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  • Ìyá Ṣọlà

Ritual fúnebre para os Iniciados em Ifá


Eu não busco mais respostas, eu já as encontrei. Hoje valorizo sentir o Àse de colocar os pés descalços sobre a terra e sentir ela vibrar sob os meus pés, me dizendo: Estou aqui com você. Busco sempre o que me religa ao mundo espiritual e que faz sentido para o que chamo de coração da minha alma.


Ir em busca da verdade sempre teve um preço alto, me fez/faz constantemente encontrar e conhecer mentiras e reconhecer mentirosos - e por vezes ter caído em suas armadilhas - assim como descobrir costumes e ritos nunca explorados e me banhar com toda a sabedoria Yorùbá.


Você sabia que quando um Babalawo ou Iyanifa retorna para Orun e faz o ritual de passagem corretamente, ele/a se torna um Egúngún Àwalẹ̀sin?


Com certeza você não sabia, sabe porque?


Porque somos ainda um povo brincando de cultura e religião Yorùbá, uma

nação encharcada por todas as partes de ignorantes persuasivos, que se garantem na ignorância daqueles que têm fé, fantasiados de sacerdotes com seus max-colares, arrotando um conhecimento raso e esperando aplausos, e certamente com uma grande platéia para aplaudir, em sua maioria sedentos por atalhos e milagres.


A religião Yorùbá precisa de vivência, conhecimento, sabedoria, cultura e muito estudo, longe da soberba, da vaidade, da preguiça, do "jeitinho" e da pressa brasileira.


A realidade é que a Religião Tradicional Yorùbá não existe realmente no Brasil porque além dos limites ritualísticos, não temos conhecimento cultural o suficiente. Temos por aqui pequenas amostras, ensaios do que está longe de ser Tradicional. Ainda temos um longo caminho pela frente.


A pergunta é:


Temos milhares e milhares de "iniciados" em Ifá no Brasil, mas a pergunta é:


E quando morrermos?

O que deve ser feito?


Apressam-se em vender, pouco se ocupam em orientar.


Vamos hoje no Meu Coração Africano explorar o Universo ritualístico pós-morte para os iniciados em Ifá, não pra ensinar nada, mas para que vc saiba que existe e não aceite invenções.


Quem trouxe este ensinamento para mim foi o Babalawo Ajayi Ifadare Iyowu, Sacerdote em Oyo, filho de Afejigba em Oyo, filho de uma Iyalorisa de Osun e hoje Babalawo exclusivo do Ile Ase Obatala Oni Igba Iwa no Brasil.


Para os Yorùbá a vida de um devoto de Orisa começa no primeiro ritual após o nascimento, no caso do Ifá, quando aquele indivíduo passa pelo Esentaye, e sua primeira pegada é em cima de um opon Ifá. o que faz da Religião Tradicional Yorùbá ser completa do primeiro ao último dia de vida.


Segundo a crença Yorùbá, toda vida começa em algum lugar e termina em algum lugar, mas a vida de uma pessoa iniciada nunca termina em nenhum momento, ou seja, o Babaláwo ou Iyanifa continua vivendo mesmo após a morte.


Por quê?


Isso ocorre porque, como iniciado, o òkè ìpòrí (o Ikin Ifa) ainda tem muitas missões para fazer e guiar, principalmente para os filhos dos sacerdotes mortos.


Em Ifá acreditamos que o sacerdote nunca morre, mas apenas se transforma em outro ser espiritual chamado Egúngún Àwalẹ̀sin. Isso significa que, depois de morto na terra, outra vida já começa no mundo espiritual.


Isso é enfatizado no Odù Ifá Ofun òbàrà que diz:


Ikú òrun ní o pa Awo

Àgbààgbà Òrun ni o mọ Isẹgun

Ikú pa l'ọja l'ọja

Ikú pa lookọ lookọ

Adífá fún Orunmila

Baba saye saye

Baba lohun yóò tún ilé ayé to mimi

Nje ẹkun arira ni wón n sun

Arira o ma ku o

Ṣebi laja lowa

Ekun arira ni won n sun.


Este verso conta sobre a história em que a morte é um dos onikọ Ọlọrun (mensageiros de Olódùmarè):


A morte nunca havia matado ninguém até o momento, portanto, todos viviam por muito tempo e ninguém morria, e ninguém também tinha filhos.


Orúnmìlà observou que as coisas não mudavam e a vida permanecia sempre a mesma sem modificações ou melhorias. Então ele pede permissão a Olódùmarè para intervir.


