• Ìyá Ṣọlà

RITUAIS E O DESTINO - Texto 2 : INICIAÇÕES e PACTOS



NESTE TEXTO VOCÊ VAI ENCONTRAR: 1. POR QUAIS MOTIVOS UMA PESSOA DEVE SE INICIAR

2. O QUE É UMA INICIAÇÃO EM ORISA

3. QUAIS OS BENEFÍCIOS DE UMA INICIAÇÃO

4. O QUE DEVE ACONTECER DEPOIS QUE UMA PESSOA SE INICIA

5. ÌMULÈ - O RITUAL DE PACTO COM ORISA, QUE NÃO É CONHECIDO NO BRASIL.

Você já escreveu sobre algo tão profundo, com tantos entremeios, que teve dificuldade de saber por onde começar? Este texto foi assim. É tão lindo, profundo, complexo e simples ao mesmo tempo, mas que precisa ser minucioso nas informações para que ele esteja completo. Este texto sem dúvida será polêmico, mas tenho certeza que depois de ler até o final, você saberá de fato o que é uma iniciação em Òrìsà. Vem comigo pra gente conversar mais uma vez.

Pega lá a sua bebida preferida. Se eu te perguntar: Para quê você se iniciou em Òrìsà?


ou


Por que você quer se iniciar em Òrìsà? Você sabe me responder? Vou te mostrar as três respostas mais comuns quando faço essa pergunta para as pessoas: - O sacerdote(isa) disse que o Òrìsà estava me cobrando durante uma consulta oracular, mas nunca soube o verdadeiro motivo. - O sacerdote(isa) me disse que só assim eu seria feliz. (Nesta resposta sempre me pergunto qual será o significado de felicidade para aquela pessoa) - O sacerdote(isa) disse que era a salvação para a minha saúde. - Por que estava no meu destino, era a minha missão. Aí eu pergunto: - E qual é a missão?

- Servir Òrìsà.

- Para quê?

- Ainda não sei o que Òrìsà guarda pra mim. - Ok.


Sabe qual a verdade? Quase 90% das pessoas não sabem o REAL significado, a premência de passar pela Iniciação em um Òrìsà.

Muitas pessoas se iniciaram sem saber de fato o que significa em sua essência o Òrìṣà títẹ̀ ou Ìdóṣù Òrìṣà, este é o verdadeiro nome do processo litúrgico que chamamos de feitura ou iniciação em Òrìsà no Brasil. Mas tudo bem, estamos na Era da informação, e o conhecimento básico deve estar ao alcance daqueles que o procuram.


Òrìṣà de fato é uma fonte poderosa de esperança na vida de quem de fato quer e deseja uma nova chance, e está disposto a lutar por ela.


POR QUAIS MOTIVOS UMA PESSOA DEVE SE INICIAR?


  1. Herança espiritual familiar - Alguém da família é designado pela própria espiritualidade a dar continuação ao culto.

  2. Orientação oracular - Os Òrìṣà apontam a necessidade com um determinado PROPÓSITO INDIVIDUAL.

  3. Iniciação de Ifá - Aponta a necessidade da iniciação em outro Òrìṣà com um determinado propósito individual dentro da concretização do destino daquela pessoa de acordo com o odù que foi revelado.

  4. Devoção.



No Brasil durante muitas décadas acreditou-se que todas as pessoas trazem consigo um Òrìṣà dentro delas e é neste mesmo Òrìṣà que as pessoas se iniciam. Daí originou-se a crença de estereótipos que até hoje embala as conversas e os debates entre os devotos. Para que você compreenda com propriedade, vou precisar que guarde essa crença na gaveta por alguns minutos e depois, se quiser, pegue-a novamente.



Vamos primeiramente falar de essências. Os Òrìṣà possuem essências, forças e àṣẹ particulares. Vou usar a essência de Ògún que é bem marcante como exemplo, para facilitar a compreensão.

Conhecemos Ògún como um Òrìṣà destemido, honesto, corajoso, colérico, impulsivo, trabalhador, forte, resiliente e guerreiro. Lembrando que os Òrìṣà possuem em si, assim como o próprio Eledumare, a essência positiva e negativa. Tudo no Universo possui esse equilíbrio de polaridades e não se trata de bem e mal, já falamos bastante sobre isso em outros textos do MCA.


Uma pessoa pode ter em seu DNA espiritual, algumas dessas características de Ògún, mas isso NÃO faz com que ela tenha o Òrìṣà Ògún dentro dela e a iniciação vá apenas despertar esse Ògún adormecido. Esta é uma crença da diáspora.


Essa mesma pessoa possui em sua essência a honestidade, a cólera e a impulsividade, no entanto ela não é trabalhadora e nem resiliente. Foi feita uma consulta para ela, e o Orí dela traz a informação, através de um Odù, para o sacerdote que aquela pessoa para ter mais progresso em sua vida precisa justamente ser mais trabalhadora e resiliente. Neste Odù conta-se versos e itan sobre Ògún, onde ele vence uma batalha pela sua força de trabalho e resiliência e um outro Odù indica que aquela pessoa só conseguirá ser mais trabalhadora e resiliente se ela tiver consigo o àṣẹ, a essência de Ògún.


