• IfáṢọlà Sówùnmí - Fê Aguiar

O Sacerdócio na Religião Tradicional Yorúbà


Aos que conhecem a liturgia do culto afro-brasileiro sabem que dentro de uma casa de Òrìsà, apenas um(a) sacerdote(isa) é responsável por todas as iniciações de todos os Òrìsà, assim como é o dirigente de todos os rituais. Por vezes há uma delegação, mas ainda assim ele(a) é o dirigente. Ele é aquele que é conhecedor de todos os segredos e fundamentos. O Olorisa (Olorisa – Termo que refere-se a um sacerdote seja do gênero feminino ou masculino) que não conhece tudo no Brasil, é muitas vezes rotulado como incompleto. Na Religião Tradicional Yorúbà não funciona desta forma. As comunidades são formadas por um corpo sacerdotal, que age em pleno exercício coletivo e de colaboração, como uma grande orquestra. Cada Olorisa busca (Entenda por busca: estudar, dedicar-se com afinco, acompanhar os anciãos e praticar durante anos sendo supervisionado) e especializar-se em um Òrìsà de acordo com a sua família ou até mesmo de acordo com a determinação dos Òrìsà em algum ritual. Em terras Yorúbà, há a conscientização que é impossível um único sacerdote reter o conhecimento sobre todos os Òrìsà. O pensamento Yorúbà assemelha-se ao da prática do exercício da medicina [Sim, eu adoro exemplificar]. Todo Olorisa pode atuar como um Clínico Geral. Através do erindilogun (consulta aos búzios) ou no caso do Babalawo e Iyanifa consulta ao opele ou ikin, ele é capaz de diagnosticar quais são as necessidades espirituais, físicas e materiais de uma pessoa. Dependendo da necessidade da pessoa, ele não precisa recorrer a um especialista. No entanto se um Clínico Geral, por exemplo, diagnosticar através de exames que aquela pessoa possui problemas nos ossos, o profissional, ciente da sua limitação de conhecimento, encaminhará o paciente para um ortopedista e dependendo do caso um reumatologista. O mesmo acontece, ou deveria acontecer, dentro da prática do Sacerdócio Religião Tradicional Yorúbà. Dependendo do que Ifá (oráculo) revelar, aquele Olorisa pode resolver o problema daquela pessoa, caso o problema não possa ser solucionado dentro do(s) Òrìsà que a pessoa é especialista ele(a) deverá ter que pedir apoio para um outro Olorisa ou Babalawo/Iyanifa (no caso de Orunmilá) especializado. Funciona como um trabalho coletivo dentro de uma comunidade. É habitual um(a) Olorisa buscar se especializar em 1, 2, 3 e aaaaàs vezes 4 Òrìsà, ou no culto de Egungun ou Egbe Orun. É comum que sejam Òrìsà afins, mas não é uma regra. Essa prática criada aqui no Brasil, onde o(a) Babalorisa/Iyalorisa sofre essa pressão em tornar-se um ser quase que sobrenatural, onipresente, onisciente, preparado e erudito, pode ser um dos fatores responsáveis que contribuíram para o início das invencionices de fundamentos que temos por aqui, o que como consequência prejudicou a vida de muitas pessoas. Afinal ser um(a) Babalorisa/Iyalorisa no Brasil e não saber tudo, é ser taxado de incompetente, implica em ser mal falado entre os filhos de santo, ser xoxado nas fofocas que correm por aí. Para fugir desse estigma os/as Olorisa precisaram recorrer a sua criatividade (que o brasileiro tem de sobra) para suprir essas necessidades, ou arriscar-se a ter a casa vazia. O sacerdote do culto afro-brasileiro, sofre uma pressão da comunidade espiritual para ser um semi-deus. Tenho CERTEZA hoje, que é humanamente impossível que um único ser humano conheça os segredos e fundamentos de todos os Òrìsà dentro da Religião Tradicional Yorúbà. Ser iniciado em todos os Òrìsà não faz de uma pessoa sacerdote de todas as Divindades. Seguindo essa prática da coletividade dentro do Isese Lagba, um sacerdote em que ele mesmo INICIA todos os Òrìsà, não está praticando em seu Templo a Religião Tradicional Yorúbà, mas sim um culto híbrido entre o Candomblé e o Isese Lagba. O Babalawo/Iyanifa é o(a) sacerdote(isa) que devido a riqueza do Corpus Literário de Ifá, o vínculo estreito com Èsù e Osanyn, possui um conhecimento mais vasto sobre todos os Òrìsà. Mas isso NÃO dá a ele(a) o direito de ser um Olorisa, um iniciador de todos os Òrìsà. Por isso é sim preciso a prática de um corpo sacerdotal, que atua de forma cooperativa, que trabalha em equipe e que compartilha conhecimentos, mas cada um dentro da sua especialização, cada um no seu quadrado. Voltando ao exemplo, não se pode exigir que um Clínico Geral, faça uma cirurgia plástica, uma artroscopia ou um tratamento dermatológico. Pense o seguinte: Se fizermos uma pressão social em um Clínico Geral, que seja facilmente manipulado por sua vaidade, por seu ego ou por seus interesses monetários, para que ele exerça todos os ramos da medicina, podemos estar levando-o a cometer erros graves. Eu não conheço nenhum médico especializado em todas as vertentes da medicina, e caso isso existisse, talvez levaria algo em torno de três ou mais vidas para ser concluído. Garanto que o mesmo serve para vasto universo dos Òrìsà dentro do Isese Lagba. O culto afro-brasileiro não está errado, pois criou-se, formou-se e resistiu aqui em terras Tupiniquins deste modo. O Candomblé é senhor de si mesmo e com práticas próprias. Quanto a contatos com sacerdotes de Yorubaland e prática do sacerdócio da Religião Tradicional Yorúbà e o ato iniciático: Cuidado!

Devido alguns Yorúbà terem tomado conhecimento, dessa prática do Candomblé no Brasil do “multi-sacerdócio”, já existem Olorisa de Yorubaland, oferecendo iniciação em Ifá e em todos os Òrìsà, assim como há Babalawo afirmando que ele pode iniciar em todos os Òrìsà. Isso não existe no Culto Tradicional Yoruba. Um dos sentidos do provérbio Yorúbà que diz “Uma árvore sozinha não faz Floresta” é exatamente sobre o assunto abordado neste texto. Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você) Ìyánifá IfáṢọlà Ṣówùnmí - Fernângeli Aguiar Se você acredita que este texto pode fazer a diferença na vida das pessoas do seu meio: compartilhe! Se você acredita que ele pode fazer a diferença para alguém em específico: encaminhe para essa pessoa. Vamos levar conhecimento aos nossos, vamos esclarecer questões como esta. É através do conhecimento que protegemos a nossa comunidade, a nossa vida, a nossa fé e o nosso bolso. Imagem: © Eric Lafforgue www.ericlafforgue.com

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