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  • Camila do Rosário

A importância das crianças na religião de matriz africana


Desde a infância, eu sempre tive muita curiosidade sobre as religiões de tradição africana. Meu pai trabalhava em uma videoteca e ele, sabendo dos meus interesses por esta cultura, sempre trazia fitas cassetes relacionados ao tema. Todas as vezes em que eu assistia, o meu coração se enchia de alegria e curiosidades, eu achava o máximo como era diferente e como a religião era cultuada.

A forma em que o culto afro se conduzia, com suas danças, cânticos e formas de possessões - tudo voltado para a música, em linguagens distintas - me levava a me imaginar dentro daquele rito, com Deuses africanos bailando e me embalando, como uma proteção, que aquecia o meu coração. Eu ficava sem entender o porquê eu tinha tanto apreço por algo com o qual eu não tinha contato e só ouvia falar coisas ruins, mas 20 anos depois eu fui entender a importância da religião na minha vida. O Brasil é um dos países com uma das maiores diversidades de culturas e religiões.

A religião de cultura africana tem um leque bastante amplo, como por exemplo, Umbanda, Candomblé, Ifá, Isese Lagba, Batuque, Jurema, Terecô, etc.

Nosso país é de maioria cristã, vemos os pais e familiares levarem as suas crianças em templos cristãos, iniciando os seus filhos no batismo e outros ritos religiosos. E ao chegar na religião de matriz africana, encontramos resistência inclusive entre os próprios irmãos de Axé quanto a iniciação ou a participação de uma criança dentro de um terreiro.

Os cristãos, muçulmanos, judeus e outros não têm medo ou resistência em batizar, apresentar e instruir seus filhos em sua crença e seguimento.

Eu, como uma mulher de candomblé, acredito que é mais do que certo apresentar os meus filhos àquilo a que eu tenho fé e acredito, que são a força do Orixá e a força da natureza. Tenho 2 filhos que se chamam Arthur e Anna. O Arthur foi Iniciado aos 8 meses de idade para o Orixá Ogum e a Anna ainda é abian, mas está se preparando para iniciar em breve. Participar da feitura do meu filho foi a sensação mais emocionante que eu tive na vida e ver o quanto meus filhos são felizes na comunidade de Axé e se sentem acolhidos por todos é muito gratificante.

Temos que ensinar o caminho pelo qual nossas crianças devem andar, para que na vida adulta tenham o mesmo amor, dedicação e fé pelo nosso sagrado e passem isso adiante.

No meu axé existem várias crianças, mas, tem uma, que se destaca, o nome dela é Sofia e ela é de Oyá,. Ela nasceu e cresceu convivendo com todos dentro da roça, hoje a Sofia tem 8 anos e o amor e a pureza com o qual ela canta, dança, reza ou até bate cabeça pra um santo é magnífico, porque você vê que é puro. Sofia é mais frequente do que os próprios familiares em tudo que ela pode. Sempre destemida como o vento de Oyá , ela nunca para quieta, tudo que ela faz para o sagrado é com o coração aberto e com amor e sorriso no rosto.

Ser de religião de matriz africana ainda é um tabu, principalmente para as comunidades cristãs, que são contras nossos dogmas e crenças. Para uma criança de axé o preconceito é maior ainda, por conta de falsos testemunhos contra a nossa fé, sem ao menos conhecerem realmente o que se é praticado. E, através dessas atitudes impostas e pela religião praticada pela maioria (cristianismo) em escolas, cursos e outros locais de educação, nossas crianças acabam se escondendo, negando ou até questionando a própria fé.

A maioria dos terreiros foram abertos em comunidades carentes, em áreas de chácaras e sítios, ou mais afastadas da cidade, sendo assim, os terreiros acabam sendo espaços de acolhimento social para as crianças e suas famílias.

A criança é o princípio de tudo, através delas conseguimos perpetuar a nossa fé, é importante que nós pais, familiares e sacerdotes espirituais orientemos nossas crianças para amar, praticar e ser resistência e passe isso em diante para que quebre essa barreira contra nossa religião.

É o dever da comunidade de Axé zelar, instruir, educar e acolher da melhor forma e passar os ensinamentos da nossa religião para que as crianças de terreiro não sofram preconceito e consigam resistir e lutar pelos seus direitos, ideais, crenças e ancestralidade.

Camila T'Osun

As crianças são a luz que ilumina o mundo de esperança e alegria e por elas todos deveriam lutar diariamente por um futuro melhor para suas famílias. (Autor desconhecido)


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