Diante desta informação, faz-se daí a necessidade, a opção para que a pessoa passe pelo ritual do Òrìṣà títẹ̀ , a iniciação. Para que ela receba integralmente a essência daquele Òrìṣà em seu corpo e cabeça, e seja consagrada e reconhecida por ele.


No Brasil, separaram as pessoas entre iyawo e não iyawo. Na Nigéria e em toda yorubaland, não existe isso de uma pessoa que foi iniciada para um Òrìṣà e que não foi iyawo. Homens e mulheres são iyawo. Toda pessoa que é iniciada para Òrìṣà, durante todo o processo iniciático é iyawo. Todos estamos nos casando com Òrìṣà e assumindo um compromisso com ele(a). Diante daquele ponto nos será cobrado honrar o nome daquele Òrìṣà que receberemos.


Apenas faça uma analogia com a visão civil do casamento (sim, infelizmente uma visão patriarcal e machista, mas assim fica mais fácil de entender) onde a esposa, passa a pertencer e a carregar o nome do marido, e por isso deve honrá-lo. Onde aquele marido quer seus princípios resguardados e honrados. Você passa a "pertencer", com muitas aspas, àquele(a) Òrìṣà. Terá dele sua proteção, mas deve prestar culto, para que tenha sua proteção.


A iniciação marca o início dessa relação. Em que você recebe em seu corpo a essência que você precisa para ter progresso, pois não conseguiria sozinho. Para continuar progredindo e manter esse àṣẹ em seu potencial, é preciso estar próximo a esse Òrìṣà, e cuidar dele, como uma esposa cuidaria, dentro da mesma visão, do seu marido. O agradando com as suas comidas preferidas, prestando homenagens e construindo uma rotina de confiança, no caso com os rituais do ose. Se por exemplo, você se casar com alguém e cada um vai morar numa casa diferente, você apenas é casado, mas seu casamento não serve de nada. Pois a relação pós-casamento, não foi construída.


Ao ser iniciado em um Òrìṣà, CORRETAMENTE, a pessoa PRECISA, OBRIGATORIAMENTE sentir mudanças em sua vida. Não há casamentos que não tragam mudanças estruturais na vida de uma pessoa. No caso do exemplo de Ògún que dei acima, essa pessoa tem que sentir que algo mudou, acendeu, transformou dentro dela, a cólera e a impulsividade devem ser controladas, a pessoa sente-se mais disposta e não desiste facilmente. Conforme a rotina e a manutenção do culto, o àse, o casamento, se fortalece. Caso nada aconteça de transformações internas, aquela iniciação foi feita de maneira incompleta e a pessoa não foi reconhecida por aquele Òrìṣà.

Resumindo: o Ìdóṣù Òrìṣà entrega à pessoa o àṣẹ do Òrìṣà e sua essência, colocando o seu poder em sua essência vital através do seu Orí para que ela comece uma nova vida.


Para nós, da Religião Tradicional Yoruba, a essência de apenas um Òrìṣà, pode não ser o suficiente, justamente por nossas muitas deficiências. Portanto é possível que uma mesma pessoa tenha necessidade e indicação, principalmente dada por Ifá, de iniciar em mais de um Òrìṣà ou ter apenas o Igba de outros Òrìṣà para cultuá-los com regularidade.


É importante compreender que a Iniciação em Òrìṣà, sempre deve ser sempre projetada como um marco, que marca o reinício de uma nova vida, de uma nova oportunidade de progresso em sua vida marcando um fortalecimento do Orí com o àṣẹ daquele Òrìṣà.


A iniciação é uma maneira única de se conectar com nossa espiritualidade e essência. Mas não pode e nem deve ser banalizada. A iniciação tem a capacidade de remodelar as perspectivas e renovar o senso de direção na vida. Mas se você recebe muitas novas direções, você ficará paralisado e não sairá do lugar.


Hoje no Brasil, na Nigéria e em muitos lugares as iniciações passaram a ser produto, e se assim continuar, pode ser que um dia, ela também perca a sua força, como tudo aquilo que é banalizado e os nossos descendentes nunca saibam o que é ser iniciado em um Òrìṣà. Não banalize folhas, não banalize magias, não banalize nada dentro da espiritualidade, principalmente em busca de poder.


Ainda é importantíssimo dizer que Iniciações em Egungun e Egbe Orun e ancestralidade no geral, quase sempre são necessárias, justamente para que a pessoa tenha o apoio e as bênçãos de sua ancestralidade genealógica direta e da espiritual, essas iniciações normalmente são indicadas na iniciação de Ifá.





ÌMULÈ - O RITUAL DE PACTO COM ORISA, QUE NÃO É CONHECIDO NO BRASIL.



Mais uma vez preciso que abra sua mente para o que vou escrever, e que fique claro que não se trata do que é certo ou errado, ok? Então qualquer tipo de ofensa por parte de quem for, será respondida com o meu silêncio.


