Os Yorùbá que imaginamos e os Yorùbá que encontramos
- Fernângeli Aguiar
- há 15 horas
- 6 min de leitura

Nada como o tempo para explicar e esclarecer.
Conhecimento é saber que tomate é fruta, sabedoria é não colocar o tomate na salada de fruta.
Em 2017 comecei a ter trocas de e-mails com o professor José Beniste sobre os textos do Meu Coração Africano. Em resposta ao texto que escrevi sobre a minha experiência na viagem à Nigéria, ele me respondeu com um longo escrito, não no corpo do e-mail, mas como um anexo em .doc, deixe-me destacar dois trechos: “Essa insistência em Ifá é uma forma de retorno a um patriarcado onde o poder feminino será sempre submisso, com títulos que objetivam apenas revelar o desejo dos ditos babalaôs.”
E a outra: “Sobre o assunto, desejo ressaltar que não vejo reciprocidade no tratamento mútuo por parte deles, por ocasião das visitas que costumam fazer aqui no Brasil. São sempre altivos e nunca agradecidos em seus gestos e palavras.”
Na época eu não compreendi o que ele queria dizer, possivelmente por estar embriagada com todos os muros que eu tinha vencido através daquela “nova” maneira de acessar aos Òrìsà, e de ver, sentir as mudanças positivas em mim e em todos ao meu redor. Finalmente tínhamos respostas e tudo fazia sentido.
Hoje compreendo as palavras do professor.
Entre a religião e a fé; a cultura.
Talvez eu me arrependa — ou não — de escrever este texto e expor certas experiências. Ainda assim, sinto que preciso fazê-lo. Tenho certeza de que minhas palavras encontrarão eco em outras pessoas que, assim como eu, já provaram ou ainda provam desse sabor amargo chamado de decepção.
O que eu ainda não compreendia era que, quando se trata de gente, de cultura e de estruturas sociais, a caminhada espiritual pode se tornar muito mais complexa do que imaginamos.
Lembro perfeitamente da euforia quase histérica que senti ao fazer minha primeira viagem ao lugar onde os meus deuses tiveram origem. Era um sonho nascendo, eu estava finalmente indo para a terra de Exú, Ogum, Oxum, Iemanjá e Iansã. Os deuses que eu aprendi a chamar desde menina agora tinham chão.
O contato, sem intermediários, com os yorùbá, na terra deles, na realidade deles, na rotina deles, revela a cultura que nós não fazemos ideia, e acreditem em mim, isso tem um peso dramático na realidade.
A realidade - da maioria de nós - com o convívio com os Babalawos e com os yorùbás, passa por um choque cultural que estremece as relações. E não falo apenas sobre mim, podem ter certeza que já conversei com vários outros sacerdotes brasileiros que compartilham da mesma visão.
Sempre acreditei que relacionamentos e confiança se constrói com tempo e com trocas honestas. Mas, ao longo do tempo, fui acumulando frustrações nas devolutivas que recebi de alguns Babalawos com quem tentei estabelecer uma relação.
Em muitas situações, por mais que você tente ajudar, colaborar ou construir algo em conjunto, o reconhecimento é raro. A relação frequentemente se transforma em algo unilateral. Quando não, apenas por educação.
Em outras situações encontrei discursos que simplesmente não correspondiam à verdade. Promessas, histórias e afirmações que, com o tempo, mostravam mais interesse financeiro do que compromisso espiritual.
Talvez para os homens seja mais fácil navegar por essas estruturas. Talvez porque esses espaços funcionem dentro de modelos patriarcais. E há, infelizmente, mulheres que reforçam esses padrões. Mas como mulher — e principalmente como mulher que ocupa posição de liderança espiritual — eu enfrentei situações que, com o tempo, se tornaram profundamente cansativas.
A impressão que muitas vezes fica é de que o estrangeiro — o oyinbo — é visto antes de tudo como oportunidade.
Consulta.
Ebó.
Rituais
Transferências em dólares.
Adeus. Sim, eles detém mais conhecimento sobres os Òrìsà, e por isso insistimos.
Comecei a notar que a percepção da relação com o dinheiro na cultura e religião daqui é diferente daquela que muitos brasileiros esperam. Não me refiro aos valores, que são semelhantes aos do Brasil, mas sim à expectativa.
No Brasil, apesar dos problemas existentes, há a expectativa de um amparo espiritual e de um diálogo entre o sacerdote e quem busca a consulta. E essa relação é na verdade distante com os yorùbá. No começo isso me chocou, pois também sou consulente. Depois comecei a entender que aquilo também era uma diferença cultural profunda na forma como a religião se organiza dentro da sociedade.
Sei que vou receber críticas sobre este texto, criar animosidades e acusações de que estarei enfraquecendo ainda mais o cenário da religião, mas o papel da verdade muitas vezes traz desconforto, ao contrário da mentira e da ilusão.
Aos poucos também fui entendendo melhor o peso da palavra oyinbo.
Para muitos brasileiros ela parece significar apenas “estrangeiro”. Mas em muitos contextos ela também carrega a ideia de alguém que vem de fora, alguém que tem dinheiro, alguém que pode pagar. E essa expectativa muitas vezes molda a relação desde o primeiro contato.