Orúnmìlà consultou Ifá, e Ifá disse que seria necessário que as pessoas morresse. e que outros jovens viessem, foi quando Orúnmìlà então disse a Olódùmarè para permitir que Ikú -morte viesse e começasse o seu trabalho.


No momento em que a morte veio para a terra, Orunmila mostrou para todos como era a morte e a descreveu, e ensinou o que deveria ser feito quando alguém morria.


No entanto Orunmila nunca morreu, ele voltou vivo para o mundo espiritual - Orun - (isso é enfatizado em outro odu que não é o foco de hoje).


Ikú (morte) ficou muito feliz com Orúnmìlà permitindo que ela estivesse finalmente fazendo o seu trabalho.


Ela, a morte, então disse que estaria levando todos da terra, mas aqueles que têm Ifá em suas vidas, ela não os mataria ele apenas os transformaria em outro ser.


É por isso que o Babaláwo e a Iyanifa (sacerdotes de Ifá) em circunstâncias normais, choram ou sentem tristeza quando um Sacerdote morre porque acredita-se que ele não morreu como ogberi (aqueles que não têm Ifa).


Em outro Odu, Ògúndá Ọwọnrin, foi enfatizado que em vez de chorar quando um sacerdote morre, basta cantar Ìyèré.


Como dito, o sacerdote após o ritual, torna-se Egúngún Àwalẹ̀sin - o que significa que eles se tornam um ser espiritual que tem seu próprio ojúbọ.


Quando fui até a casa do meu Oluwo em 2019, que partiu agora em novembro para orun, Babalawo Awodiran Sowunmi, em Abeokuta, tive o prazer de conhecer o ojúbọ dos pais dele que ficam na sala principal da casa, logo na entrada. Seu filho, Babalawo Ifarombi disse assim que entrei na casa, ajoelhe-se e faça suas preces. Culturalmente diferente, mas pude por instantes me sentir mais parte.



O túmulo passa a ser o que chamamos aqui no Brasil de assentamento, quando todos os ritos são feitos corretamente. Através deste ojúbọ, podemos nos comunicar com eles, solicitar algo deles, eles podem nos proteger, eles podem prover nossas necessidades. Assim, ao invés de chamá-los através de Baba Egúngún, podemos ir lá e chamá-los diretamente.


Os sonhos também podem fazer parte da comunicação, aqueles que já se foram e passaram pelos rituais completos, costumam passar massagens e informações para orientar nossa vida. Esta é uma das razões pelas quais na terra Yorùbá, enterramos os sacerdotes transformados em Egúngún Àwalẹ̀sin, dentro de nossa casa, mas não fora ou em cemitérios, para que eles estejam perto e acessíveis para aqueles que ficaram.


Com os rituais fúnebres feitos corretamente, os Ikin Ifá serão o guia de toda a família para buscar orientação, proteção, provisão e as preferências de seus pais mortos, mesmo que o sacerdote não possa ter sido enterrado dentro de casa. os Ikin Ifá representarão sua imagem na terra e através deles, muitos problemas na família poderão ser resolvidos e muitas negatividades na família podem ser evitadas ou substituídas por positividade.


Para conseguir todos esses benefícios é necessário fazer o Oro completo (cerimônia de enterro) para os sacerdotes mortos conforme vou resumir brevemente:


1- Ìwọ̀lẹ̀: Este é o ritual que é feito no dia do enterro dos mortos. Três coisas são feitas, itufọ (anúncio de seus mortos aos outros sacerdotes) - isso é importante porque alguns sacerdotes não morrem instantaneamente, alguns podem ir ao encontro de ancestrais e voltar acordados, então, nos esforçamos para esperar por outros Babalawo para confirmar se está morto ou não, porque se nesta reunião, todo o corpo se foi, confirma-se que ele/a morreu.


Portanto, o itufọ deve ser feito primeiro para evitar o enterro da alma viva. Em segundo lugar, ÌDÁ'FÁ Iwole - Aqui, seu Ikin Ifa deve ser consultado por um sacerdote para saber para onde ele está indo, quais são as coisas erradas que ele fez em vida para buscar o favor de Olódùmarè e todos os orisa, assim como o que ele quer dizer aos seus filhos e em algum momento, através deste, sabemos o que matou essa pessoa e o que acontecerá após sua morte e as recomendações para toda a família. Em terceiro lugar, ẹbọ será feito conforme prescrito na consulta de Ifá. Depois de tudo isso, os outros sacerdotes seguem o procedimento passo a passo para enterrar o corpo.