Quando o culto aos Orisa chegou ao Brasil, ele não era Candomblé. Ele era o Esin Orisa Ibile, Isese Lagba, Religião Tradicional Yoruba. Os yorùbá que vieram para o Brasil, sequer conheciam o Candomblé. No entanto por uma questão de resistência e sobrevivência de suas identidades, o povo Yorùbá juntamente com outros povos como os jeje, fon e bantu conseguiram bravamente resistir a opressão do branco colonizador e da árvore do esquecimento, e foi aí que nasceu o Candomblé. Muitos de vocês já sabem disso. E há muitas teses sobre como tudo isso aconteceu. Mas o ponto aqui é que assim como muitos cultos de Òrìṣà não vieram para o Brasil, obviamente muitos rituais também não. Alguns rituais se perderam, outros se miscigenaram com liturgias semelhantes.


Um pequeno grupo de pessoas no Brasil, já conhece um ritual conhecido como Ìmulè Agba - (Lê-se Imulé, com agudo no E) Que é o que muitos chamam de iniciação em Ìyámi Osoronga. No entanto este ritual trata-se de um pacto. Existem inclusive vários tipos de Ìmulè Agba, para reconhecimento, proteção, poder, apaziguamento e assim por diante.


No entanto o que uma grande maioria não sabe, é que praticamente todos os Òrìṣà possuem Ìmulè também. Isso significa que existem pactos com os Orisa para que se receba um "favor" específico. Vou exemplificar melhor.


Num Ìmulè para Orisa Osun, por exemplo, você pode pactuar com Osun para que ela lhe conceda o seu àṣẹ de atratividade, assim como é possível fazer um Ìmulè para Egbe Orun ou Egungun, para que você seja abençoado com saúde, em função de uma saúde frágil, justamente por conta da ancestralidade. É também possível fazer um Ìmulè com Sango para que ele lhe conceda coragem.


Os Ìmulè possuem vários tipos de ritualísticas, algumas duram poucas horas, outras podem durar 3 dias, onde a pessoa passa por rituais de inclusive de pinturas, como já conhecidos nas Iniciações (Òrìṣà títẹ̀ - Ìdóṣù Òrìṣà). Os Ìmulè não possuem Ìdóṣù, isso precisa ficar claro. Mas a grande questão agora, e este é o motivo real de inserir este tema dentro do texto sobre Iniciação, é que em virtude da ignorância do nosso povo, da vaidade e da sede de poder, há sacerdotes, sendo liderados pelos próprios Yorùbá patriados aqui ou de passagem, que vendem o ritual de Òrìṣà títẹ̀ e entregam na verdade o Ìmulẹ̀ Òrìṣà.


A pessoa sem dúvida terá resultados, se o ritual for bem executado, no entanto ela não é iniciada no Òrìṣà. A questão é que existem portanto 3 categorias de vínculo com Òrìṣà. 1. A pessoa pode ser Iniciada (e tem que ter o igba da iniciação que foi feita para dar seguimento a sua vida de devoção)

2. A pessoa pode ser pactuada (e pode ter o igba do Òrìṣà que foi pactuada para dar seguimento a sua vida de devoção)


3. A pessoa pode ter o assentamento - igba do Òrìṣà e dar seguimento a sua devoção)


Quem determina o que a pessoa precisa em sua vida é o oráculo, sejá Ifá ou o merindilogun. Essa questão é determinada pela necessidade individual de cada um, de acordo com o seu predestino.


Como fica claro, mais uma vez, é imprescindível o mínimo de conhecimento da religião para que não se seja enganado, por mercenários da religião. A confiança no sacerdote ou sacerdotisa é indispensável, para que não se adquira gato por lebre.


A quarentena estourou na internet, através de lives e textos, novos vários pseudos-sábios que estão prejudicando enormemente a nossa crença. Tome cuidado. Não se deixe levar pelo poder da persuasão, pela irresponsabilidade e pelas mentiras. Não se deixe levar pelas facilidades. Atente-se pelo histórico e pela vida das pessoas que confiaram suas vidas e a vida de suas famílias àquele(a) sacerdote(isa). Saliento também que o fato de uma pessoa ser Yorùbá não chancela seu conhecimento e caráter, a mentira e a ganância são humanas e não possuem fronteiras.


Apesar deste texto ter sido escrito por mim e ganhar a minha voz, ele foi construído à quatro mãos, com meu amigo e parceiro desta jornada espiritual, Oluwo Ifagbamila Onifade.


Lembre-se SEMPRE de pedir ao seu Orí que lhe leve para as mãos de sacerdotes e sacerdotisas comprometidos com a verdade, que respeitam, são tementes aos Òrìṣà e são prudentes e respeitadores de cada indivíduo que os procuram.

Se você acredita que este texto pode fazer a diferença na vida das pessoas do seu meio: compartilhe! Se você acredita que ele pode fazer a diferença para alguém em específico: encaminhe para essa pessoa! Um coração agradecido é sempre maior.


Ọ̀nà’ re o - (Um bom caminho para você)

Ìyá Ṣọlà Ẹgbẹ́kẹ́mi

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Oluwo Ifagbamila Onifade Ayenifa

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