Ao longo dos últimos tempos, além de ter contato com MUITAS pessoas que foram enganadas por ditos Babalawos brasileiros, também tive contato com pessoas me procurando depois de experiências difíceis com os yorùbá: assentamentos feitos de qualquer maneira, iniciações incompletas, rituais conduzidos mais como negócios do que como responsabilidade espiritual. No cenário geral há pessoas com medo, confusas e espiritualmente desorganizadas.
Será que a Religião Tradicional Yorùbá, em tão pouco tempo, já está na Unidade de Tratamento Intensivo, por responsabilidade deles e nossa? Eu só sei que aumentei a altura dos meus muros para me proteger até o momento que eu conseguir.
Para tentar fortalecer os laços com eles foram muitas tentativas, entre elas tentei explicar algo que considero importante: que o Brasil não é um país simples de categorizar. Nossas raízes passam por povos indígenas com tentativa de extermínio, pois eles de fato são os povos originários. Passam por africanos arrancados de sua terra e escravizados. Passam também por europeus que moldaram parte da estrutura social que ainda carregamos. Expliquei que, apesar de todas essas camadas, a maioria do Brasil carrega sangue africano em algum nível, mesmo quando isso não é reconhecido.
Mas muitas vezes essa conversa parecia não despertar interesse.
Era como se simplesmente não importasse.
Com o tempo fui entendendo que a África Ocidental que carregamos dentro de nós nem sempre é a mesma África que encontramos. Muitos brasileiros chegam ali com uma imagem quase sagrada daquele território, eu fui essa pessoa. Como se a espiritualidade estivesse preservada em estado puro, intacta, protegida do mundo.
Mas a Nigéria também é um país real.
Com política.
Com corrupção.
Com disputas.
Com hierarquias.
Com interesses econômicos.
E também com profundas transformações culturais.
Uma coisa que muitos brasileiros não percebem ainda é o quanto a cultura yorùbá contemporânea também foi atravessada por outras influências religiosas ao longo da história, especialmente pelo Islã e, mais recentemente, pelo cristianismo. Em várias regiões, valores sociais e visões sobre o papel da mulher foram sendo moldados por essas influências ao longo dos séculos.
Ou seja: a África Ocidental também mudou.
A tradição que muitos brasileiros imaginam encontrar ali como algo imutável também passou por adaptações, disputas, guerras e transformações.
Também comecei a perceber que nós chegamos à África Ocidental acreditando que vamos reencontrar uma continuidade direta da nossa própria ancestralidade espiritual, mas para muitos yorùbás, nós não somos exatamente parte da mesma história. Somos na verdade parte de uma história interrompida através da escravidão, e não importa se você é amarelo, branco ou preto. Você não é um deles. Conheço apenas uma única pessoa que conseguiu ser reconhecida por eles, por ter contato desde criança, e ninguém mais. É um muro intransponível, ainda que cheio de palavras elegantes e gestos que não compreendemos - a barreira cultural, a influência dos colonizadores britânicos, as fotos com ostentação - óculos escuros na frente do carro, que é influência da cultura árabe do luxo.
Existe uma distância histórica ali que muitas vezes nós, brasileiros, não entenderemos enquanto nos limitarmos a nossa realidade e cultura.
Sentada em um banquinho de frente ao mercado de Abeokuta, eu fui a única mulher sem véu, por aproximadamente 10 minutos. Sim, eu contei o tempo.
Com o tempo fui entendendo que o verdadeiro choque que vivi não era espiritual.
Era cultural.
Brasileiros chegam à África carregando sonhos.
Espiritualistas Yorùbá olham para brasileiros vendo estrangeiros.
No meio desse encontro existe fé.
Mas também existem expectativas diferentes, feridas históricas e formas muito distintas de compreender o mundo. A história colonialista e racista do mundo. Sim. Terem deixado os africanos, negros, sempre à margem, é o início para entender esse precipício. O que quero dizer é que não os vejo como culpados, mas sim como o resultado final de um mundo com um sistema de poder branco e eurocentrado, que isolou, escravizou, roubou, sequestrou a identidade de alguns povos.
Apesar de tudo isso, continuo acreditando profundamente na força dos Òrìṣà.
Os Òrìṣà continuam sendo aquilo que sempre foram para mim: força, colo, ancestralidade, bússola destino.
O meu desencanto nunca foi com os Òrìṣà.
Foi com as pessoas. Foram as minhas expectativas que me decepcionaram.
O sagrado é uma coisa.
Os seres humanos que dizem representá-lo são outra.
A África que vive dentro da nossa fé nem sempre é a mesma África que encontramos no mundo real.
Talvez existam exceções por aí.
Eu sinceramente espero que existam.
Porque, no fim das contas, a fé que me trouxe até aqui nunca foi nas pessoas.
Sempre foi nos Òrìṣà. Com humildade. Com respeito. Com verdade.
Ìyá Ifásọlá Ẹgbẹ́kẹ́mí
💛 Meu Coração Africano
Ile Obatala Oni Igba Iwa - Brasília DF
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