé é o Senhor da Cura e de todas as enfermidades, seja a varíola que foi uma doença que matou milhões de pessoas há algum tempo ou a depressão e a ansiedade que está matando nos dias atuais.

O Rei que é Senhor da Terra dá aos seus filhos e devotos a resistência física, a resistência emocional e a resistência material. Todas essas doenças emocionais e psíquicas podem ser tratadas por Obalúwayé.

Há uma frase em Iorubá, retirada do livro “Exú e a Ordem do Universo” livro do Bàbá King e de uma senhora incrível e de uma energia linda que tive a grande honra de conversar, Ronilda Iyakemi Ribeiro, que diz o seguinte:

“Láisi agbára Èsù, Obalúwayé, kò lè fa ilé gbóná”

Sem Exú, Obaluaiê, não poderia curar a varíola e outras enfermidades.

Dentro do Culto Iorubá, não há Obalúwayé sem Exú, é isso que essa frase significa. Há alguns Orixás que também trazem essa prerrogativa, como por exemplo Xangô e Egbé.

Cultuamos Obalúwayé para nos curarmos das doenças do século, e assim ele nos apoia. Mas sem Exú, ou seja, sem a sua dinâmica, paciência, equilíbrio e tolerância, não nos curaremos de absolutamente nada.

Para os cultuadores e iniciados em Obaluaiê, dentro de minha família, é proibida a mentira de todas as formas, o mau uso da magia e muitas vezes o uso da cor vermelha.

Sou uma pessoa MUITO ansiosa, quero que as coisas aconteçam logo, no meu tempo e do meu jeito. Admiro demais as pessoas que sabem esperar com serenidade e sabedoria. Dentre os tantos processos de transformação que estou passando ao mesmo tempo, após a minha iniciação em Orunmilá, um deles é compreender e aceitar que leva-se um tempo entre plantar uma semente e o momento de aproveitar a sombra da árvore. Estou no caminho e vou conseguir!

Claro que não adianta largar o tratamento com o médico e/ou o remédio e ir correndo cultuar Obalúwayé e Exú. Os Orixás podem atuar em conjunto com o nosso Ori, nos fazendo trocar de médico e encontrar um profissional que terá a percepção correta sobre o que nos ocorre. Há várias testemunhos que narram experiências dessas. Mas há outra cura que é para a vida toda. Quem já passou por iniciações dentro do Culto Tradicional sabe que os Orixás agem de uma maneira sábia sempre, por vezes silenciosas e outras extremamente barulhentas. Muitas vezes a cura vem através da nossa transformação. É uma mudança interna e profunda, daquelas que modificam o nosso olhar sobre a vida, o mundo e/ou o olhar sobre nós mesmos.

Iba o! Kabiyesi Obalúwayé!!

Ire O

Imagens de Akogun no Oduduwa Templo dos Orixás - SP :

Imagem 01

Imagem 02

Imagem 03

Fontes orais

  • Bàbálóòrìsà Fernando Ifáseun – Sacerdote do Templo Egbé Àiyé

  • Ìyálóòrìsà Lena Ìgbà – Sacerdotisa do Templo Egbé Àiyé e Coaching na empresa Ìwá.

Fonte Bibliográfica

  • Exú e a Ordem do Universo – Ed. Oduduwa - Bàbá King e Ronilda Ìyákemi.

Imagem

  • Artista Espanhol Antonio Mora

#Obalúwayé