2- O Oro Ita/Itufa- este é o ritual do terceiro dia. Os detalhes não podem ser tratados por causa de sua natureza confidencial e sagrada.


3- Oroìje: É feito no sétimo dia, é a cerimônia fúnebre final para agradecer sua existência à humanidade. Muitos cantos, ìyèrè e canções são necessários, entre as canções está a seguinte:


E wá báwa ṣe

Ẹyin ará ọ̀run

E wá báwa ṣe o

Ẹyin ará ọ̀run

Ẹyin ará ilẹ

Ẹ wá báwa ṣe


Tradução:


Venha nos ajudar

aqueles no céu

Venha nos ajudar

aqueles no céu

Aqueles que estão no chão/terra/enterrados

Venha em nosso socorro ou favor.


Enquanto isso, neste sétimo dia, eles lavarão seu Ikin Ifa restante e farão oferendas a ele.


Durante o passar dos anos sua lembrança a cada ano também deve ser feita.


Em conclusão, é importante fazer os rituais certos para uma pessoa que morreu que tem Ifá em sua existência para seus benefícios e para os benefícios da família que ficou aye. Se esses rituais não forem feitos, o sacerdote não será aceito entre os sacerdotes que se encontram em orun(céu), ele estaria longe de Orúnmìlà e o poder de se tornar Egúngún será tão menor e a comunicação com os filhos será prejudicada, ou absolutamente nada e, finalmente, sua espiritualidade acabaria em algum momento.


No entanto é bem aceito que, caso a família não possa no momento fazer todo o ritual necessário, possa fazer posteriormente pois nunca é tarde, principalmente o Oro itufa pode ser feito, se o seu Ikin Ifa ainda estiver disponível. No entanto, Itufa é muito obrigatório após a transformação da vida e deve ser geracional.


Mesmo que tenhamos falado brevemente sobre o ritual para sacerdotes, espera-se que todos os que foram iniciados em Ifa façam este ritual, independentemente de serem sacerdotes ou não.


O nome Itufa, significa apaziguar Ifá ou acalmar Ifá, e não que Ifá esteja irado ou com raiva, é necessário compreender melhor esse termo dentro da cultura Yorùbá. Portanto, acredita-se que se este procedimento não for feito para um awo, o Ikin Ifá (representação do próprio Ifá) ficará insatisfeito e nós não estaremos felizes dentro da ótica espiritual de Ifá.


É por isso que sempre que alguém é iniciado, deve avisar aos seus filhos e sua família para que quando os rituais forem necessários, sejam feitos para aquela pessoa. Isso nos lembra imediatamente da necessidade de sermos leais aos nossos orientadores/Oluwo, de estarmos seguros quanto a sua responsabilidade e termos um relação de confiança.


A única diferença entre o Itufa de um sacerdote e de awo Ifá é apenas a extensão e a complexidade dos rituais elaborados. Por exemplo, se for um grande sacerdote/isa, terá uma cerimônia grande e elaborada, e se for apenas um jovem, será mais simples, o importante é que haja.


Com o Ikin Ifá do awo, o sacerdote poderá fazer tudo necessário perfeitamente sem nenhum problema, para que ele não tenha problemas em orun em sua nova vida espiritual.


Não sei quantas pessoas chegaram até o fim deste texto, mas o que quero dizer é que brincar de sacerdócio e com a vida das pessoas é algo grave que pode interferir na vida e após a vida de toda família.


Inventar rituais pode prejudicar a vida pós morte das pessoas, portanto não faça nada por modismo ou com alguém que não lhe dará suporte posteriormente, com quem é indiferente a vida e não tem responsabilidade.


Orisa não é apenas para esta vida, é para toda a sua existência como ser espiritual.


Iyalorisa Ifásolà Efungbemi/Egbekemi.

Babalawo Ajayi Ifadare Iyowu


PS: É importante salientar que o Babalawo Ifadare é Sacerdote exclusivo no Brasil do Ile Ase Obatala Oni Igba Iwa, ao lado da Iyanifa Ifásolà Egbekemi. O Babalawo não celebra rituais fora de nosso Ile em território brasileiro.

Somos uma pequena e grande família que têm como princípio preservar a tradição de Orisa e Ifá com lealdade aos princípios da religião, cientes de que existe uma grande diferença entre clientes e membros de nossa família, que é criteriosa com aqueles que a pertencem.




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